Na Hora H

 

SEGURO RURAL, NÃO DÁ PARA ESPERAR MAIS

ALYSSON PAOLINELLI

Dias atrás voltei ao Rio Grande do Sul. Estive em Bento Gonçalves, no belo encontro dos produtores de aves, suínos e leite. Foi muito bom para mim. Primeiro por que senti a clara recuperação do setor de aves e de suínos, nesta fase final de ano, com o mercado ativando, os preços reagindo e a volta da esperança àquela belíssima Região Sul, grande produtora. Senti que o clima já é outro. Que bom. Vejo a confirmação que o ideal para nós brasileiros não é só exportar milho ou soja, mas sim aves, suínos, carne, leite e até mesmo produtos mais acabados e elaborados, como as carnes preparadas, filetadas, pré-cozidas e embaladas para o rápido uso pelos consumidores finais. Isto é que se chama de incorporação de valores. Mais do que dobramos o nosso faturamento quando a matéria-prima se transforma em produto acabado. E ali eles podem e sabem fazer muito bem isto.

No entanto, como tive tempo, pude conversar com vários amigos e companheiros que lá estavam. Eles vieram me contar o problema da seca que está se alastrando naquela região, já começando a atingir as lavouras de milho e de soja nas regiões mais produtoras. E o que é pior, relataram eles as perdas com a geada que atingiu, no mês passado, algumas lavouras de forma irrecuperável. É lamentável. Perguntei, imediatamente: as lavouras atingidas estavam asseguradas? Não, responderam todos. Alegaram que as lavouras mais atingidas eram as de médios produtores, que não tinham nem o Proagro e nem o seguro rural.

Primeiro, Proagro não é seguro rural e, hoje, nem mesmo um seguro de crédito rural, como foi no início. Segundo, no Sul, a cada ano está se demonstrando a necessidade imperiosa de se adotar o seguro rural como prática rotineira. O seguro rural é para isto mesmo: indenizar sinistros em algumas lavouras ou regiões onde eles aconteçam, evitando não só o prejuízo para quem perdeu, mas sim evitando a imprevisão, o prejuízo e a falência de quem foi atingido. Lembrem-se do exemplo deste ano nos Estados Unidos, quando se perderam mais de 100 milhões de toneladas de milho pela seca, mas os produtores estavam apenas tristes por ter perdido a safra, porém com o dinheiro do seguro rural. Ou melhor, ainda, do seguro de renda, mais do que suficiente para plantar a nova safra do próximo ano. Quando vamos aprender com eles a sermos mais previdentes? Ou não vamos aprender e esperarmos o maior desastre que nos tire da atividade por imprevidência ou incompetência?

Não há mais nada o que esperar. O Brasil já tem todas as leis, regras e regulamentos que nos permitem implantar de imediato o seguro rural. Falta decisão política? Ao que sabemos, não.

O Governo está desejoso que isto aconteça. Por incrível que pareça, os fornecedores de insumos, de máquinas e de implementos agrícolas também estão. E desejam tanto que estão se organizando para participar com o Governo e com os produtores na redução dos custos dos prêmios para ajudar não só o produtor, mas também eles e o próprio país. Será que mesmo assim não vai? Nem acredito. Estou vendo aí a mais inovadora medida que poderá surgir pioneiramente para resolver este problema, em todo o mundo, onde ainda não exista o seguro rural e já tenha uma agricultura avançada e tecnificada e exija a prudência e a previdência.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura