Soja

 

Nematoides: VIGILÂNCIA é a palavra de ordem

A prática mais comum de manejo dos nematoides nas lavouras no mundo é a rotação/sucessão de culturas, desde que a cultura subsequente não seja hospedeira do nematoide presente na área. Mas existem outras ações que diminuem incidência ou danos da praga

Jaime Maia dos Santos e Pedro Luiz Martins Soares, professores assistentes e doutores, departamento de Fitossanidade, Unesp/FCAV, Jaboticabal/SP, e eng. agr. doutor Bruno Flavio Figueiredo Barbosa, Agrolatino Biotecnologia, Matão/SP

Mais de 100 espécies de nematoides, de cerca de 50 gêneros, já foram assinaladas em cultivos de soja em todo o mundo. Entretanto, apenas algumas delas são consideradas pragas- chave da cultura e essas podem variar de região para região. Nas principais regiões produtoras do Brasil, Meloidogyne javanica e M. incognita, chamados de nematoides de galha, Heterodera glycines (o nematoide de cisto da soja), Rotylenchulus reniformis, referido como o “nematoide reniforme”, e Pratylenchus brachyurus, um dos “nematoides das lesões radiculares”, são as espécies de importância econômica para a cultura. Em casos pontuais, como a região geoeconômica de Araguaina/TO, Marechal Cândido Rondon/PR, Chupinguaia/RO e em algumas outras poucas áreas no país, os nematoides Tubixaba spp. são pragas devastadoras de praticamente todas as culturas, particularmente da soja.

À exceção do nematoide de cisto da soja, esses nematoides são autóctones (nativos) nas regiões onde ocorrem, apesar de estarem frequentemente sendo dispersos dentro das fazendas e, até mesmo a distâncias maiores, principalmente por meio de máquinas e veículos. Por conseguinte, são bem adaptadas às condições edafoclimáticas das áreas onde ocorrem. Nos últimos anos, P. brachyurus vem se tornando a praga dominante, principalmente por se tratar de um nematoide de hábito migrador, enquanto os nematoides de galha, o nematoide de cisto e o nematoide reniforme são sedentários.

Os nematoides de galha, historicamente, foram os mais danosos para a cultura de soja, no Brasil, até o surgimento do nematoide de cisto da soja, sendo que M. javanica foi a espécie dominante. Plantas de soja infectadas pelos nematoides raramente morrem. Com efeito, este fato é uma regra entre os parasitos obrigatórios. Entretanto, em caso de infecção concomitante com situações de estresse acentuadas, tais como um veranico prolongado, a morte de plantas pode ocorrer. Esse fenômeno foi documentado numa lavoura de soja do município de Luis Eduardo Magalhães/BA.

Com o surgimento do nematoide de cisto da soja, em 1991, essa espécie, nas áreas onde ocorria, passou a ser a espécie dominante. Nos últimos anos, P. brachyurus vem se tornando a espécie de nematoide dominante na cultura da soja no Brasil. No Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Oeste da Bahia, sul do Piauí, Tocantins e na região de Balsas, no Maranhão, esse nematoide atualmente é a espécie que tem causado maiores perdas em soja e milho. Em verdade, H. glycines e M. javanica são nematoides sedentários. Se juvenis de segundo estádio desses nematoides penetrarem e formarem seus sítios de alimentação numa radicela que vier a ser colonizada e necrosada depois por Pratylenchus brachyurus, eles morrerão com a morte da radicela.

Por outro lado, os espécimes de P. brachyurus migrarão para o solo em busca de outras radicelas, uma vez que são migradores. Esse fato, somado à mudança do plantio convencional para o plantio direto, onde não mais se praticou o revolvimento do solo, a ausência de rotação de culturas com não-hospedeiras e a carência de materiais de soja e de milho resistentes ao nematoide são os principais condicionantes que estão fazendo com que P. brachyurus se torne a principal espécie de nematoides em nossos agroecossistemas.

Inicialmente, os sintomas na lavoura surgem em reboleiras, às vezes muito pequenas. O plantio continuado de soja na safra e milho na safrinha, escolhendo-se, sempre, os materiais tidos como os mais produtivos, sem se levar em conta a necessidade da interrupção do ciclo de vida do nematoide com materiais resistentes, ainda que não sejam os mais produtivos, para certos talhões ou parte deles onde foram observadas reboleiras no plantio anterior levam a situações de perdas.

Manejo sustentável — O manejo dos nematoides deve ser encarado como uma prática permanente na fazenda, em vez do que é usualmente praticado, ou seja, ignoram- se os nematoides até enquanto os danos sejam tidos como toleráveis. Quando o impacto das perdas é sentido, então se procura uma solução. Essa postura é incompatível com os conceitos da agricultura sustentável, e as fazendas que não mudarem o seu enfoque, certamente estarão numa espiral que poderá tornar boa parte de suas áreas inviáveis para o cultivo da soja, pelo menos por certo período.

O enfoque sobre o manejo de nematoide em culturas anuais extensivas deve levar em consideração todo o sistema de produção. Se a cultura em sucessão também for suscetível a uma ou mais das espécies- chave presentes na área, certamente, a próxima safra sofrerá expressiva queda de produtividade. Isso porque a população do nematoide continuaria crescendo na cultura em sucessão, de modo que na safra de verão seguinte a população inicial no solo estaria numa densidade tal que comprometeria o crescimento da cultura. Essa prática tem feito com que os nematoides se tornem o principal fator restritivo ao aumento e à manutenção da produtividade da soja em muitas fazendas. Esse é o caso das cultivares comuns de milho em sucessão à soja nas áreas infestadas por Pratylenchus brachyurus ou pelos nematoides de galha (Meloidogyne spp.).

