Plantio Direto

 

COBERTURA do solo bem feita é o diferencial

Professor Elmar Luiz Floss, engenheiro-agrônomo e licenciado em Ciências, Dr. em Agronomia, diretor do Instituto de Ciências Agronômicas (Incia), Passo Fundo/RS

Nos anos 1970/1980, a maior preocupação de produtores, técnicos e empresários rurais eram as perdas de solo por erosão, que causava o empobrecimento dos solos das lavouras, o assoreamento de mananciais hídricos e a poluição das águas. A adoção do sistema plantio direto (SPD) pelos produtores foi a maior revolução tecnológica na agricultura do Sul do Brasil, pois reduziu drasticamente a erosão do solo, melhorou a qualidade das águas, gerou economia de máquinas, equipamentos, óleo diesel e de mão de obra.

Além da redução de custos, houve um aumento linear do rendimento das culturas, pois melhorou o ambiente solo. O rendimento da soja, por exemplo, que era de aproximadamente 20/30 sacas por hectare em 1980, aumentou para mais de 50/60 sacas na safra 2011. A semeadura direta bem feita é um dos fatores responsáveis por esse aumento de rendimento das culturas. Mas, esse sistema somente tem vantagens quando efetivamente o cultivo é realizado num solo com abundante quantidade de palha na superfície. Por isso é comum falar-se em “plantio direto na palha”.

Importância da palhada — A cobertura do solo é essencial para que não haja o impacto direto da gota de chuva sobre o solo, causando a erosão superficial, a formação de uma crosta compactada, evitar o aquecimento do solo, que causa uma maior evaporação de água, além da formação de húmus, fundamental para a estabilidade dos agregados do solo. Consequentemente, a melhoria das propriedades físicas, como a redução da densidade e o aumento da porosidade, aumenta o armazenamento da água da chuva nos microporos e de ar nos macroporos.

Considerando nossas condições de temperatura e precipitações, as pesquisas recentes têm demonstrado uma necessidade anual de pelo menos 9 a 12 toneladas por hectare ano de palha seca para dar sustentabilidade ao SPD. Isto somente é conseguido caso, pelo menos uma vez a cada três anos, haja o cultivo de milho, trigo e aveia-branca. Infelizmente, nos últimos anos houve uma redução da produção de palha, pois ocorreu uma diminuição da área cultivada de milho e aumento da área de cultivo da soja. Também, as cultivares de milho utilizadas apresentam estatura cada vez mais baixa e, consequentemente, com menos palha. De outro lado, com o aumento crescente dos cultivares de soja superprecoces e de baixa estatura, a quantidade de palha produzida também é menor. O mesmo acontece com as novas cultivares de trigo, cevada e algumas cultivares de aveia-branca.

A cobertura do solo é essencial para que não haja o impacto direto da gota de chuva sobre o solo, o que causa a erosão superficial e a formação de uma crosta compactada, além de evitar o aquecimento do solo

Há ainda o manejo inadequado do pastejo dos animais nas forrageiras de inverno, implantadas nas lavouras por meio da integração lavoura-pecuária. A integração da lavoura com a pecuária de corte é uma excelente alternativa econômica e social na região, pois há condições de solo e clima para uma abundante e diversificada produção forrageira. Mas, para não prejudicar a sustentabilidade do SPD, os animais devem ser retirados pelo menos três semanas antes da dessecação da área para cultivo das culturas de verão, em sucessão.

Fazer uma adubação nitrogenada para que as plantas forrageiras rebrotem, formando uma adequada palhada na parte aérea, enquanto o crescimento das raízes realiza uma descompactação “biológica” da camada superficial do solo. Outro cuidado é não retirar toda a biomassa de aveia, azevém e outras forrageiras de inverno, na forma de feno e silagem, na mesma área, todos os anos. O ideal é um rodízio de áreas e realizar fenação e ensilagem na mesma área a cada cinco anos.

Qualidade da palha — A palhada que efetivamente influi na melhoria das propriedades físicas do solo é de gramíneas (cereais), pois apresentam uma relação C/N superior a 80, o que representa uma menor velocidade de decomposição dessa palha. A palhada de soja, feijão, ervilhaca, crotalária e nabo forrageiro, mesmo quando abundante, de relação C/N menor, tem uma decomposição muito rápida, contribuindo muito pouco para o aumento do teor de matéria orgânica no solo. Essas palhas são importantes recicladoras de nutrientes. E, com disponibilidade de carbono, de gramíneas, os microrganismos usam o N das palhas de relação C/N baixa para produzir húmus (ácido húmico, ácido fúlvico e humidatos).

