Reportagem de Capa

 

INVESTIMENTOS no horizonte

A rentabilidade positiva da última safra e a boa perspectiva para o ciclo 2012/2013 trazem uma questão comum a muitos produtores: qual o investimento mais recomendável ou mais seguro num momento como esse?

Na reportagem a seguir, A Granja apresenta algumas opções e expõe a opinião de especialistas que também alertam para certos cuidados que o produtor deve ter na hora de decidir em que vai aplicar o seu dinheiro

Denise Saueressig - [email protected]

Em que investir o dinheiro em tempos de “vacas gordas”? A resposta aponta para muitas direções. Aplicação na poupança, pagamento de dívidas, investimentos na propriedade, compra de máquinas e, porque não, melhorias na vida pessoal e familiar. Afinal, todo mundo merece. Seja qual for a escolha, é importante considerar todos os aspectos que antecedem e sucedem cada uma das decisões e priorizar, acima de tudo, a saúde financeira da atividade.

Compreender e jamais esquecer que a agricultura tem uma dinâmica cíclica de desenvolvimento e que essa característica deve ser incorporada ao modelo de produção é uma das recomendações do consultor Eleri Hamer, professor e diretor de Relações com o Mercado do Instituto Business Group (IBG). “Hoje, o cenário é positivo e os indicativos mostram que, mesmo em longo prazo, as perspectivas também podem ser boas, mas é preciso considerar que, no meio do caminho, algumas dificuldades surgirão, o que é normal. Por isso, é importante usar a razão e ter cautela com a emoção no momento de planejar os gastos”, aconselha.

Exageros em tempos de fartura podem significar custos imprevistos pelo caminho. Hamer comenta que é comum em épocas de folga financeira o próprio produtor se colocar numa situação de estresse por descuidar de detalhes importantes. “O mercado não perdoa certos erros que, mais tarde, podem se tornar problemas graves. Por isso, acredito que momentos positivos devem ser aproveitados para recuperar investimentos e fazer reserva financeira. Assim, num tempo de crise, haverá mais segurança e oportunidades efetivas poderão ser aproveitadas”, sustenta.

Um dos aspectos que precisam ser considerados é que os preços dos insumos acompanham as altas nos valores das commodities, o que significa que fertilizantes e defensivos também ficam mais caros quando a soja, por exemplo, vale mais. Por isso, nunca é demais lembrar a importância de fazer as contas e antecipar o planejamento da compra de insumos e da venda da safra.

O consultor faz a ressalva de que cada produtor tem a sua situação econômica, particularidades e desejos em relação ao seu negócio. E lembra que investimentos agora também podem significar custos menores no futuro. “A atualização tecnológica reduz o custo médio da produção, o que sempre é bom, independente do momento do setor”, completa Hamer.

Informação antes do investimento — Buscar orientação com especialistas em finanças e agente econômicos é uma recomendação que vale para todo o perfil de produtor, avalia o assessor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Leonardo Machado. “Realizar um bom planejamento de risco é importante nessa hora, assim como pensar em contratar um seguro rural, fazer a venda antecipada da safra e ter muita cautela para definir onde tomará o crédito. Os cuidados e a atenção devem ser constantes, porque essa é uma situação que cria muitas expectativas. Mas é preciso lembrar que os custos também aumentaram e que o mercado internacional é complexo”, aponta.

Quitar dívidas, aproveitando as facilidades de condições ofertadas por algumas instituições e investir em tecnologias como máquinas, estruturas de armazenagem e irrigação são opções interessantes para momentos como esse, na opinião de Machado. “Também considero que a formação de capital de giro é muito importante, e uma forma de fugir dos juros das linhas oficiais de crédito”, acrescenta.

Essa também pode ser uma boa hora para o produtor procurar qualificação na área financeira, ressalta o especialista em finanças pessoais Alfredo Meneghetti Neto, economista da Fundação de Economia e Estatística (FEE) do Rio Grande do Sul e professor da PUC/RS. “Numa busca simples na internet ele pode encontrar até cursos gratuitos, que envolvem noções de empreendedorismo, análise e gestão. Claro que sempre é bom investir na produtividade da lavoura, mas o produtor também precisa atentar para a gerência do seu negócio”, frisa.

