Florestas

  

PRAGAS exóticas que ameaçam o eucalipto

Carlos F. Wilcken, profesor da FCA/Unesp, Campus de Botucatu/SP

Na última década, plantações florestais e viveiros de eucalipto no Brasil têm sido afetados pelo ataque de pragas exóticas. As mais novas e que têm causado preocupação aos produtores são o percevejo bronzeado e a vespa-de-galha. O percevejo-bronzeado (Thaumastocoris peregrinus) é originário da Austrália. O inseto foi encontrado na África do Sul em 2004 e na Argentina em 2005. No Brasil a praga foi detectada nos estados do Rio Grande do Sul e de São Paulo em 2008. Até o momento, a praga está presente em 11 estados – RS, SC, PR, SP, MG, ES, RJ, MS, GO, BA e TO – mais o DF.

O percevejo bronzeado mede cerca de três milímetros e coloca seus ovos nas folhas e nos ramos de eucalipto. Após seis dias, eclodem as ninfas, que passam a sugar as folhas. Após aproximadamente 16 dias, elas se tornam adultos e que podem viver entre 30 a 40 dias. Os sintomas são o prateamento ou esbranquiçamento das folhas. Após alguns dias, essas folhas tornam-se cloróticas (amareladas). Em questão de semanas as plantações podem apresentar coloração marrom ou avermelhada, sintoma esse chamado de bronzeamento da copa. Daí vem o nome do inseto como percevejobronzeado. Esses sintomas variam de acordo com a espécie ou clone de eucalipto. Finalmente, ocorre a desfolha, que pode ser total nas plantas mais suscetíveis.

Efeito do percevejo-bronzeado: em questão de semanas as plantações podem apresentar coloração marrom ou avermelhada, sintoma esse chamado de bronzeamento da copa

A espécie mais suscetível é o Eucalyptus camaldulensis, mas o percevejo-bronzeado se adaptou às condições brasileiras e a maioria dos clones híbridos, principalmente os conhecidos como “urograndis”, são muito atacados. Não há dados conclusivos sobre as perdas, mas resultados preliminares indicam redução de 10% a 15% no volume de madeira produzida, em áreas com dois anos consecutivos de ataque. O período de ocorrência varia de acordo com as regiões. As maiores infestações ocorrem durante o período da seca, que vai de junho/julho a outubro/novembro no Sudeste e no Centro-Oeste e de janeiro a março no Rio Grande do Sul. O monitoramento da praga pode ser feito com armadilhas amarelas adesivas (10 x 12,5 centímetros) colocadas presas no tronco das árvores, para coletar a adultos e ninfas da praga. Ainda não há nível de controle dessa praga baseado nessas amostragens.

Vespa-de-galha — No final de 2007, outra praga foi encontrada em plantações brasileiras de eucaliptos: a vespa-de-galha (Leptocybe invasa). Essa espécie ataca preferencialmente Eucalyptus camaldulensis e clones híbridos com essa espécie. Esses materiais genéticos são mais usados para a produção de madeira e carvão vegetal. Em 2012 foram encontrados ataques também em alguns clones urograndis em São Paulo. A vespa de galha mede cerca de meio milímetro e tem preferência por atacar as partes novas da planta, principalmente gema apical e folhas novas. Sua reprodução ocorre por partenogênese, ou seja, todos os insetos que nascem são fêmeas que colocam seus ovos imediatamente após a emergência das galhas antigas.

Seu potencial de ataque é muito grande. Ela põe os ovos dentro da planta, que, com o passar do tempo, começa a formar um tipo de “tumor”, chamado da galha, que deforma as folhas e os ramos, prejudicando a circulação da seiva, causando secamento dos ponteiros, e impede o crescimento da planta. A praga também é originária da Austrália e se disseminou a partir da Ásia. Atualmente, está presente nos cinco continentes e nos principais países produtores de eucalipto do mundo, com exceção do Chile. A vespa de galha foi detectada no Brasil no nordeste da Bahia, em 2008. Até o momento, a praga está presente nos estados da BA, PE, ES, SP, MG, TO, MA, PR e MS. Há poucos relatos de ataque com danos no campo. Entretanto, o inseto é considerado como praga de viveiros de eucalipto, por afetar desenvolvimento e qualidade das mudas e por ser um risco de disseminação para as regiões produtoras.

Manejo — O manejo da praga ainda está em estudo. Há inseticidas sistêmicos que têm demonstrado alta eficiência de controle para o percevejobronzeado e vespa-de-galha, principalmente do grupo dos neonicotinoides. Entretanto, ainda não há produtos oficialmente registrados para essas pragas em eucalipto e há o agravante dos inseticidas imidacloprid e thiamethoxam estarem desautorizados para pulverização aérea, conforme comunicado do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), publicado em julho de 2012, o que complica seu uso para o controle do percevejo-bronzeado, que ataca plantações de um a cinco anos de idade, entre 6 a 25 metros de altura das árvores.

Para a vespa-de-galha, o transporte de mudas também pode colaborar para a disseminação. O ideal é plantar mudas obtidas de viveiros dentro de cada estado, de forma a restringir a circulação de mudas dos locais em que há presença da praga para outras regiões. Medidas de controle químico e biológico devem ser adotadas, mas ainda requerem mais estudos. A principal recomendação é evitar plantios com clones baseados em E. camaldulensis, porque há alto risco de grandes infestações, gerando perdas significativas aos produtores. A principal estratégia de controle em desenvolvimento é baseada no controle biológico, com introdução de inimigos naturais do país de origem (Austrália).

O parasitoide Cleruchoides noackae é uma vespinha de 0,4 milímetro que parasita os ovos do percevejo-bronzeado. Esse parasitoide está sendo introduzido oficialmente no Brasil desde 2011 e foram realizadas as primeiras liberações no campo a partir de agosto de 2012.

Até o momento, a vespinha foi liberada em empresas florestais de Minas Gerais e São Paulo, em áreas altamente infestadas pela praga. As avaliações do parasitismo em campo estão sendo conduzidas. Esse programa de controle biológico está sendo financiado por 18 empresas florestais brasileiras e uruguaias, sob coordenação do Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (Ipef), situado em Piracicaba/ SP, e com participação de universidades (Universidade do Estado de São Paulo, Campus Botucatu/SP, e Universidade Federal de Viçosa/MG) e das unidades da Embrapa Meio Ambiente e Florestas. Em 2013 serão realizadas mais liberações nos demais estados infestados pela praga.

Com relação à vespa-de-galha, foi encontrada no Brasil uma espécie de parasitoide que parasita as larvas da vespa dentro das galhas. Esse inimigo natural ainda está sendo estudado e sua distribuição geográfica está determinada. Outros métodos potenciais de controle são a resistência das plantas, por meio da seleção de clones de eucaliptos resistentes e o uso de inseticidas biológicos à base de fungos entomopatogênicos. Até o momento, o fungo Beauveria bassiana é que tem demonstrado melhores perspectivas de uso no campo.