Agricultura Familiar

 

A MANDIOCA merece mais consideração

Auro Akio Otsubo, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, [email protected]

A mandioca é uma das culturas que apresenta maior identificação com a agricultura familiar. Às vezes discriminada pelas políticas públicas e pelos próprios profissionais da área, em outras situações é a salvação da pátria, pela rusticidade e por suas características, estratégica para a segurança alimentar de milhares de pessoas no mundo. Somente para ilustrar, o consumo per capita de mandioca e derivados na República Democrática do Congo, país africano, é de mais de 300 quilos por habitante por ano. Sendo uma das maiores produções do mundo, a mandioca é a principal fon- Auro Otsubo te calórica para mais de 500 milhões de pessoas diariamente, notadamente em países pobres. Isso por si só denota a sua importância no combate à fome e à pobreza.

Com um sistema de produção totalmente diferente dos grãos (soja, milho, feijão, etc.), a começar pela sua propagação, que é feita por meio da utilização da própria parte vegetativa, portanto um clone, passando pelos processos de controle fitossanitário e colheita, na qual, apesar de ser mecanizada em algumas regiões do Brasil, há a necessidade de grande utilização de mão de obra. Aliás, a grande força da agricultura familiar gera empregos no campo, reforçando sua vocação social. A raiz da mandioca, a parte mais nobre, é utilizada para a fabricação da farinha e a obtenção da fécula, produto utilizado nos mais diferentes ramos industriais, e a parte aérea pode ser utilizada para o arraçoamento animal e para a alimentação humana (folha).

No Brasil, a mandioca é cultivada em todas as regiões, porém com diferentes finalidades e sistemas de produção, permitindo a sua caracterização em três tipos básicos: a unidade doméstica, a familiar e a empresarial. A caracterização desA GRANJA | 65 sas tipologias leva em consideração a origem da mão de obra, o nível tecnológico empregado, a participação no mercado e o grau de intensidade do uso de capital na exploração. A doméstica se caracteriza pela mão de obra familiar, que não utiliza tecnologias como adubação, controle de pragas, variedades melhoradas e possui pouca participação no mercado. Ao contrário da familiar, que, além de utilizar mão de obra familiar, usa tecnologias modernas na produção e participa ativamente no mercado. A empresarial se caracteriza pelo emprego de mão de obra terceirizada. Essa categoria e a familiar são responsáveis pela maior parte da produção de raízes.

Enquanto nas regiões Norte e Nordeste a produção da mandioca é para a subsistência e para a fabricação de farinha, na região Centro-Sul, que engloba os estados do Paraná, de São Paulo, do Mato Grosso do Sul e de Santa Catarina e onde está localizado o maior parque industrial de processamento da mandioca. Na região se produz mais de 80% da produção nacional de fécula, cuja destinação, além da alimentícia, como os embutidos e a panificação, vai para a indústria têxtil, de papeleira e química.

Na região Centro-Sul pratica-se um dos sistemas de produção mais intensivo. Isso é refletido na produtividade observada, enquanto que no Brasil a mesma está em torno de 14 mil quilos por hectare, nessa região ela é superior a 21 mil quilos. O fato interessante é que mais de 83% da matéria-prima utilizada para o processamento é oriunda de áreas de cultivo inferiores a 65 hectares. Se fosse considerado até 100 hectares, esses números chegariam próximos a 100%. Novamente fica evidenciada a importância da produção originária da pequena propriedade.

Preconceito — Esse cenário desmitifica, pelo menos dentro da mandiocultura voltada para a produção de fécula no Centro- Sul do Brasil, a imagem preconceituosa criada de que a agricultura familiar seja sinônimo de baixo padrão tecnológico e baixa produtividade. A mandioca de mesa, ou macaxeira, como é chamada no Nordeste, ou aipim, na Região Sudeste, atualmente, tem exigido maior qualificação do produtor rural, com uma agregação de valor ao produto, o que torna mais comum encontrar nas gôndolas dos maiores supermercados produtos como chips, pré-cozidos e outros produtos na linha dos congelados à base de mandioca.

Outro potencial da mandioca são os chamados produtos funcionais, que são obtidos por meio de variedades com altos teores de carotenos (precursor da vitamina A) e licopenos. Esses nichos de mercados, pelas características de produção e de comercialização semelhantes às principais hortaliças, são exclusivos de pequenos produtores ou de base familiar, gerando alta rentabilidade econômica. A relação entre a mandiocultura, sua forma de produção e o perfil de seus produtores, na verdade, antecede ao descobrimento do Brasil, com os nativos que aqui viviam e a cultivavam e processavam. Dessa forma, nada mais justo de ela ser denominada como a mais brasileira das culturas.