Eduardo Almeida Reis

 

TEMPO SECO

Não temos neve, mas temos seca, o que levou o professor doutor João Soares Veiga, eminente zootecnista, a escrever que, desde a introdução dos bovinos no Brasil por dona Ana Pimentel, mulher e procuradora de Martim Afonso de Souza, o brasileiro vem procurando desenvolver uma raça resistente à fome.

Agora em 2012 tivemos seca expressiva, que não chegou aos pés de uma outra, da década de 70, quando acabou tudo que havia para alimentar nossas vacas. Na recém-fundada Embrapa, aprendi que a “batata” do líriodo- brejo é santo alimento. Todo o lírio, que transmite cheiro ou gosto ao leite, tinha sido cortado para tratar das vaquinhas; restavam as “batatas”. Botei os compadres caçando as raízes nos brejos e caí na besteira de contar, na reunião da cooperativa, sobre o amido das raízes. Um colega, produtor havia séculos, foi admirável: “Se a gente catar as raízes, como é que vamos ter lírio na seca do ano que vem?”.

As áreas turfosas da Baixada Fluminense, no Sudeste brasileiro, não conhecem a seca e seus pastos de angola ficam verdinhos o ano inteiro. Em contrapartida, naquele mar de capim verde o gado fica magro e de pelo feio. Explicação: esgota sua capacidade de ingerir capim sem conseguir um mínimo de matéria seca para prosperar. A solução talvez fosse cortar o capim com equipamento tipo-Taarup, deixar secar durante horas e só então alimentar as vacas. Houve tempo em que pensei comprar por lá uma área, pois as terras eram baratíssimas. Hoje, a violência impede que se frequente aquela região.

Outro problema inevitável nas secas é o dos incêndios, não só no Brasil como também na Europa, nos Estados Unidos, na Austrália, na África. A combinação dos ventos com a vegetação seca torra centenas de milhares de hectares em todos os países, mesmo aqueles que têm bombeiros treinados e equipamentos moderníssimos, como aviões e helicópteros projetados para jogar toneladas de água sobre o fogo.

Não faz muito tempo, um incêndio lambeu quilômetros de florestas russas, numa região que passa meses debaixo de neve. Sobrou para o funcionário que administrava aquela região, demitido pelo Putin. A maldade humana garante que Vladimir Vladimirovitch Putin, nascido em São Petersburgo dia 7 de outubro de 1952, tenha hoje uma das maiores fortunas do planeta. Deve ser verdade, porque dia desses outro milionário russo deu à filha solteira, de 22 aninhos, uma cobertura de 80 milhões de dólares em Nova York.

Incêndios na seca, além dos estragos que provocam, ainda nos fazem o desfavor de inspirar os jovens jornalistas nas comparações com o tamanho do campo de futebol. Um incêndio de mil hectares, por exemplo, inspira a rapaziada a noticiar que é área equivalente a mil campos de futebol.

Duas besteiras, das grossas: a primeira, porque ninguém consegue “realizar” o que sejam mil campos de futebol. Tive fazenda de 500 hectares: por isso, posso realizar duas fazendas pegando fogo, mas mil campos de futebol?

A segunda besteira é ainda maior do que a primeira, porque mil hectares podem corresponder a 2.469 campos, como também podem equivaler a 926 campos de futebol, tendo em vista o fato de a demarcação dos gramados oscilar entre 4.050 e 10.800 metros quadrados.

Veja-se a situação dos nossos capins na seca. O jaraguá, excelente no tempo chuvoso, desaparece durante a seca inevitável. A massa do braquiarão ainda engana, sem que seu valor nutritivo seja o mesmo. Capineiras irrigadas e pastos próprios para as regiões menos quentes ajudam a quebrar o galho, mas boa mesmo é uma bateria de silos com silagem de ótima qualidade e feno abundante.

Acabo de voltar de uma drogaria, aqui na cidade onde vivo, pertencente a um cavalheiro chamado Modesto. De modesto não tem nada, porque sua cadeia tem mais de 100 drogarias imensas e ele, pessoa física, é o maior produtor de feno do Brasil. Vende seu feno por Ceca e Meca. O negócio não deve ser ruim, porque só tem aumentado em área plantada e rendimento por hectare.

Tem três filhas bonitas, cada uma herdeira de 40 drogarias e milhares de hectares de terras para fenação de bons capins e leguminosas. Só lhe falta, agora, um jovem jornalista para dizer que a área em que planta para fenar é equivalente a não sei quantos mil campos de futebol.