A consequência da falta de palha é o aumento da erosão, fato agravado pela ausência de terraços. Observa-se que alguns produtores estão subsolando o solo e outros colocando novamente terraços nas lavouras. Essas duas práticas simplesmente tentam corrigir os efeitos do problema e não as suas causas. Cada vez que houver uma mobilização do solo, é acelerada a degradação da matéria orgânica, o que agrava o problema da estruturação física do mesmo. E seu efeito de descompactação é curto.

Um problema para a formação de palhada é o manejo inadequado do pastejo dos animais nas forrageiras de inverno, implantadas nas lavouras por meio da integração lavoura-pecuária

Enquanto não for planejado o aumento da produção de palha para condicionar fisicamente o solo, assim como a calagem condiciona quimicamente o solo, essas práticas são meramente paliativas. Isto pode ser feito por meio de uma adequada rotação de culturas, incluindo gramíneas produtoras de palha, abundante e resistente a decomposição. Escolher, dentre os cultivares de maior potencial de rendimento, aqueles que também deixam no solo uma grande quantidade de resteva.

Palha minimiza a seca — As estiagens, infelizmente, são mais previsíveis do que imprevisíveis no Sul do Brasil. A redução de efeitos da seca deve começar na própria propriedade, com a adoção de tecnologias de manejo do solo mais adequadas, como a diversificação na exploração agrícola, que reduz os riscos climáticos, sanitários e de mercado. Na lavoura, a diversificação de culturas é fundamental para sustentabilidade da produção e da renda da propriedade. Além de diversificar culturas, é preciso diversificar cultivares com diferentes ciclos e diversificar épocas de semeadura.

Sob condições de estiagem, as maiores diferenças de rendimento observam- se entre lavouras com abundante palhada de cereais de inverno e aquelas lavouras sem cobertura por ocasião da semeadura da soja. Sob maior palhada, há maior infiltração da água da chuva no solo, que mantém as plantas abastecidas por mais tempo quando se inicia a seca. De outro lado, a palhada como é clara, aumenta a reflexão dos raios solares, assim, há menor variação da temperatura do solo, reduzindo significativamente a evaporação da água, que reduz a disponibilidade de água para as culturas. Além desses efeitos benéficos das palhas, há ainda a reciclagem de nutrientes quando são decompostas pelos microrganismos do solo, o sequestro de carbono no solo, reduzindo sua difusão ao ar do gás carbônico, que influi no efeito estufa, causador do aquecimento global.

Floss: as pesquisas demonstram a necessidade de 9 a 12 toneladas por hectare/ano de palha seca, e isso só é possível caso, pelo menos uma vez a cada três anos, ocorra o cultivo de milho, trigo e aveia-branca

Essa palha é decomposta entre 12 a 18 meses, pelos microrganismos, dependendo da espécie. Para evitar que o carbono fixado na matéria orgânica seja liberado ao ar, deve-se colher a cultura de verão e, imediatamente, implantar uma cultura produtora de grãos ou de cobertura/adubo verde do solo. Essas culturas irão assimilar o nitrogênio e o gás carbônico liberado na decomposição da palhada da cultura anterior. É o sistema “colher-semear-colher”, evitando o vazio outonal. Nessas condições o solo estará coberto.

Revolução — O sistema plantio direto é uma tecnologia revolucionária e conservacionista, pois promove a melhoria das propriedades físicas, químicas e biológicas do solo. Consequentemente há maior infiltração de água da chuva, maior aeração, menor evaporação e perdas de solo por erosão, estímulo à atividade microbiana e a reciclagem de nutrientes. Entretanto, a sustentabilidade do SPD somente ocorre se houver uma disponibilidade anual de 9 a 12 toneladas/hectare de palha seca. A produção de palha deve ser planejada com importante fator condicionador física do solo, assim como a calagem é o mais importante condicionador químico do solo. O ideal, é que o solo permaneça coberto nos 365 dias do ano, seguindo a estratégia “colher-semear-colher”.