Na Hora H

 

A IRRIGAÇÃO ESTÁ CHEGANDO. QUE VENHA A IRRIGAÇÃO

ALYSSON PAOLINELLI

É muito bom ver que em algumas regiões do país se começa a pensar em combate definitivo à seca e aos veranicos por meio do melhor remédio para isto, que é a irrigação. Vejo estas iniciativas com duplo sentimento de alegria. Primeiro porque até que enfim o Brasil está descobrindo de forma séria o uso de um dos seus principais recursos naturais e que felizmente possuímos em abundância, pois estima-se que o Brasil detém cerca de 12% de toda água doce que circula no mundo. Segundo porque começamos a compreender que produzir alimentos é coisa séria e que não podemos ficar na dependência de episódio que repetitivamente nos coloca em risco, sem produção suficiente, fragilizando a nossa fama de fornecedores eficazes e permanentes, ainda nos colocando como devedores dos financiamentos oficiais e eternos pedintes de ajustes destas dívidas.

A irrigação é sem dúvida um grande avanço na produção agrícola e pecuária. Demonstra a maturidade do produtor em entender que os recursos naturais que felizmente detemos em nossos biomas são para serem usados de forma integral e equilibrados, para atingir o maior grau da produtividade possível, e sem degradar nenhum deles. A água é vida e como vida ela mantém os fenômenos biológicos que existem em nossos solos, que com ela se enriquecem e tornam mais férteis, aumentando a sua produtividade e constância na produção dos nossos alimentos. Quanto mais água formos capazes de manter em nossos solos, tanto melhor.

O ideal é que as águas das chuvas fossem totalmente retidas em nossos biomas para que os nossos solos fossem permanentemente fertilizados pelo permanente processo biológico que cria a sua riqueza. É também a melhor forma de possibilitar duas ou três safras por ano sem a correria atual de nossa safrinha. Basta que se tenham as temperaturas adequadas para se tirar até três safras de verão em um só ano. Mesmo que em algumas regiões as temperaturas caiam, mesmo assim pode-se adequar uma ou duas safras de verão e uma ou duas de inverno. Passa a ser a maneira mais intensiva de uso da terra. A irrigação é a mais eficiente forma de manutenção por mais tempo da água em nossos solos. Parabéns aos governos que estão estimulando a irrigação nos campos brasileiros. Os exemplos já existentes nos estimulam a dizer que agora vamos.

Há, no entanto, a necessidade de se alertar os mais incautos que um projeto de irrigação exige cautela e adequação. Em primeiro lugar, em algumas regiões do país as outorgas de água estão demorando até cinco ou mais anos para serem autorizadas. Tanto mexeram e tanto regularam que agora não há gente suficiente para atender a parafernália de regras estabelecidas, a maioria delas sem justa razão. Em segundo lugar, temos de levar em conta que no Brasil pagamos a energia mais cara do mundo. Em muitas regiões ainda hoje não existem as tarifas verdes, que aqui no Brasil não são tão verdes assim. Nossos competidores sabem disto e estão praticamente dando de graça a energia fora dos horários de pico. Em terceiro lugar, com os nossos custos reconhecidamente mais elevados, é necessário saber-se escolher as culturas cujos preços finais sejam capazes de remunerar os custos diretos e indiretos que caem sobre os nossos produtos antes de chegarem aos mercados. Em quarto lugar, a irrigação é um processo evolutivo que exige conhecimento de quem pretende usá-la e não perdoa aos imprevidentes e incapazes.

Fico feliz porque ela está vindo e está vindo pelo fruto de nossa competência e capacidade produtiva. Que venha e venha para ficar.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura