Florestas

Sistemas AGROFLORESTAIS: os modelos de florestas do futuro

Engenheiro florestal Luciano Lage de Magalhães, Projeta Agroflorestas,
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A atividade florestal no Brasil é uma das melhores e mais rentáveis opções de investimento no campo. O rápido crescimento das florestas, aliado às excelentes tecnologias de melhoramento genético e ao manejo florestal, coloca o país entre os produtores de menor custo e maior produtividade. Pesquisas iniciadas em 1986 no noroeste de Minas Gerais, com resultados promissores apresentados já no 1º Encontro Técnico - Entec, promovido pela extinta Abracave (Associação Brasileira de Carvão Vegetal, hoje Associação Mineira de Silvicultura) em 1988 e ainda com seu nome de batismo “Espaçamento Dinâmico”, devem ser creditadas ao grupo Votorantim, por aval da diretoria e entusiasmo e apoio do então diretor-acionista Mário Ermírio de Moraes. Estas experiências, que já completaram sua maioridade (21 anos), adquiriram maturidade técnica e econômica.

Os Sistemas Agroflorestais (SAFs) integram florestas, culturas agrícolas e animais e possibilitam juntar produção agrícola e conservação florestal, gerando alimento e renda sem agredir a natureza. São considerados uma opção estratégica, pois possibilitam a diversificação da produção e da rentabilidade, além de promover a recuperação do solo, evitar o desmatamento e contribuir com o aumento da biodiversidade local. O sistema também busca otimizar a produção com o uso mais eficiente dos recursos naturais.

Optando por Sistemas Agroflorestais, há um fluxo de caixa anual confortável e a madeira passa a ser a poupança verde do produtor. Atrelados à orientação técnica, genética, nutrição e visão de mercado por meio da geração de valor, os resultados econômicos são expressivamente melhorados. Apesar de simples nas suas principais atividades – agricultura, pecuária e reflorestamento – de domínio dos produtores rurais brasileiros, deve-se distinguir processos produtivos de processos de pesquisa. É importante o incentivo à pesquisa e à criatividade. Focado em resultados, deve-se padronizar as atividades críticas e criar indicadores eficazes para monitoramento dos objetivos. Um simplificado modelo de gestão permitirá o acompanhamento do orçado e realizado por meio de cronograma técnico, físico e financeiro do projeto.

Existem vários mosaicos com vistas ao uso futuro da madeira capazes de remunerar o capital investido a níveis superiores ao desejado. A escolha correta tem gerado spreads de até 10% ao ano acima da expectativa do investidor. São importantes o diagnóstico da propriedade no que se refere a sua vocação e capacidade produtiva, da habilidade do investidor de cuidar de projetos menos ou mais sofisticados, do mercado regional, dentre outros fatores. Como exemplo, se o pequeno produtor ou fomentado é um tradicional produtor de leite, carne, grãos, deve-se explorar a flexibilidade do sistema, adaptando- o às habilidades dos proprietários, promovendo a verdadeira fixação do homem no campo.

O consórcio planta/animais tem características intrínsecas fundamentais que permitem otimização de resultados pela gestão do sinergismo entre os produtos oriundos da terra. Práticas desfocadas do objetivo principal têm sido implantadas. Muitas vezes tem se visto propostas totalmente fora dos conceitos, concentrando grande número de linhas de eucalipto, como exemplo, cinco linhas distanciadas de três metros, equivalente a 15 metros e destinando outros 15 metros à cultura agrícola. É fácil entender que seria melhor dividir a área entre plantio convencional de eucalipto e convencional de grãos. Como mosaico referencial/padrão, levando em consideração o mercado e a finalidade da madeira a ser produzida, tem sido o de plantios de árvores em linhas simples ou até duplas intercaladas com agricultura e/ou pastagem.

Como um incentivo à pesquisa e à criatividade, utiliza-se a mais repetida e significativa crítica feita à maioria dos projetos: privilegiar o eucalipto como o componente florestal. Este privilégio é merecido, pois, apesar de tratar-se de uma planta exótica, tem particularidades competitivas e seu cultivo dominado pela ciência florestal brasileira. Vale alertar para o fato de que nem todas as espécies de eucalipto se prestam aos consórcios florestais. Para regiões passíveis de irrigação, espécies nobres como mogno, cedro, guanandi, teca, jacarandá, jequitibá e outras serão bem vindas se tecnicamente conduzidas. Nativas como baru, gonçalo, maçambé, casca-danta, sucupiras, jacaré e muitas outras merecem atenção como pesquisa.

Cuidados — Deve-se dar sempre preferência às praticas de conservação de solo, como, por exemplo, plantios em curva de nível ao invés do plantio na linha do sol. Muitos se preocupam com o sombreamento da cultura agrícola ou da pastagem. Experiências têm mostrado que não existe perda de produtividade e nunca se aconselharia o descumprimento das consagradas práticas de conservação de solo devido a seus reconhecidos benefícios, principalmente quanto à sustentabilidade. Para os animais, o sistema silvipastoril possibilita maior ganho de peso e bem-estar, por sombra e qualidade da pastagem e, também, aumento da taxa de lotação/hectare. Possibilita a recuperação de pastagens degradadas e o estabelecimento de pastos com boa produtividade e valor nutritivo, além de ampliar o tempo de disponibilidade de forragem verde durante o ano e de promover ambiente mais favorável, o que reflete em ganhos na produção animal.

Nos próximos dez anos, a perda refletida na produção de carne em função da degradação das pastagens deve chegar a 40%. A degradação das pastagens, caracterizada pela perda da capacidade produtiva, pela exposição do solo, pela infestação de plantas daninhas e de cupinzeiros é preocupante. A recuperação de áreas degradadas deve servir de estímulo para desenvolvimento de alternativas rentáveis, com potencial para modificar, significativamente, a produtividade, a lucratividade e a sustentabilidade da propriedade.

Para a floresta, maximização da produtividade e madeira de qualidade para uso nobre. Isto significa maior produtividade por área, ganho com a recuperação do solo, ganhos produtivos, econômicos e ambientais crescentes. Para o meio ambiente, recuperação e manutenção das características produtivas do solo, redução de pragas das diferentes espécies cultivadas e consequente redução da necessidade de defensivos agrícolas, bem como a redução da erosão e maior biodiversidade (em comparação aos monocultivos).

Assim como qualquer outro sistema produtivo, é fundamental atentar para os cuidados com o plantio (análise e preparo do solo, material genético – mudas/clones ou sementes de alta qualidade), adubação/nutrição, controle de pragas (formigas, plantas daninhas e doenças), tratos culturais e o manejo (desrama/retirada de galhos e desbaste das árvores, manejo da pastagem e dos animais), para que o potencial produtivo seja alcançado. Antes de qualquer atividade, é necessário o planejamento do sistema (implantação e manutenção) com a escolha das espécies mais apropriadas a serem consorciadas e do destino da sua produção buscando sempre a prática do “Certo da Primeira Vez”.