Milho

  

Não deixe as LAGARTAS fazerem isso

Para estabelecer um programa de manejo das lagartas do milho, é muito importante se ter informações sobre todas as fases do inseto, de ovo a adulto. Os controles podem ser químico, biológico e por meio de cultivares de milho Bt

Ivan Cruz, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, [email protected]

Lagarta é o nome dado à fase jovem dos insetos conhecidos como borboletas e mariposas. As fases de vida destas espécies de insetos são quatro: ovo, lagarta, pupa e adulto. A lagarta (também conhecida como larva) é a fase que causa danos às plantas. No entanto, para se estabelecer um programa de manejo, é muito importante que o agricultor tenha informações sobre as demais fases. Por exemplo, muitas vezes se obtém sucesso no controle de determinada praga utilizando-se o controle biológico – por exemplo, um parasitoide de ovos – que elimina a praga antes que ela se transforme em lagartas. A determinação através de técnicas de monitoramento da chegada da mariposa na área de plantio propicia ao agricultor a correta tomada de decisão sobre qual estratégia e quando utilizá-la no manejo da praga-alvo.

Apesar do nome genérico de lagarta, muitas espécies são conhecidas também pelo seu comportamento. Por exemplo, o nome “lagarta-rosca” advém do fato da lagarta se enroscar quando tocada. A lagarta-do-cartucho é assim reconhecida pelo fato de passar a maior parte da fase larval dentro do cartucho da planta. A broca-da-cana possui o nome em função da importância do inseto na canade- açúcar e também por seu hábito alimentar, perfurando o colmo da planta. As lagartas que atacam o milho, na realidade, não são específicas desta planta. Ou seja, são também importantes em outros cultivos. Portanto, um manejo adequado e duradouro só será possível por uma ação conjunta, envolvendo a propriedade, propriedades vizinhas, o município ou toda uma região. Por exemplo: no caso específico do milho, é bem conhecida a migração da lagarta-militar de gramíneas nativas, como o capim marmelada. A detecção e o combate ao foco de infestação evitam a disseminação da praga no milho.

Métodos de controle — Existem diferentes medidas de controle de lagartas em milho, incluindo o tradicional controle químico, o controle biológico e o controle por meio de cultivares de milho Bt. Eficiência, facilidade de uso, impacto no meio ambiente e custo do controle são pontos a serem considerados na tomada de decisão pelo agricultor.

O controle biológico de espécies de lagartas tem sido muito demandado nos últimos anos em diferentes países, notadamente quando se busca um controle duradouro e harmonioso com o ambiente e onde não pode utilizar, por exemplo, produtos químicos e milho Bt, como é o caso da produção orgânica. Entre os agentes de controle biológico mais utilizados, há destaque para os parasitoides de ovos. Como a própria descrição indica, uma vez que o parasitoide é liberado na área alvo, o ovo da praga é seu único alvo. A fêmea do parasitoide coloca seu ovo dentro do ovo da praga e, neste local, permanece durante todo o seu ciclo biológico, em torno de 10 dias. O ovo parasitado será totalmente utilizado como fonte de alimento da larva do parasitoide.

O milho Bt tem como alvo principal as lagartas, principalmente a lagartado- cartucho, a broca da cana-de-açúcar e a lagarta- da-espiga. Lagartas recém- nascidas, ao se alimentarem da planta, serão intoxicadas e mortas pela ação de toxina existente na planta. Para as demais lagartas, o agricultor deverá estar atento. Outras medidas de controle poderão ser demandadas. A própria lagarta- do-cartucho, alvo principal do milho Bt, poderá ocorrer, dependendo do tipo de milho utilizado e de como o inseto chegou à lavoura.

O controle da lagarta-do-cartucho (na foto, os danos) tem sido alcançado quando se utilizam determinadas cultivares de milho Bt

O controle químico é ainda uma tecnologia necessária no manejo de praga. Obviamente, a escolha de determinado produto deve seguir os preceitos de manejo integrado. Em lagartas que atacam logo após a emergência da planta e com histórico de ocorrência, como a lagartaelasmo e a lagarta-rosca, o controle químico através do tratamento de sementes com inseticidas sistêmicos é alternativa viável em milho. A pulverização em estágios de desenvolvimento mais avançados do milho pode ser necessária. Além da escolha correta do produto químico, a regulagem de vazão, o tipo de bico, a velocidade de aplicação, entre outros pontos, devem ser apropriados. A seguir, as principais lagartas:

Lagarta-elasmo, Elasmopalpus lignosellus (Zeller, 1848) (Lepidoptera, Pyralidae) — O inseto adulto mede cerca de 20 mm de envergadura, com as asas anteriores escuras nas fêmeas e claras na parte central, circundada por margens escuras nos machos. As fêmeas depositam em média de 100 a 120 ovos durante o período de vida. O ovo inicialmente é claro, passando a uma coloração avermelhada próximo à eclosão da lagarta. A lagarta nasce após um período de incubação de três dias e, inicialmente, alimenta-se das folhas, descendo em seguida para o solo, penetrando no colmo da planta logo abaixo do nível do solo, alimentando-se no seu interior. A lagarta é esverdeada com anéis e listras de coloração vermelho-escura e mede 16 mm. Geralmente, fica associada à planta hospedeira, construindo um casulo na parte externa com restos vegetais, terra e teia, dentro do qual se abriga. Findo o período de larva (18 dias), a lagarta transforma-se em crisálida, no solo. O milho é sensível ao ataque da praga apenas nas duas primeiras semanas após a emergência. A planta atacada perde gradativamente a coloração até ficar completamente seca. Pode também ocorrer o sintoma denominado coração morto, caracterizado pela morte das folhas centrais. A ausência de plantas em manchas dentro da área semeada pode indicar a presença da praga. O controle da praga pode ser obtido através do tratamento de sementes com inseticidas sistêmicos.

