Tecnologia

 

POR QUE uns usam muito e outros nada?

Atualmente, com a inovação avançando de forma acelerada, é indispensável ter a educação formal para decodificar a tecnologia de ponta à disposição da agricultura e, sobretudo, do produtor

Segundo o IBGE, os grandes produtores no Brasil somam 299 mil propriedades, exploram 51,7% da área agropecuária e geram 39,1% do valor da produção

Mauro de Rezende Lopes, pesquisador da equipe de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV)

Segundo o IBGE, os grandes produtores no Brasil somam 299 mil propriedades, exploram 51,7% da área agropecuária e geram 39,1% do valor da produção

A razão da existência de uma empresa/ propriedade agrícola (lavouras em particular) é a incerteza. A propriedade existe porque faz lucro quando desafia a natureza e suas incertezas e ganha a aposta contra a variação de riscos climáticos. Vence porque conta com um instrumento poderoso: a tecnologia. Esta, quando conciliada com a educação, é dos fatores mais importantes que afetam lucros. E, a partir deles, o resultado econômico afeta positivamente o bem-estar no campo. Quando o produtor não é alfabetizado ou não tem o ensino fundamental completo Leandro M. Mittmann isso não quer dizer que ele não possa ser um produtor eficiente. Mas o efeito da educação nos dois níveis mencionados ajuda – junto com a pesquisa e a assistência técnica – a absorver com maior rapidez os novos pacotes tecnológicos.

Esses níveis de educação eram suficientes para incorporar a tecnologia às explorações agropecuárias. Entretanto, hoje, com a inovação avançando muito rápido demais – discriminando contra quem não tem “mais estudo”, como o ensino fundamental completo –, é indispensável ter a educação formal para decodificar a tecnologia de ponta. Essa é a razão pela qual vamos, antes de medir a tecnologia, analisar a questão da educação, esta como parte indissociável daquela. Uma depende da outra. Além da educação do dirigente da propriedade, vamos analisar a força de trabalho nas propriedades e a assistência técnica, como pré-condições para atingirmos um elevado nível de tecnologia, em regime de rápida absorção pelos produtores.

Vamos fazer uma análise por porte dos produtores, classificados em pequenos, médios e grandes. A unidade de medida de porte/área não será hectares. Essa medida não pode ser aceita em razão da heterogeneidade, dos solos e das condições edafoclimáticas, entre estados e regiões (além de inúmeros outros fatores). A classificação dos produtores por porte segue a classificação por módulo fiscal. O módulo fiscal é uma medida em hectares de classificação de propriedades, vale para cada município, e é fixo para todas as propriedades no município. Esse critério harmoniza bastante as diferenças entre regiões por meio do tamanho do módulo, na medida em que leva em conta a exploração predominante no município, além de outras atividades que afetam o potencial de geração de renda de um módulo. O número de módulos fiscais é a área total da propriedade dividida pelo módulo fiscal do município. Assim, para as nossas análises, o pequeno produtor é o que tem até quatro módulos fiscais, o médio, de 4 a 15 e o grande, mais de 15 módulos fiscais.

Entre os pequenos produtores brasileiros, apenas 8,4% das propriedades recebem assistência técnica: 20,4% oferecida por cooperativas e 48,3%, pelo Governo

A análise principia pela caracterização dos produtores em termos de número de propriedades, área ocupada, participação na geração de valor bruto da produção. O Brasil, de acordo como Censo Agropecuário de 2006 do IBGE, com a revisão feita em 2010, tem 5,2 milhões de propriedades. Os pequenos produtores são 4,7 milhões, ocupam 28,3% da área produtiva no país, são responsáveis por 44% do valor bruto da produção. Os médios somam 272 mil propriedades, geram 16,6% do valor da produção em 20% da área cultivada com lavouras e pastagens. Os grandes somam 299 mil propriedades, exploram 51,7% da área agropecuária e geram 39,1% do valor da produção do país.

Nível de instrução — A ordem da análise dos dados segue a ordem da lógica da tecnologia no campo. A base da tecnologia é o nível de instrução do dirigente, com as necessidades mínimas elevando-se a cada ano. No caso da instrução, quanto maior seu nível tanto maior a aceleração do processo de incorporação da tecnologia. Devemos também analisar a capacitação da força de trabalho, pois os profissionais complementam a ação dos dirigentes. Em seguida, vem a assistência técnica, que contribui para a aceleração da tecnologia. Depois vamos analisar a experiência – que mede a competência – dos dirigentes das propriedades. E, por último, a tecnologia. Ela não é um fim em si mesmo; e sozinha não decide por nós e não produz resultados. Antes de reconhecer os méritos da pesquisa e da tecnologia é preciso – dentro de uma cadeia de ativos do conhecimento – reconhecer o papel decisivo do produtor (pelo menos essa é a minha percepção do que sempre observei no meio rural).