´´O produtor precisa ter cautela e lembrar que a agricultura tem uma dinâmica cíclica de desenvolvimento``

Considerar diferentes aspectos do mercado financeiro é importante na hora de fazer o planejamento da atividade, assinala o economista. “Se o produtor está projetando a compra de uma máquina com crédito oficial, por exemplo, é bom fazer uma pesquisa de taxas de juros e prazos de pagamentos para buscar informações sobre as condições de cada instituição financeira. Consultas prévias podem servir como uma estratégia interessante na hora de negociar as melhores condições com os bancos”, orienta.

Produtora Lígia Mick, de Orizona/GO: pagamento de dívidas e aquisição de máquinas estão entre os objetivos para 2013

Equilíbrio para depois gastar — Zerar as dívidas e deixar as dificuldades financeiras no passado são as grandes metas da produtora Lígia Gonçalves Gomes Mick, proprietária da Fazenda Cuiabanos, em Orizona/GO. “Já sofri muito com as contas e hoje só compro aquilo que eu sei que posso pagar”, resume. Quando ficou viúva, há cinco anos, uma das primeiras decisões tomadas pela produtora foi enxugar o tamanho da área administrada. Os 2 mil hectares de antes foram transformados nos atuais 700 hectares, onde um sistema diversificado ajuda a equilibrar a receita. Além do plantio tradicional da soja e do milho, a fazenda trabalha com a terminação de frangos em sistema integrado e ainda tem 180 hectares irrigados com milho doce, tomate, feijão e semente de milho.

Nos últimos anos, a boa produtividade na lavoura e os preços favoráveis das culturas trouxeram um certo alívio para a produtora goiana, que tem suas dicas para manter as contas em dia. No campo, a soja e o milho obedecem a um esquema de rotação em todas as safras, uma forma de combater o mofo branco e garantir mais sustentabilidade para o sistema. A venda e o custo da soja são travados em contratos antecipados. Este ano, entre 40% e 50% da colheita futura foi comercializada com média de R$ 50 a saca. “Tivemos alta nos preços, mas também nos custos. Só o adubo subiu entre 40% e 50% em comparação com a safra anterior”, conta Lígia.

´´Conhecimentos na área financeira e pesquisa de mercado são passos importantes antes da tomada de decisão``

Para 2013, além de pagar as dívidas que tem junto a bancos e empresas de insumos, a produtora pretende encaminhar a compra de um trator com 180cv de potência e adquirir novas plantadeiras. Essa é uma melhoria necessária, já que o trator mais novo da propriedade foi adquirido em 2004. “Também quero me capitalizar, fazer caixa. Depois, se sobrar dinheiro, penso em expandir a produção, talvez para a criação de gado”, diz.

Um dos investimentos mais recentes e que trouxe retornos expressivos para a rentabilidade da fazenda foram os equipamentos de agricultura de precisão. A economia no uso de adubos chega a 10%, e o ganho, por hectare, fica entre quatro e cinco sacas.

Mãe de uma menina de 13 anos e de um rapaz de 17 anos, Lígia tem o apoio de um técnico agrícola e de quatro funcionários no dia a dia da fazenda. Da parte administrativa e financeira, ela toma conta sozinha. A experiência de 20 anos de trabalho numa multinacional do setor e mais o tempo em que ajudou o marido hoje são essenciais para a produtora tocar os negócios. “Incentivo meu filho a estudar na área econômica para que ele fique responsável pela administração da fazenda. Assim, daqui uns anos, eu poderei ficar mais nos bastidores e ele, na linha de frente”, declara.

Usando o ciclo a favor da atividade — Pensando em uma situação oposta à que o agronegócio vivencia hoje, é preciso considerar que épocas de crise nem sempre impossibilitam investimentos, argumenta o diretor do IBG, Eleri Hamer. “Tempos difíceis sensibilizam governos e empresas, que costumam facilitar algumas situações. O produtor precisa estar preparado para esses momentos, aproveitando- os, fazendo com que o caráter cíclico da atividade funcione a favor dele e não contra ele”, afirma.

