O Segredo de Quem Faz

 

Um feliz e PRÓSPERO 2013 e 2014

O produtor brasileiro vai seguir plantando e colhendo – e, sobretudo, comercializando – com ventos favoráveis em 2013. E “muito provavelmente” também em 2014. As duas avaliações são de um dos palestrantes mais requisitados de eventos agrícolas do país, Anderson Galvão, CEO da consultoria Céleres, engenheiro agrônomo e especialista em administração pela EASP/FGV que atua como consultor de empresas há 15 anos. Mas ele faz um alerta: “Embora possa parecer repetitivo, o produtor brasileiro ainda carece de boas práticas de gestão e de planejamento estratégico do seu negócio. A maior parte dos produtores toma decisão de forma impetuosa, sem planejamento, na base de “achismos”. E a dimensão do negócio agrícola brasileiro atual exige medidas cada vez mais profissionais, mais estruturadas, para potencializar os ganhos econômicos e financeiros da atividade agrícola”.

Leandro Mariani Mittmann - [email protected]

Anderson Galvão

A Granja — Que panorama o senhor visualiza para o agronegócio brasileiro e mundial em 2013? As cotações das commodities seguirão em alta?

Anderson Galvão — De uma maneira geral, entendemos que o cenário para o agronegócio brasileiro permanecerá favorável no decorrer de 2013 e, muito provavelmente, ainda em 2014. Essa visão se aplica, principalmente, as commodities alimentares, onde se destaca a soja, o milho, o arroz e alguns outros produtos. Com a demanda global mantendo-se aquecida para alimentos, os agricultores brasileiros serão beneficiados, com demanda garantida para os seus produtos. Já commodities agrícolas não alimentares, como algodão e madeira, devem apresentar um cenário um pouco mais conservador, visto que a economia global, em particular nos países desenvolvidos, não decolou e vive ainda sob o risco de recessão, principalmente pela crise no bloco europeu. Produtos como café e suco de laranja, por sua vez, devem apresentar condições de mercados intermediárias, visto que não são produtos considerados essenciais nas cestas de consumo. Dessa forma, o entendimento na Céleres é que o agronegócio brasileiro continuará aproveitando esse cenário razoavelmente favorável, através de preços firmes, permitindo, assim, o crescimento da produção agrícola no país nos próximos dois anos.

A Granja — E os custos, alguma chance de caírem? Ou vão seguir em ascendência?

Galvão — O comportamento dos custos de produção apresenta situações distintas. É do nosso entendimento que as principais pressões de custos vêm de itens que até pouco tempo atrás não faziam parte da preocupação do empresário rural. O que mais nos chama a atenção é o custo da mão de obra, associada a escassez de mão de obra qualificada e, principalmente, eficiente. Embora em termos nominais, o custo do trabalhador rural brasileiro ainda é inferior ao observado em mercados concorrentes, como o dos Estados Unidos, afirmamos que do ponto de vista qualitativo um trabalhador rural no Brasil já custa muito mais do que o seu colega em países desenvolvidos, quando se leva em conta os aspectos relacionados a eficiência desse trabalhador, que, por sua vez, está fortemente associada ao seu nível de educação. Atualmente, um dos principais limitadores à expansão da atividade agrícola é a oferta limitada de trabalhadores rurais aptos a trabalharem com as novas tecnologias, que inundam o setor, como máquinas computadorizadas, sistemas informatizados nas fazendas e insumos mais tecnificados. No caso dos insumos, embora alguns insumos apresentem viés de alta, observase que outros grupos, como defensivos agrícolas, têm perdido valor ao longo dos últimos anos, seja por concorrência com outros produtos ou por mudanças nos padrões tecnológicos. Esse cenário coloca diante do empresário rural o desafio de aprimorar as suas técnicas de gestão, indo além do simples administrar uma fazenda e caminhando na direção de uma gestão mais completa, mais empresarial do seu negócio.

A Granja — Como são os custos para se produzir aqui no Brasil em comparação a outras agriculturas competitivas – e concorrentes?

Galvão — O custo de produzir no Brasil já não pode ser mais considerado o mais barato ante a vários competidores internacionais. Temas como a carga fiscal, a infraestrutura insuficiente e a baixa produtividade do trabalhador colocam a competitividade do agronegócio brasileiro em risco. Além desses aspectos, aspectos legais incongruentes com a atividade empresarial implicam em custos adicionais ocultos ao sistema produtivo brasileiro. Uma legislação trabalhista atrasada e sem vínculo com a realidade do negócio agrícola, uma política tributária que beira a insanidade e exigências ambientais que não encontram paralelo nos países competidores são uma ameaça clara ao agronegócio brasileiro.

A Granja — O que o produtor brasileiro deve fazer para usufruir melhor financeiramente 2013?