Vamos sempre iniciar essa análise pelas características dos produtores médios (de quatro a 15 módulos fiscais). Eles têm uma grande importância no meio rural brasileiro, são 238.425 produtores e estão “entre pequenos e grandes”. Com isso, como que “evitam” um embate, um confronto aberto e direto, entre as duas classes extremas, pequenos e grandes. Muitos “líderes” procuram fomentar um confronto de classes no meio rural; e isso não serve aos propósitos da agricultura no Brasil. Junto com as 272.783 propriedades de dois a quatro módulos fiscais, que poderiam ser consideradas de porte médio, os produtores médios somariam um total de 511.218 propriedades. Não podemos negar um contingente como esse para a estabilidade e a paz no campo.

Em termos de nível de instrução do dirigente, do total das propriedades dos médios produtores, 6,6% não são alfabetizados. Esse percentual entre os pequenos é de 24,9% (e entre os grandes, 4%). No quesito ensino fundamental incompleto, os médios produtores têm 34,3% – sendo que entre os pequenos esse percentual é de 41,1% e nos grandes, de 26,4%. Cerca de 12,7% dos dirigentes dos estabelecimentos de porte médio têm o ensino médio completo, percentual próximo daquele dos grandes produtores, de 14,8%, enquanto os pequenos são 5,1%.

Assim, em termos de nível de instrução os produtores médios se aproximam das características dos grandes produtores, que nesse quesito têm os melhores índices. Nesse quesito, portanto, os médios produtores podem aspirar atingir os mesmos níveis de tecnologia dos grandes, sabendose a importância da instrução na absorção da tecnologia. No quesito capacitação da força de trabalho o quadro é desalentador, independentemente do porte dos produtores. O percentual das propriedades que têm trabalhadores com qualificação profissional, para tarefas nas quais têm que apresentar desempenho, é de 3,5% entre os pequenos, 12,7% entre os médios e, entre os grandes, de 20,2%. Esse quadro revela o que se chama de “apagão de mão de obra” no meio rural. O treinamento desse pessoal custou e custa muito.

Em termos de experiência no trato do campo, medida pelo número de anos que o produtor dirige a propriedade, a experiência média é de um mínimo de dez anos em 59,4% entre os pequenos, 57% entre os médios e 51,7% entre os grandes. Portanto, cerca da metade dos produtores no meio rural brasileiro tem experiência equivalente, não representando esse fator aquele que impede a plena utilização da tecnologia.

Antes de chegarmos à analise da tecnologia, temos que passar pela transmissão da pesquisa para o produtor: a assistência técnica. Esse é outro quadro desalentador. Para os pequenos produtores 8,4% das propriedades recebem assistência; e desse total 20,4% provém de cooperativas e 48,3% do Governo. Nesse quesito, o médio produtor tem 23,4% de propriedades com assistência técnica; sendo que desse total, 25,1% é oferecido por cooperativa, 12,9%, por empresas privadas de consultoria e a maior parte da pesquisa e da tecnologia é decodificada pelo próprio produtor (40,9% das propriedades “fazem a sua própria assistência técnica”). Esse último percentual atinge 58,5% entre os grandes estabelecimentos.

Mauro Lopes: a educação mais a pesquisa e a assistência técnica são fundamentais para se absorver com maior rapidez os novos pacotes tecnológicos disponibilizados ao campo

“Melhoristas” — Os médios e grandes produtores são “pesquisadores melhoristas”. Isto é, fazem incorporação por tentativa e erro, o que gera resultados, mas pode acarretar desperdícios de insumos, por subdoses em pacotes tecnológicos, e demanda muito tempo para o produtor dominar as técnicas de manejo de culturas. Uma conclusão parcial é de que esse quesito é insuficiente para que a tecnologia atinja todos os produtores.

Finalmente podemos analisar a tecnologia, o nosso foco de atenção. Todas as propriedades têm seu valor bruto da produção em cerca a 65% a 70% gerado por lavouras – daí nosso interesse em analisar a tecnologia dos cultivos com mais ênfase. Entre os pequenos produtores, apenas 11,3% das propriedades usam adubos, 6,9%, defensivos e 1,7%, corretivos do solo. Por estes indicadores podemos verificar que a tecnologia entre os pequenos produtores é muito pobre – em larga medida devido à falta de assistência técnica e à falta de instrução.

Os médios e grandes produtores apresentam resultados melhores, mas não tanto. O uso de adubos entre os médios produtores atinge apenas 14,3% das propriedades e nas grandes, 18,9%. No caso dos defensivos, para ambos os portes estes percentuais atinge 9,2% (médios) e 15,8% (grandes). O uso de corretivos atinge 7,8% entre as médias propriedades e 3,9% entre as grandes. Em conclusão, o apagão da mão de obra qualificada; o baixo nível de instrução dos dirigentes das propriedades – a despeito das práticas aprendidas do “aprender fazendo” – e a baixa disponibilidade da assistência técnica explicam em parte os resultados diferentes do uso de tecnologia no país. A agricultura e a produtividade crescem, mas muito mais poderiam crescer se estes três pilares do progresso técnico apresentassem melhores desempenhos.