Por outro lado, se a cultura em sucessão não for hospedeira favorável do nematoide presente, a população da praga será consideravelmente reduzida. A utilização de um genótipo de milheto ou de milho resistente ou de espécies de crotalária na safrinha reduz a população do nematoide para a safra subsequente, que, aliada ao tratamento de sementes, por ocasião do plantio da safra de verão seguinte, pode propiciar o manejo da população dos nematoides, mesmo em áreas com elevada pressão da praga.

Apenas o tratamento de sementes visando ao manejo de P. brachyurus também para áreas onde ainda não se observa sintomas da infecção pode ser uma estratégia relevante. Com efeito, estudos recentes realizados na Associação dos Produtores de Sementes do Mato Grosso (Aprosmat), em Rondonópolis/MT, demonstraram que esse nematoide está presente em 96% das áreas de plantio de soja, mesmo sem a expressão de sintomas. O tratamento de sementes com produtos que exibam um espectro mais amplo de ação, portanto, protege a cultura na fase mais vulnerável de seu desenvolvimento, permitindo que o produtor, acertadamente, se antecipe à ocorrência de danos causados pelo nematoide e, ainda, proteja sua cultura contra outras doenças e pragas iniciais.

A ausência de revolvimento e exposição do solo à ação do sol, com a introdução do plantio direto a partir do final da década de 1960, a suscetibilidade da soja e das culturas incluídas nos sistemas de produção, as condições edafoclimáticas favoráveis e o hábito migrador do nematoide foram os principais condicionantes para que P. brachyurus se tornasse uma das principais pragas da soja, em quase todas as regiões produtoras do País. Perdas superiores a 50% e até perda total em talhões de algumas fazendas já foram observadas.

Conquanto os danos causados pelo nematoide de cisto tenham sido alarmantes nos primeiros anos após os registros da ocorrência da praga no Brasil, atualmente é aceito que os nematoides de galha (Meloidogyne spp.) e Pratylenchus brachyurus podem causar perdas à cultura ainda maiores. Isso porque embora a distribuição geográfica do nematoide de cisto esteja em constante expansão no país, os nematoides de galha (Meloidogyne spp.) e P. brachyurus já estão presentes na maioria das áreas onde a soja é cultivada, comprometendo o desenvolvimento e a produtividade da cultura. O Pratylenchus brachyurus é um endoparasito migrador.

Se a cultura estiver em fase de crescimento, poucos indivíduos serão encontrados no solo. As raízes das plantas atacadas se tornam necróticas e escurecidas, com fácil desprendimento do córtex e, comumente, a haste se torna arroxeada. Embora também ocorra clorose nas plantas infectadas por esse nematoide, essa é sempre menos intensa que a observada nas reboleiras formadas por H. glycines, ou mesmo por M. javanica. A acentuada redução no crescimento das plantas é muito mais característica das infecções por P. brachyurus que a clorose.

Embora H. glycines infecte também algumas outras espécies de plantas, esse nematoide nos agroecossistemas brasileiros é uma praga específica da soja. Esse fato torna o manejo da praga tecnicamente mais fácil com rotação de culturas, mormente se considerarmos que os sistemas de produção de soja no Brasil usualmente já envolvem a sucessão de culturas, quer com milho, quer com algodão ou outras não hospedeiras. O cultivo de milho suscetível nas áreas infestadas na safrinha propicia o contínuo aumento da população de P. brachyurus, de modo que, na safra de verão subsequente, as perdas na soja poderão ser ainda maiores. Ao contrário, se o híbrido de milho for resistente, haverá redução da população do nematoide, beneficiando a cultura de soja que viria em seguida. Essa informação deve nortear as decisões da equipe responsável pelo planejamento geral da fazenda.

Práticas erradas — O solo é um componente vivo do ecossistema e os nematoides são uma fração da biota do solo. A ocorrência de danos causados por essas pragas denuncia que práticas inadequadas vêm sendo adotadas na fazenda. Para corrigi-las, é imperioso que medidas visando à interrupção do ciclo de vida dessas pragas sejam implementadas. O manejo dos nematoides, portanto, requer uma contínua vigilância e conhecimento do papel que essas pragas estão tendo no desempenho das culturas.

A prática mais comum de manejo dos nematoides no mundo é a rotação/sucessão de culturas, sendo a cultura subsequente não hospedeira do nematoide presente na área. A carência de culturas não hospedeiras e que sejam rentáveis para os produtores é uma das principais limitações para o uso dessa prática. A utilização de cultivares resistentes, se disponível, é outra prática muito eficaz. No Brasil, entretanto, não tem sido utilizada com o critério requerido. De fato, quando é lançada uma nova cultivar resistente a certas raças do nematoide de cisto, por exemplo, a comunidade de produtores, então, só planta esse material. Isso tem feito com que a pressão de seleção a torne ineficaz em relativamente pouco tempo e, além disso, uma nova raça do nematoide é selecionada na área.

A utilização de materiais de milheto, notadamente os da série ADR, que interrompem o ciclo de vida dos nematoides e ainda trazem outros benefícios, tais como o fornecimento de palhada, a descompactação natural do solo, a ciclagem de nutrientes, e que não hospedam outros patógenos, como o agente causal do mofo branco (Sclerotinia sclerotiorum), é outra prática que tem contribuído, em muito para a consolidação do plantio direto nos cerrados. Mais recentemente, híbridos de milho resistentes aos nematoides de galha e a P. brachyurus foram incorporados ao mercado e estão dando expressiva contribuição ao manejo dos nematoides e à agricultura sustentável.