Para aqueles que não estão com folga financeira ou enfrentam problemas nas contas, o ideal é evitar investimentos de curto prazo. Hamer cita como exemplo a decisão de adquirir uma nova parcela de terra, que tem o valor estipulado pela cotação da soja. “É melhor fazer a compra em seis anos do que em três anos, porque o preço da soja atualmente está em níveis excepcionais”, observa. Assim, há espaço para montar uma engenharia financeira para se beneficiar na eventual queda dos preços no médio prazo.

Ao contrário dos valores dos insumos, que acompanham o sobe e desce dos grãos, o preço da terra mostra um movimento mais lento nessa relação, principalmente na queda. Em estados como Mato Grosso, Bahia e Tocantins, um hectare de pastagem era comercializado a 100 sacas de soja há três anos e, hoje, pode valer 200 sacas. Contudo, se os preços da soja voltarem a patamares mais próximos da realidade histórica, o valor da terra também reduzirá, mas dificilmente voltará aos 100 sacas de antes.

Em áreas de expansão, a subida do valor médio das áreas teve forte influência pela pressão de demanda, principalmente naquelas regiões de cultivo mais recente e onde há investimentos em rodovias ou ferrovias. “Os preços da terra caem quando há crises generalizadas, como foi o caso de 2004/2005. Caso contrário, ninguém vai querer abrir mão da sua área, que acaba tendo o valor de um seguro para o produtor, funcionando como uma pressão residual”, salienta Hamer.

Preços das terras tiveram incremento, principalmente, em áreas de expansão e onde existem obras de rodovias e ferrovias

O engenheiro agrônomo Vinicius de Melo Benites, pesquisador da Embrapa Solos, recomenda cuidado para aqueles que pensam em produzir em áreas novas motivados pelo momento de alta rentabilidade. “É um custo alto demais. Acredito que é melhor investir no diagnóstico e na qualidade de uma área consolidada do que expandir o cultivo”, assinala.

Momento de renovar a frota — Além da saúde financeira do negócio, a prioridade para quem trabalha no campo deve ser a produção, porque a origem de todo o processo e da renda é gerada ali. “Se um produtor tem dívidas que estão pactuadas, cabendo no seu fluxo de caixa, mas, por outro lado, suas máquinas estão defasadas, parece mais razoável atualizar essa tecnologia, uma vez que terá impacto positivo direto sobre a questão operacional da atividade”, menciona o consultor Eleri Hamer.

Incentivos como o Programa Mais Alimentos e o Programa de Sustentação do Investimento (PSI), com baixas taxas de juros, têm favorecido a compra de máquinas agrícolas no Brasil nos últimos anos. O mercado está aquecido, e as vendas somaram 57,8 mil unidades entre janeiro e outubro deste ano, uma elevação de 2,5% em comparação com o mesmo período de 2011, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Mas como saber o momento certo de trocar ou de ampliar a frota? As situações são variadas, mas duas razões ajudam a ilustrar a necessidade do Divulgação Divulgação Preços das terras tiveram incremento, principalmente, em áreas de expansão e onde existem obras de rodovias e ferrovias Professor Renato Levien, da Ufrgs: máquinas fabricadas nos últimos 10 anos incorporaram características importantes, como itens relacionados à ergonomia produtor. Um dos motivos é a obsolescência, ou seja, mesmo que esteja em boas condições, o equipamento tem a ausência de algum item essencial para as funções desejadas. O outro caso é quando não vale a pena o conserto, devido ao alto custo. “O produtor deve fazer a conta: se vai gastar R$ 20 mil para arrumar um problema, então pode financiar uma máquina nova pelo Mais Alimentos, por exemplo”, sugere o professor de Mecanização Agrícola da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Renato Levien.

A economia gerada por um equipamento mais moderno ajuda a pagar os custos de aquisição. Máquinas fabricadas nos últimos 10 anos incorporaram características importantes, como itens relacionados à ergonomia, cabines com arcondicionado, direção hidráulica e um menor consumo de combustível. “Motores mais eficientes, tração nas quatro rodas, maior aderência e menos patinagem ajudam a reduzir entre 15% e 20% o consumo de combustível nas máquinas novas”, indica o professor.

Professor Renato Levien, da Ufrgs: máquinas fabricadas nos últimos 10 anos incorporaram características importantes, como itens relacionados à ergonomia

Com uma boa rede de peças de reposição, um equipamento agrícola não tem uma vida útil previamente definida. No entanto, quando pensa em fazer um investimento na sua frota, o produtor deve pensar nas suas expectativas atendidas por um período entre 10 e 15 anos. “Para isso, é fundamental seguir à risca a manutenção e investir na capacitação dos operadores, porque o bom funcionamento da máquina também dependerá da mão de obra”, aconselha Levien.

