Pulverização

 

Você já pensou na ÁGUA da calda?

Entre os muitos fatores que definem a eficiência na aplicação do defensivo, nem sempre é levada em consideração a água utilizada para diluir o defensivo. Sobretudo suas características químicas e físicas

Marcelo Silveira de Farias, José Fernando Schlosser, Ulisses Giacomini Frantz e Letícia Frizzo Ferigolo, do Núcleo de Ensaios de Máquinas Agrícolas (Nema) da Universidade Federal de Santa Maria/RS

Acrescente demanda mundial por alimentos força o uso cada vez maior de tecnologias que venham a incrementar a produtividade das culturas. Dentre essas, o uso da mecanização e a aplicação de técnicas agrícolas eficientes possibilitaram o aumento da produção e da rentabilidade agrícola. Assim, surgiu a chamada “tecnologia de aplicação de produtos fitossanitários”, que se tornou a prática de aplicar produtos químicos, indispensável para melhorar a viabilidade econômica e ambiental do sistema de produção agrícola atual.

Água com algas, liquens e restos de folhas presentes em lagoas, se, no momento do abastecimento, não forem eliminadas pelos sistemas de filtragem, provocam entupimentos de bombas, filtros e pontas de pulverização

O sucesso da aplicação, que resulta no controle das pragas e na manutenção do equilíbrio ambiental e econômico, está diretamente relacionado aos seguintes fatores: regulagem e calibração do pulverizador agrícola, com a consequente seleção adequada de pontas de pulverização (tamanho de gotas) e volume de calda, além da escolha do momento adequado de aplicação, que reúna condições meteorológicas favoráveis e a qualidade da água utilizada para compor a calda a ser aplicada. O uso da tecnologia de aplicação adequada tem como fundamento aperfeiçoar as operações de aplicação de insumos químicos e orgânicos necessários para a boa condução das culturas agrícolas. Com estes adequados procedimentos pode-se aumentar a eficiência dos princípios ativos, evitar desperdícios de defensivos (deriva, sobreposição, etc.), diminuindo a contaminação do ambiente provocada por estes usos inadequados de produtos e máquinas.

Constantemente, tem-se notado uma diminuição na eficiência da ação dos defensivos sobre os agentes causadores de danos nas culturas, preocupando, cada vez mais, pesquisadores e técnicos ligados à área. Essa diminuição pode ser causada, na maioria das vezes, pela utilização incorreta e sem critérios dos defensivos, além do que, observa-se a falta de informação entre os operadores a respeito da tecnologia de aplicação, principalmente no que se refere à qualidade da água, utilizada para pulverização agrícola.

Importância — Como mencionado anteriormente, muitos são os fatores que influenciam na qualidade das aplicações. No entanto, de nada adianta o controle de todos esses fatores, se a qualidade da água utilizada nas pulverizações não for analisada e levada em consideração. Na agricultura, a água utilizada para a preparação da calda de pulverização, que será utilizada na aplicação de defensivos, pode não preservar a integridade destes produtos, em decorrência de inadequação das características físico-químicas da água, o que diminui a atividade dos princípios ativos.

Muito se tem discutido atualmente sobre a qualidade química da água utilizada nas pulverizações, principalmente com relação à acidez e alcalinidade, representados pelo pH (Ramos & Durigan, 1998). Em algumas regiões do país, este parâmetro virou sinônimo de qualidade da água. Embora em parte correto, a qualidade da água deve ser encarada de uma forma mais completa de forma a não induzir a erros na interpretação de resultados e, muitas vezes, falhas na aplicação. Essa característica pode ser abordada sob dois aspectos: a qualidade química da água (pH, dureza e íons dissolvidos) e a qualidade física (presença de argila e matéria orgânica) (Theisen & Ruedell, 2004).

Qualidade química — A medida do pH define o grau de acidez ou alcalinidade de uma solução, em uma escala de 0 a 14, onde 7 significa neutralidade, isto é, mesma quantidade de hidrogênio e hidroxila. Valores menores que 7 são ácidos (maior quantidade de hidrogênio) e maiores que 7 são alcalinos (maior quantidade de hidroxilas). Souza & Velloso (1996) afirmam que os herbicidas do grupo químico das imidazolinonas, especialmente imazethapyr e imazapyr, têm sua absorção foliar aumentada quando o pH da água utilizada na preparação da calda está na faixa de 4 a 4,5. Isso também é observado para outros herbicidas, como o glyphosate. Kissmann (1997) relata que o pH da água pode influir no resultado da aplicação, pela seguinte razão: quando o pH da água está alto, pode acelerar a degradação do herbicida por hidrólise alcalina.

Além do pH, a dureza (presença de CaCO-3) da água também pode afetar a estabilidade da calda e a eficiência dos herbicidas, pois, geralmente, águas captadas pelos agricultores em zonas rurais apresentam uma série de sais dissolvidos. Esses sais podem ser oriundos de constituintes naturais de rochas e do solo ou de corretivos e fertilizantes aplicados pelos próprios agricultores.