Galvão — Embora possa parecer repetitivo, o produtor brasileiro ainda carece de boas práticas de gestão e de planejamento estratégico do seu negócio. A maior parte dos produtores toma decisão de forma impetuosa, sem planejamento, na base de “achismos”. E a dimensão do negócio agrícola brasileiro atual exige medidas cada vez mais profissionais, mais estruturadas, para potencializar os ganhos econômicos e financeiros da atividade agrícola. Posso dizer ainda que a recente alta dos preços e das margens agrícolas “mascara” muitas ineficiências não só nas fazendas, mas também nas indústrias do setor. Muitos agricultores tomam decisões equivocadas que seriam aniquiladas em anos de margens mais espremidas. Entendemos que, no momento em que voltarmos a viver um cenário de preços baixos – que, felizmente, não está no horizonte –, teremos um forte processo de ajuste, com uma nova rodada de eliminação de produtores/empresários que só são eficientes em momentos de margens elevadas. E para esse cenário, o investimento em gestão e planejamento é o caminho necessário para minimizar os riscos que os tempos de bonança trazem para os empresários.

A Granja — E o que o produtor brasileiro não deve fazer de forma alguma em 2013 para não comprometer suas finanças e desperdiçar o ano?

Galvão — Entendemos que o principal erro num cenário de bonança como o que vivemos é o do superinvestimento da expansão não estruturada, que trás consigo custos ocultos que agem como uma bomba-relógio, que explodirá no momento do ajuste do atual ciclo de alta das principais commodities agrícolas. Preservar a liquidez é imperativo para o crescimento sustentável das empresas e isso vale também para o negócio rural.

A Granja — Que opiniões o senhor tem sobre a perspectiva – ou esperança – da ONU de que o Brasil terá que suprir 40% do aumento da demanda mundial de comida para alimentar o aumento populacional do planeta? O Brasil, a agricultura brasileira, está preparado para atender a este anseio?

Galvão — O Brasil tem a sua frente a oportunidade de, de fato, ser o celeiro do mundo. Mas, ao mesmo tempo em que tenho uma visão otimista da revolução tecnológica que está em curso nas propriedades, como a adoção da biotecnologia, da agricultura de precisão, de insumos mais modernos, tenho uma visão razoavelmente pessimista pela forma como o Governo brasileiro atua de forma que beira a negligência com o setor, criando normas e leis que oneram de forma desnecessária o setor produtivo, na incapacidade de resolver o tema da logística, do custo da energia. O preconceito contra o agronegócio é claro entre as diferentes instâncias do Estado brasileiro, seja no Poder Executivo, no Legislativo e no Judiciário. Esse preconceito, claramente visível na restrição do investimento estrangeiro em terras agrícolas, só aumenta o fluxo de investimento para países que, mais cedo ou mais tarde, se tornarão nossos concorrentes, com a ajuda do nosso Governo.

A Granja — Neste raciocínio, o produtor brasileiro e os demais profissionais do campo estão aptos para arcar com tal responsabilidade, visto a preparação, a capacitação, que têm?

Galvão — Através de algumas entidades, a agricultura brasileira movimenta- se para arcar com a responsabilidade e a oportunidade de ser o celeiro do mundo. Mas entendo que há pela frente um longo caminho, principalmente para acabar com o preconceito vigente dentro dos quadros do Governo, dos ditos progressistas, que veem no agronegócio uma ameaça e não um aliado para o desenvolvimento econômico e social do país, além, é claro, de colocar o país em posição de destaque no cenário geopolítico nacional.

A Granja — O produtor e as lideranças do campo reclamam demais das chamadas “barreiras ambientais” para se produzir. Com o Código Florestal se encaminhando para um desfecho, o que existe de fato neste lamento?

Galvão — As barreiras ambientais são um claro exemplo de entraves à competitividade do agronegócio que estão sendo criados de dentro para fora, ou seja, o nosso Poder Executivo e o Legislativo, estimulados por interesses pouco claros, disfarçados de nacionalistas, a título de preservação, mas que, no fundo, não passam de entraves para o desenvolvimento local. Nenhum agricultor profissional hoje é a favor da depredação ambiental, muito pelo contrário. Esse agricultor, até como forma de garantir acesso a recursos financeiros e aos mercados consumidores, possui uma clara visão preservacionista. Mas a preservação, no âmbito da sustentabilidade, deve encampar os três itens previstos nesse conceito: o ambiental, o social e o econômico - este que, em última instância, é quem paga a conta. Os ambientalistas de Ipanema e de Londres se dedicam com muita atenção ao aspecto ambiental, mas se esquecem do homem (social) que vive no ambiente e que necessita do econômico para o seu sustento.

A Granja — E que mais esperar do Brasil em relação à sua agricultura em 2013?

Galvão — Encerro dizendo que a liderança do agronegócio brasileiro representa uma oportunidade, mas requer das lideranças do setor uma visão estratégica, não só no âmbito nacional, mas principalmente no âmbito global. Entendo a importância da produção de alimentos num contexto de segurança alimentar global e, em última instância, de segurança global no sentido estrito da palavra. Cada agricultor brasileiro é um soldado que, para ser efetivo, precisa de liderança (generais) com visão global e capacidade de planejamento para atingir o objetivo de tornar o Brasil, de fato, o celeiro global no século XXI.