Conversão para a agricultura — O Centro-Oeste foi a região do Brasil que alcançou os melhores resultados com a safra de verão 2011/2012. O clima colaborou com a produtividade e os preços da soja e do milho elevaram ainda mais a rentabilidade dos produtores. Agora, a situação é parecida e, se as condições climáticas seguirem favoráveis, o lucro com a lavoura pode ser ainda maior.

´´A economia de uma máquina mais moderna deve ser considerada na hora de pensar na renovação da frota``

No Mato Grosso, estado que mais produz soja no Brasil – a previsão para 2013 é de 24,1 milhões de toneladas, as opções de investimentos estão divididas basicamente em dois grupos de produtores. Nas regiões mais antigas de produção, o mais comum é a compra de máquinas, enquanto nas áreas mais novas os recursos são aplicados na conversão de pastagens para terras aptas para a agricultura. “Nesse caso, o investimento é alto para corrigir o solo e o retorno pode levar, pelo menos, umas três safras de bons rendimentos”, informa o economista Cid Sanches, gerente de Planejamento da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja).

A estimativa é de que, de 2008 até 2013, em torno de 2 milhões de hectares passem por esse processo no estado. O valor médio de conversão é calculado em R$ 1.850, segundo a Aprosoja. Sanches recorda que o último grande movimento para a compra de máquinas no estado foi até meados de 2003, já que, em seguida, o setor enfrentou um período de crise. “Muitas propriedades estão há quase 10 anos sem essa renovação, ou seja, no limite do prazo”, conclui.

Investimentos recentes em integração lavoura-pecuária e em unidades armazenadoras também têm sido opção de produtores mato-grossenses. “A armazenagem não é nada simples, demanda itens onerosos, como mão de obra e energia, mas é bastante importante. A nossa colheita frequentemente acontece na chuva, então, o produtor precisa guardar o grão em armazéns de terceiros e, obviamente, paga por isso. Quem pode investir em armazenagem consegue vender com mais calma e aguardar melhores oportunidades no mercado. Mas, para aqueles que negociam insumos em troca da soja, ter um armazém próprio já não é tão interessante”, destaca Sanches.

Os produtores mato-grossenses também aproveitaram a alta remuneração da soja para antecipar a venda da safra. Até meados de novembro, 64% da colheita futura havia sido negociada com valor médio de R$ 48 a saca. A estimativa para a produtividade é de 51 sacas por hectare e, a rentabilidade média, é calculada em R$ 579 por hectare.

Auxiliar o produtor na tomada de decisões e no controle de suas contas estão entre os objetivos do Projeto Referência, mantido pela Aprosoja há cinco anos. A iniciativa promove um gerenciamento das propriedades e fornece, gratuitamente, um software para a inserção de indicadores. Os números são analisados e, posteriormente, podem ser utilizados para comparativos. Na última safra, foram 108 propriedades participantes e 267 mil hectares monitorados.

Pensando no futuro — Como o futuro precisa ser planejado, uma época de bons resultados pode servir também para a projeção de atitudes mais ousadas. O economista e consultor Mauro de Rezende Lopes, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), busca exemplos entre produtores bem-sucedidos quando pensa sobre as possibilidades de investimentos. “Há um grupo de empreendedores que aposta em boas práticas e que estão na linha de frente em regiões de fronteira agrícola no Brasil. Esse conjunto de alternativas estratégicas não é muito usual e não está de acordo com o que muitos pensam, que sempre é bom usar o recurso disponível para comprar terra. O velho paradigma de que “terra é sempre terra” é uma ideia que tem sido questionada devido à falta de liquidez no campo, ao endividamento e à disponibilidade de áreas para arrendamento”, analisa.

