Coréia do Sul

 

Tecnologia COREANA chega à agricultura brasileira

A reportagem d’A Granja atravessou o mundo para conhecer por dentro a LS Tractor, maior fabricante de tratores da Coreia do Sul, que passa a fabricar tratores no Brasil, em Garuva/SC, a partir de junho de 2013

Leandro Mariani Mittmann* - [email protected] - Texto e fotos

O Brasil, já habituado a desfrutar cotidianamente da alta tecnolo gia sul-coreana de marcas consolidadas de veículos, celulares, televisores e inúmeros outros equipamentos, agora terá a oportunidade usufruir também de tratores com o mesmo DNA. A LS Tractor, pertencente à empresa LS Mtron, que, por sua vez, integra o Grupo LS (13º maior grupo empresarial da Coreia do Sul), anunciou, no mês passado, a chegada ao Brasil. Em Garuva, no norte de Santa Catarina, construirá a fábrica que vai produzir, a partir de junho de 2013, tratores com potência até 100cv. Até lá, 330 modelos da marca serão importados pelas concessionárias para que já conquistem mercado no país. Seis modelos já estão em testes nas condições brasileiras. A capacidade da unidade será de 10 mil tratores por ano.

Em novembro, um grupo de jornalistas brasileiros, incluindo d’A Granja, foi convidado a conhecer o cerne da empresa, cuja sede fica em Gyeonggi-do, nos arredores de Seul, e a fábrica em Jeonju, a 275 quilômetros da capital. A ideia dos sul-coreanos em levar a imprensa especializada foi esclarecer que a marca sul-coreana não é uma aventureira asiática, e que os tratores LS Tractor chegam ao Brasil em condições de competir em qualidade e eficiência com as marcas aqui já consolidadas. O Grupo LS, que derivou da empresa eletrônica LG, fabrica uma infinidade de produtos, desde componentes de celulares, bombas injetoras, cabos, autopeças como mangueiras de borracha e até esteiras para tanques de guerra (uma das três maiores do mundo no segmento). Emprega mais de 21 mil pessoas em 25 países e teve um volume de comercialização de US$ 30 bilhões no ano passado. Os tratores são fabricados desde 1976, então com a marca LG.

Em tratores, a marca lidera o mercado sul-coreano, com 40% de share. A LS Tractor mantém uma unidade fabril na Coreia do Sul (capacidade de 20 mil máquinas/ano) e outra na China (30 mil tratores). A empresa fabrica tratores com potência entre 25cv e 100cv e, no ano passado, faturou US$ 303 milhões em vendas a partir da comercialização de pouco mais de 13 mil unidades, 30% a mais que no ano anterior, e projeta US$ 360 milhões para 2012, com 18 mil vendas. Os tratores da marca são enviados para 25 países. Nas lavouras brasileiras já estão em atividade 400 unidades da LS Tractor, mas com a marca Montana. Da mesma forma, os tratores LS chegam aos Estados Unidos com a marca New Holland (são 6 mil tratores/ ano com potência até 50cv), sendo que esta marca americana fornece tratores para a LS Tractor – com potência até 130cv – para o uso da agricultura sul-coreana.

No Brasil, a meta da empresa é conquistar 15% do mercado até 100cv e se tornar uma das quatro maiores nesse segmento – e, até 2015, ser uma das cinco maiores do mundo nesta faixa de potência. O objetivo é fabricar no ano que vem 5 mil tratores em Santa Catarina. “O Brasil se apresenta como um excelente mercado para a nossa linha de produto”, justificou Kwang-Won Lee, presidente da LS Tractor, ao justificar a importância do país dentro da meta de ser top-5 no mundo. Lee considera que o Brasil “tem uma agricultura maravilhosa com produtores especializados”. A LS Tractor começou a projetar a fábrica brasileira em 2010, até concluir pela instalação. A empresa também quer fazer da fábrica de Garuva, onde empregará 100 funcionários diretos e 600 indiretos, uma plataforma de distribuição para a América do Sul. A meta é gerar 30 a 40 modelos divididos em quatro séries.

