Agricultura Familiar

 

O mesmo espaço SUPERVALORIZADO

Luiz Bohn, Marcelo Ritter e Mateus Farias de Mello, Emater/RS

Os sistemas agroflorestais (SAF) têm como princípios básicos diversificar os ambientes e otimizar os processos e recursos disponíveis de forma harmoniosa com o meio ambiente. Para a implantação, é necessário definir a espécie-chave e que ela tenha adaptabilidade de solo, relevo, altitude e clima, pois ela será responsável pela principal renda. Após isso, é feita uma relação de espécies florestais e não-florestais que podem ser usadas (madeira, fruto, folha, casca, raiz, semente) e que façam parte de grupos diferentes, de acordo com a altura da planta adulta e com o ciclo e o comportamento no ecossistema de origem das espécies. Isso pode ser feito através de observação do comportamento das espécies em composições naturais.

Ao planejar a área, é preciso levar em conta a introdução de espécies que ocupem diferentes extratos de altura já adultas Marcelo Ritter/Emater-RS-Ascar e os espaçamentos devem variar de acordo com o local onde o sistema será implantado. Essa composição, juntamente com o ecossistema existente, é um dos fatores que garantem o bom desenvolvimento, a produtividade e a sanidade das espécies responsáveis pela renda. Se a área estiver pouco degradada, primeiramente, deve-se fazer cobertura de solo, começando com madeiras mais grossas e colocando, acima, galhos mais finos. Posteriormente, introduza folhas e caules herbáceos. Na situação de solos biologicamente mais degradados, preparam-se linhas para plantio e semeadura que podem ser distanciadas de quatro a cinco metros para que o material verde que cobre as entrelinhas seja acumulado nas linhas de plantio e semeadura. Nesses casos, pode ser usado adubos orgânicos, bem como pó de rocha e até calcário em casos de acidez de solo.

O manejo do sistema ao longo dos anos também é planejado: devem ser feitas podas da espécie-chave para melhor formação, poda de limpeza para produção das árvores mais longevas, assim como roçada seletiva das plantas do extrato mais rasteiro para limpeza e adubação. As intervenções de manejo periódicas têm o objetivo de manter o ritmo de ciclagem de nutrientes e energia e manter o vigor da atividade biológica. Esse fluxo de vida intensa é a responsável pela eficácia de produção e sanidade, tanto da flora como da fauna nativa circulante no sistema.

Na agrofloresta, não há inimigos ou pragas, porque os animais e insetos comem os frutos e os dispersam, assim como cortam plantas ou partes de plantas desequilibradas. Ou seja, fazem o manejo do sistema de forma a contribuir para a manutenção do ecossistema. Os sistemas agroflorestais propiciam a geração de renda durante todo o ano, em virtude da diversidade de plantas e alimentos gerados.

No Rio Grande do Sul, as experiências com agroflorestas compreendem desde os sistemas mais simplificados – como os silvopastoris, que integram a pecuária e o cultivo de árvores – até aqueles que apresentam um grau maior de complexidade, que misturam culturas anuais, citros e árvores, ou que mesclam culturas anuais, banana, palmeira juçara e árvores. Independentemente da complexidade, todos os sistemas agroflorestais partem da premissa de que o componente arbóreo é fundamental para o equilíbrio do mesmo.

Nos Vales do Sinos e do Paranhana, mais precisamente nos municípios de Araricá e Sapiranga, foi iniciado um processo de incentivo aos SAF por meio da construção participativa de duas unidades de observação (UO). Nesse processo, foram identificadas as espécies florestais com reconhecido potencial de uso pelos agricultores. A partir da caracterização das espécies e das características dos terrenos, foi elaborado um desenho dos sistemas entre os agricultores e técnicos. Atualmente, são realizados encontros periódicos com agricultores e técnicos da região para avaliar o desenvolvimento das UO e definir quais intervenções serão feitas.

No caso do Litoral Norte Gaúcho, os sistemas que estão sendo implantados, de modo geral, partem do enriquecimento de bananais já estruturados. Por tradição, alguns agricultores mantinham em suas propriedades algumas árvores de espécies “úteis” para sua subsistência, com o loropardo. Por observação, consideraram as áreas de bananal, onde permitiram o desenvolvimento dessas árvores. Na mesma lógica, aos poucos foram introduzindo frutíferas, cafezeiros e a palmeira juçara, conhecida pela extração do palmito.

Com o incentivo para reestruturar SAF, a frequência das outras espécies, além da banana, foi aumentando. No nível do solo, permitiu-se que algumas espécies mantivessem vivas para cobrir e proteger e, entre as bananeiras, árvores em baixa frequência com até dez indivíduos por hectare, mais a palmeira juçara em alta frequência, em diferentes estágios de vida. O cenário muda para um mosaico de textura de área foliar. O solo fica bem mais coberto de folhas mortas, e com um tramado de raízes.

Em um hectare, o produtor Lindomar Pereira Ramos, de Mampituba, calcula uma renda futura de 7 metros cúbicos de madeira nobre, que aos preços atuais flutuam entre R$ 1 mil e R$ 7 mil o metro cúbico. O rendimento da banana caiu em torno de 15%, dada a densidade de palmito, mas todo ano é possível colher em torno de 3 mil quilos da fruta da palmeira juçara, cujo preço está entre R$ 1 e R$ 2. Na visão dele, não se trata de incremento de renda, mas de redução de risco, pois a região é eventualmente atingida por fortes vendavais que cortam a produção de banana por 14 meses, logo, um grande período sem renda. Com as árvores e os palmiteiros, poderá manter-se até retomar a produção da banana, cortando o palmito ou colhendo suas frutas. É importante que, antes de implantar o SAF em sua propriedade, o agricultor procure o escritório da Emater/ RS-Ascar em seu município para estabelecer com os extensionistas o planejamento da atividade.