´´O investimento na saúde do solo é a base para tornar um sistema agrícola mais rentável e sustentável``

No passado, recorda o consultor, os produtores plantavam para vender. “Hoje, eles vendem para plantar, com operações de venda antecipada em várias modalidades. Empréstimo em banco só vale a pena se não resultar em endividamento”, constata. O pesquisador lembra que um exemplo bastante interessante de investimento sólido por parte de produtores ficou conhecido por PPP Caipira (numa referência às parcerias público-privadas) e teve início no Centro-Oeste. Para conseguir a pavimentação de estradas na região, agricultores se uniram com o Governo para o aporte de recursos que permitiu melhorar as condições de milhares de quilômetros de rodovias por onde a safra é escoada.

A seguir, o economista relaciona uma série de atitudes que considera financeiramente saudáveis para a atividade agropecuária.

Grandes produtores:
1 - Rigoroso planejamento financeiro por cinco anos;
2 - Plano de fluxo de caixa das duas safras seguintes;
3 - Reserva substancial de liquidez (duas safras) – pelo menos, 70% do custeio. Os produtores bem-sucedidos têm uma reserva financeira de contingência, para cobrir gastos imprevistos e para aumentar a resiliência do negócio;
4 - Pool para a compra de insumos – Aumenta o poder de barganha nas negociações;
5 - Mudança de modelo de negócio. Exemplo: além de produzir soja, investir também em armazenamento e outros bens e serviços que agreguem valor ao produto original;
6 - Investimento em gestão;
7 - Condomínios de armazenamento;
8 - Investimento em integração lavoura- pecuária.

Médios e pequenos produtores — O consultor Mauro Lopes detalha que as novas estratégias de médios produtores incluem a associação de negócios e a organização conjunta das explorações. “Ouvimos alguns depoimentos de produtores pelo interior que falam coisas do tipo: ‘O que podemos fazer juntos que é melhor do que separados?’, ou ‘as variedades que eu planto e dão certo eu recomendo aos meus vizinhos’, para fazer a venda em conjunto em lotes maiores. Outro ainda disse ‘temos que perder o amor ao produto e ter amor ao negócio’. Isso nos mostra como os produtores estão quebrando paradigmas e adotando posturas cooperativas para aumentar as escalas técnicas e econômicas, uma das poucas formas de se sobreviver e ganhar dinheiro na agricultura”, ressalta.

Consultor Mauro Lopes, da FGV: no passado, os produtores plantavam para vender, mas, hoje, eles vendem para plantar

Também são opções interessantes a pequenos e médios produtores o investimento em consórcios e condomínios agrários, consórcios de máquinas, arrendamentos e parcerias. O economista da FGV explica que, num consórcio, inexiste um patrimônio comum, e dá o exemplo da modalidade com a pecuária leiteira. “O arranjo associativo envolve atividades complementares em que um produtor concorre com seu imóvel rural, disponibilizando pastagens e instalações; outro concorre com seu rebanho bovino leiteiro; outro, com as ordenhadeiras; e outro, ainda, com as rações, vacinas e medicamentos”, enumera.

No caso da formação de condomínios, existe um patrimônio comum, que podem ser instalações, máquinas ou animais. Essa modalidade tem sido utilizada entre produtores que operam no mesmo ramo e que se unem para reduzir custos.

Poupança no solo — O Brasil reúne grandes chances de colher uma safra recorde de soja e de continuar abastecendo a demanda crescente e a lacuna deixada no mercado pela seca nos Estados Unidos. A colheita da oleaginosa poderá ficar entre 80 milhões e 83 milhões de toneladas, mesmo que alguns prognósticos indiquem um enfraquecimento ou até inexistência de El Niño, o que preocupa principalmente os produtores da Região Sul, que sofreram com a falta de chuva no último ciclo.

Boa parte da colheita brasileira, no entanto, já foi negociada. Na terceira semana de novembro, em torno de 50% da safra a ser colhida em 2013 já havia sido comercializada. Os preços da saca da oleaginosa chegaram aos R$ 80 em alguns momentos deste ano e, em novembro, variavam entre R$ 60 e R$ 70 na maioria das regiões.

Pesquisador Vinicius Benites, da Embrapa: hora de trabalhar pela qualidade do solo para elevar ainda mais a rentabilidade

Considerando que cada grão vale muito, nada mais certo do que investir no solo como uma alternativa de poupança. Novas e antigas tecnologias precisam estar presentes, sustenta o pesquisador da Embrapa Solos Vinicius de Melo Benites. “O primeiro passo é o diagnóstico por meio da análise do solo. Depois, a correção, que tem uma relação direta com a produtividade. Nesse ponto, destaco a importância de corrigir a terra em profundidade, para administrar riscos como aqueles que o produtor está exposto quando falta a água da chuva”, relata.