A qualidade química da água deve também ser analisada em função da quantidade de outros íons que nela estão dissolvidos e que não são constituintes da dureza. Os íons como Fe+3 e Al+3, por exemplo, podem reagir com o produto fitossanitário, reduzindo sua eficácia. Em solução, certo percentual de moléculas solúveis é dissociado em íons. Esses íons livres (Al+3, Zn+2, Ca+2, Mg+2, HCO-3, NO-3) podem combinarse com moléculas orgânicas, como é o caso da reação dos íons de 2,4-D com Ca+2 e Mg+2 (Nalewaja; Matysiak, 1992) e da quelação desses íons pelo glyphosate (Sthalman; Phillips, 1979). Isso diminui a quantidade de ingrediente ativo disponível, que, por sua vez, diminui a eficiência biológica do herbicida (Buhler; Burnside, 1983; Thelen et al., 1995), além de causar o entupimento das pontas e filtros de pulverização, em função da aglutinação e precipitação de partículas. Herbicidas como glyphosate, 2,4-D amina, paraquat, sethoxydim, clethodim, bentazon, chlorimuron-ethyl e imazethapyr podem ter sua eficiência afetada quando aplicados com águas duras e calda com pH alcalino.

Qualidade física — É sabido que a maioria dos agricultores utiliza água de diferentes fontes a céu aberto (açudes, rios, arroios, sangas e vertentes) para aplicação de produtos fitossanitários nas mais diversas culturas agrícolas. Estes reservatórios estão sujeitos à influência das águas das chuvas, fazendo com que a utilização de água limpa para estes fins nem sempre seja possível. Neste sentido, é interessante saber até que ponto a argila e outros materiais em suspensão na água podem comprometer a eficácia destes produtos, principalmente de alguns herbicidas aplicados em pós-emergência nas plantas daninhas à cultura.

A maioria dos agricultores utiliza água de diferentes fontes a céu aberto, como açudes, rios, arroios, sangas e vertentes, ou seja, uma água que nem sempre se mantém limpa

Após um período de chuva, com o passar de alguns dias a água pode permanecer turva, visto que as partículas em suspensão possuem cargas de mesmo sinal (negativas) e se repelem (dispersão). Estas cargas são as que adsorvem os agrotóxicos, pois retêm algumas moléculas em sua superfície. Suspensões inorgânicas que podem conter limos e argilas são extremamente abrasivas e geram um desgaste acelerado de vários componentes das máquinas, principalmente mecanismos de precisão como os manômetros e os reguladores de pressão. Já as orgânicas, tais como algas/liquens, restos de folhas, entre outras, que podem estar presentes em lagoas, se, no momento do abastecimento, não forem eliminadas pelos sistemas de filtragem, provocam entupimentos de bombas, filtros e pontas de pulverização.

A determinação simples, aliada à importância de parâmetros para o aspecto visual da água, transforma a turbidez e a cor aparente em bons indicadores de chances de contaminação da água destinada à aplicação de agrotóxicos no meio rural. Em geral, águas cristalinas apresentam turbidez menor que 10 UNT (unidade nefelométrica de turbidez) e, em águas muito turvas, a turbidez da água é maior que 20 UNT (Fatma, 1999).

E os adjuvantes — Os adjuvantes são substâncias químicas que se agregam à calda de pulverização (água + produto fitossanitário) com a propósito de melhorar a atividade ou desempenho dos produtos fitossanitários e minimizar ou eliminar os problemas de pulverização, modificando as características físicas da calda. Como algumas das funções destes produtos pode-se citar a melhoria na aderência, compatibilidade, correção de pH, abrandamento de águas, redução de espuma e evaporação, penetração, minimização da deriva, entre outras. Sendo assim, os adjuvantes reduzem ou eliminam muitos problemas das aplicações de produtos fitossanitários e é cada vez mais frequente a necessidade de uma combinação desses produtos, compatíveis e complementares entre si, para multiplicar seus efeitos benéficos.

Leiva (2010) realizou um experimento utilizando um corretor de pH para o controle de plantas daninhas na cultura do sorgo, utilizando glyphosate e água contendo matéria orgânica para a pulverização. A água com pH 5,8 controlou apenas 40% das plantas daninhas, já com um pH de 4,4, mediante o uso do corretor, o controle superou 80%. O corretor de pH neutralizou os sólidos, reduziu a adsorção do glyphosate e, como consequência, ocorreu maior disponibilidade do herbicida para controlar as plantas daninhas. A utilização de água de boa qualidade, com parâmetros químicos e físicos dentro dos padrões aceitáveis, é extremamente importante para aumentar a eficiência da pulverização agrícola. Tendo em vista que a água imprópria para este fim pode provocar em alguns herbicidas, por exemplo, modificação no seu princípio ativo (desativar ou adsorver), desgastar mecanismos de precisão da máquina e entupir bombas, filtros e pontas de pulverização.