Num primeiro momento, assim como ocorreu com a fábrica chinesa, será “transferida” a tecnologia empregada na unidade da Coreia para a de Garuva. Mas, depois, a proposição é desenvolvê-la no Brasil. Até o presidente da fábrica deverá, no futuro, ser brasileiro. Os modelos a serem inicialmente fabricados em Santa Catarina são os seguintes: Série P – 103cv, 85cv, 75cv; Série U – 57cv; Série R – 57cv, 47cv e 38,5cv. A Série P já nasce nacionaliza e, portanto, apta a ser financiada por linhas como Mais Alimentos. As demais levarão de dois a três anos para atingir tal condição. A empresa anuncia que num primeiro momento os preços serão mais baixos que os dos competidores, visto que a marca é desconhecida do consumidor brasileiro, mas, depois, o produtor saberá que o trator com suas configurações se mostrará superior aos modelos concorrentes, com características como o câmbio com 12 marchas para frente e 12 de ré. “O consumidor vai reconhecer que o produto da LS Tractor é mais vantajoso”, garante Lee.

Para obter espaço no Brasil, o executivo argumenta que a empresa vai oferecer “luxo com preço competitivo” e tratores até 100cv com pacote de benefícios semelhante ao de tratores grandes. “Vão poder experimentar uma nova realidade”, atesta Lee o que os clientes brasileiros podem aguardar. Os tratores são submetidos a 800 horas de testes antes de irem a campo, o que demanda seis meses. Caso o modelo apresente algum problema, são mais seis meses de teste. Este é o padrão que deve ser confiado ao consumidor brasileiro, justifica Lee. “Queremos entregar serviço e produto de qualidade”, sintetiza. Até o mês passado, já estavam definidos 12 concessionários nos cinco estados que a LS Tractor pretende atuar: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Minas Gerais. Os profissionais destas empresas já estão sendo preparados para prestar a assistência técnica pós-venda.

Kwang-Won Lee, presidente da empresa: o brasileiro vai reconhecer que o produto da LS Tractor é mais vantajoso

Trator híbrido — A LS Tractor investe de 5% a 7% do valor de vendas anuais em pesquisa e desenvolvimento. Um novo motor, por exemplo, exige até US$ 4 milhões de investimento. Um dos resultados da pesquisa da LS Tractor é o trator híbrido – diesel e elétrico. A empresa desenvolveu um sistema que faz com que, por meio de um dínamo, o próprio funcionamento do motor gere energia elétrica a ser consumida pelo trator, o que aumenta sua potência em 10%. O modelo híbrido, que ainda é um protótipo, mas será fabricado a partir de março (na unidade coreana), possui 100cv e, portanto, transforma-se em 110cv. O desenvolvimento do motor híbrido, o primeiro no mundo, consumiu dois anos de pesquisa.

*O jornalista esteve na Coreia do Sul a convite da LS Tractor


“BASE DO DESENVOLVIMENTO DA COREIA VEIO DA AGRICULTURA”

O “tigre asiático”, apelido que a Coreia do Sul ganhou a partir do seu espantoso e recente desenvolvimento econômico, tecnológico e social, teve a arrancada na agricultura. Quem conta é Seung-Je Park, professor da universidade Chonbuk, sediada em Jeonju, uma espécie de Esalq/USP da Coreia do Sul no que se refere à pesquisa e ao ensino em agricultura. Ao lado de outros três professores, ele recebeu a comitiva brasileira e descreveu o agronegócio sul-coreano. Explicou como e porque o país pulou de subdesenvolvido, até os anos 1970, para uma nação desenvolvida e com alto padrão de vida. Segundo ele, a partir do investimento em agricultura, com melhorias em maquinário e sementes de arroz, por exemplo, a Coreia do Sul passou a ser autossuficiente no cereal. Após conseguir alimentar a população – só depois, portanto –, foi a vez de investir na educação. “A base do desenvolvimento da Coreia veio da agricultura”, resumiu o professor, que mencionou a empresa Hyundai como outro exemplo coreano que a partir do investimento na agricultura se tornou gigante.

Conforme Park, quase 100% da pesquisa em agricultura na Coreia é financiada pelo Governo, mas há projetos independentes de empresas e universidades. O professor descreve que o país planta 1 milhão de hectares de arroz, onde colhe 5 milhões de toneladas, além cultivar milho e trigo em menor escala. As propriedades têm em média um hectare. Também são produzidas hortaliças, sempre num sistema protegido de estufas em razão do frio. No início, as estufas eram apenas para proteger as plantações, mas a técnica foi sendo aperfeiçoada visando ampliar as produtividades, e hoje a Coreia até pesquisa o plantio em estufas na Antártida, cuja iluminação que leva a plantas a se desenvolverem é artificial. A carne de gado é importada de Austrália, Estados Unidos e Canadá; a de suínos, de Bélgica e Dinamarca, e o país produz frango. Não há muito espaço para a agricultura no país, pois, de acordo com Park, 70% da Coreia do Sul é formada por montanhas.