É bastante comum, segundo o especialista, encontrar produtores que trabalham na mesma área há 10 ou 15 anos e que batem num teto de produtividade. “Fazendo uma investigação, descobrimos deficiência de algum nutriente. O velho e bom calcário, por exemplo, muitas vezes é esquecido”, cita.

O pesquisador aplica a teoria da prática, já que também é produtor rural e cultiva soja e milho em Castelândia/GO. Ele faz a análise do solo uma vez por ano e alerta que a prática deve ser realizada com um intervalo máximo de três anos. “O custo é baixo, de cerca de R$ 20 para um ponto em um hectare, ou seja, menos da metade de uma saca de soja. A planta também é um indicador importante e, por isso, recomendo a análise foliar”, completa.

Cultivo do milho com braquiária é investimento na saúde do solo, ajudando na reciclagem de nutrientes e na supressão de plantas daninhas

Em momentos de boa rentabilidade, o produtor deve prestar atenção para não exagerar no uso de insumos. Sempre é melhor trabalhar com qualidade do que com quantidade, identificando os talhões com a ajuda de um mapa de fertilidade. Épocas de fartura também favorecem o aparecimento de soluções milagrosas no mercado. Benites alerta que é preciso tomar muito cuidado com essas promessas, que, na maioria das vezes, não têm base científica. “O ideal é o produtor confiar sempre no seu assistente técnico”, frisa.

Entrando na sua oitava safra no estado do Centro-Oeste, Benites conta que investe constantemente na qualidade do solo, com práticas contínuas de geração de matéria orgânica. Junto com o plantio do milho no verão, ele cultiva a braquiária, que fica na terra depois da colheita do cereal. No final do ciclo, o gado entra na área para baixar a braquiária. Depois, é a vez de plantar a soja, que é cultivada em sistema de rotação com o milho. “A braquiária produz palha para cima e para baixo, ajudando no teor de umidade do solo e na reciclagem de nutrientes, além de ajudar na supressão de plantas daninhas”, justifica o produtor.

Tanto cuidado traz retornos a cada safra. No primeiro ano de cultivo, o pesquisador contabilizou produtividade de 52 sacas por hectare e, agora, tem média acima de 60 sacas por hectare.

Conhecimento e cautela — Disciplina e análise do mercado formam a base para a decisão de investimentos da família Gatto, que tem áreas de produção em Itiquira, Ipiranga do Norte e Canarana, no Mato Grosso. Grandes produtores de soja, com cerca de 12 mil hectares cultivados, a matriarca Norma Gatto e os filhos Felipe, Igor e Eduardo decidiram voltar suas atenções para a pecuária nos últimos anos.

Mesmo que o objetivo inicial não fosse esse, a aptidão da área adquirida em Itiquira e a troca de experiências com vizinhos acabou influenciando na decisão. “Estamos fazendo o caminho inverso de muitos produtores do estado, que estão deixando de lado a criação de gado, mas optamos por um sistema intensivo, encarado com muito profissionalismo, orientação técnica e estudo prévio”, informa a produtora. O plano para daqui cinco anos é chegar a 10 mil cabeças/ ano no confinamento mantido na propriedade em Itiquira. Hoje, são 2 mil animais confinados. “Vamos aos poucos, com cautela e obedecendo a nossa possibilidade de pagamento das contas”, reflete Norma.

Os resultados obtidos nas lavouras de soja, com rentabilidade calculada entre 15% e 20% para a próxima safra, estão ajudando a sustentar as contas da pecuária. Cerca de 60% da futura colheita já foi comercializada com preço médio de R$ 50 a saca.

A aquisição das áreas mais recentes pela família foi feita há cerca de dois anos, quando os preços da terra estavam aproximadamente 30% mais baixos em comparação com os valores vistos hoje. As novas terras exigiram a compra de tratores, colheitadeiras, pulverizadores, implementos e até caminhões. “Programamos tudo para os últimos três anos. Usamos recursos próprios e financiamentos vindos de programas como o PSI e o FCO”, descreve Felipe.

Produtora Norma Gatto: pecuária e estruturas de armazenagem estão entre os recentes investimentos da família no Mato Grosso

Com escritório em Rondonópolis, a Gatto Agricultura também investe em estruturas próprias de armazenagem. Uma das unidades ainda está em construção e, em 2013, permitirá a armazenagem de 220 mil sacas na fazenda de Canarana. Assim, no ano que vem, a capacidade total será de 860 mil sacas.

Além da família toda envolvida no negócio, a empresa conta com cerca de 70 funcionários. Em época de plantio, o número tem o acréscimo de entre 10 e 20 pessoas. Como ficou viúva repentinamente em 2000, Norma precisou buscar ajuda para entender a realidade da agricultura, setor com o qual não tinha a menor intimidade. “Meu marido cuidava de tudo. Era uma época em que a presença de mulheres era uma raridade nesse meio, mas eu fui atrás de informações. Tive o apoio do Grupo Guará, onde aprendi a fazer controle e gestão. Viajei duas vezes para os Estados Unidos e frequentei muitos eventos pelo Brasil. Não tive vergonha de perguntar nada e, até hoje, acho que o que me manteve na agricultura foi a humildade de dizer que não sabia as coisas”, acentua.

No final do ano, depois de muito trabalho, contas e atenção aos negócios, Norma e os filhos programaram férias e conseguirão viajar juntos. Afinal, o descanso, além de merecimento, também é uma forma de investimento.


Os bons resultados da lavoura devem servir para saldar dívidas?

Ricardo Alfonsin, advogado e presidente do Instituto de Estudos Jurídicos da Atividade Rural (Iejur)

Difícil tratar este assunto generalizadamente.

Sabemos que não é grande o percentual de agricultores capitalizados, e os que estão, normalmente, não têm dívidas renegociadas ou do passado. Quem está capitalizado certamente deve programar seu futuro, fazer reserva, adquirir insumos antecipadamente, procurar hedgear seus preços futuros, etc., pois a atividade é de alto risco. Sabemos, por experiência, que aqueles que agora estão em situação tranquila, podem, em duas ou três safras mal sucedidas por preços, câmbio ou problemas climáticos, passar do céu ao inferno.

Além disto, a alta dos preços agrícolas e a valorização do dólar trazem consigo exagerado aumento nos custos de produção, pela absurda e muitas vezes abusiva elevação de todos os insumos.

Entretanto, aqueles que arrastam endividamento do passado e, agora, embora isto, conseguiram alguma reserva, realmente devem procurar equacionar este entrave, liquidando débitos, se assim for conveniente, ou buscando equacioná-los de forma que os compromissos sejam quitados com fontes desta reserva e não com a produção futura.

Para tanto, este produtor deve assessorar-se, com o objetivo de encontrar, dentro dos diversos programas de solução do endividamento, aquele que melhor resultado lhe traga, seja pela liquidação, com descontos, seja por renegociações mais favoráveis.

O certo é que quando se fala em produção agropecuária, fora soja, e o milho mais recentemente, os demais produtos, na quase totalidade, não têm dado rentabilidade de forma que possa pagar os compromissos da safra atual e liquidar os débitos do passado, resultando disto um crescente endividamento. Já temos 110 mil contratos de Pesa e Securitização inadimplentes, significando mais de R$ 11 bilhões atrasados, que aumentam, no mínimo, 15% a 20% a cada ano.

Mesmo a soja, e o milho na Região Sul, que produz mais de 30% da safra brasileira de grãos, passou a enfrentar problemas decorrentes da incomparável estiagem verificada no ano passado, e com tendência a se repetir neste ano.

Por outro lado, sabemos que aqueles que produzem alimentos para a cesta básica, arroz, feijão, batata, etc., enfrentam situações históricas de falta de rentabilidade pela inexistência de instrumentos de proteção da atividade. Além destes, temos os produtores de cacau, laranja, café, etc., que arrastam problemas recentes ou antigos, sem solução adequada.

Concluindo, a produção agrícola dificilmente gera recursos para pagar dívidas passadas e da safra presente, mas, se isto acontecer, realmente deve ser aproveitado, no intuito de se livrar deste endividamento, que é uma doença, nos moldes atuais, com prognóstico letal à atividade.