Lagarta rosca, Agrotis ipsilon (Hufnagel, 1766) (Lepidoptera, Noctuidae) — Mariposa cosmopolita, marromescura, com áreas claras no primeiro par de asas, coloração clara com os bordos escuros, no segundo par, medindo cerca de 40 mm de envergadura. As lagartas, quando completamente desenvolvidas, medem cerca de 40 mm, são robustas, cilíndricas, lisas e de cor cinza-escura. O nome “rosca” é advindo do fato da lagarta imediatamente se “enrolar” quando perturbada. A duração do ciclo larval é acima de 20 dias. Durante o dia, a lagarta fica escondida logo abaixo da superfície do solo. À noite, a lagarta ataca a base da plântula, seccionando-a completamente. Pelo seu hábito noturno, fica difícil identificar a presença da praga no momento que está se alimentando. No entanto, o dano é bem característico na plântula. Quando as plantas estão mais desenvolvidas, por exemplo, acima de 30 cm, o dano pode ser parcial. A lagartarosca ataca as plântulas de diferentes hospedeiros, como hortaliças, feijão, batata- doce, cana-de-açúcar e milho. Várias plantas podem ser seccionadas e mortas pela praga numa só noite.

Broca da cana-de-açúcar, Diatraea saccharalis (Fabricius, 1794) (Lepidoptera, Pyralidae) — A mariposa é de coloração amarela-palha e relativamente pequena, com 20 mm de envergadura. Os ovos são colocados nas folhas e no colmo do milho. A lagarta é bem característica, com a cabeça marrom e o corpo esbranquiçado, com inúmeros pontos escuros. A larva, que é o que causa o dano através da alimentação, é relativamente longa (média de 44 dias) em relação ao período larval de outras lagartas associadas ao milho.

Acima, a lagarta-elasmo, que causa maiores danos apenas nas duas primeiras semanas após a emergência; abaixo, a lagarta rosca, que à noite ataca a base da plântula, seccionandoa completamente

Apesar de iniciar a sua alimentação nas folhas, é dentro do colmo da planta que a praga passa a maior parte de seu ciclo larval. Neste local, a praga fica abrigada contra a ação, por exemplo, de inseticidas aplicados em pulverização. Por outro lado, a presença da broca, quando ainda está se alimentado na parte externa da planta, muitas vezes não é perceptível pelo agricultor, notadamente quando também existe a presença dos danos ocasionados pela alimentação da lagarta-docartucho. Portanto, geralmente a presença da praga em milho é notada de maneira indireta, através de quebramento da planta adulta, enfraquecida pela alimentação da broca e em função de ventos, mesmo que moderados. Os danos provocados pela lagarta de D. saccharalis podem ser também indiretos, quando os orifícios favorecem a penetração de microrganismos fitopatogênicos no interior do colmo. Apesar da presença da praga ser mais comum em plantas mais desenvolvidas, pode haver, também, incidência em plantas jovens.

O controle químico da praga só será efetivo quando a praga ainda está se alimentando das folhas. O controle biológico através da liberação de parasitoide de ovos, como Trichogramma, como é realizado com sucesso em cana-de-açúcar, também pode ser utilizado em milho. Por atuar somente sobre os ovos da praga, a liberação do parasitoide tem de ser sincronizada com esta fase da praga. A utilização de milho Bt tem sido eficaz para evitar o dano da praga.

Lagarta-do-cartucho, Spodoptera frugiperda (Smith, 1797) (Lepidoptera: Noctuidae) — A lagarta-do-cartucho é, sem dúvida, a principal praga do milho. É atualmente também praga-chave em outros cultivos de importância agrícola no Brasil, como algodão, sorgo, arroz, trigo, soja e tomate. A capacidade de adaptação a novos cultivos tem causado surpresa e preocupação aos agricultores.

No milho, a mariposa pode ser encontrada sob a folhagem, próxima ao solo ou entre as folhas fechadas do cartucho do milho. Os ovos são colocados em grupos; porém, pouco tempo após a eclosão, as lagartas migram para outras plantas, aumentando o índice de infestação. Em função deste comportamento, muitas vezes a infestação é subestimada, especialmente quando o monitoramento da presença da praga é baseado na percentagem de folhas raspadas. Na realidade, folhas raspadas típicas são verificadas apenas nas plantas onde ocorreu a oviposição. Neste caso, logo após a eclosão, as lagartas iniciam a alimentação, raspando os tecidos verdes de um lado da folha, deixando a epiderme membranosa do outro lado intacta. Lagartas maiores, em geral, dirigem-se para o interior do cartucho e começam a fazer buracos na folha. Como normalmente ocorre sobreposição de gerações, é possível observar lagartas na espiga tanto na sua porção basal como distal, danificando diretamente os grãos.

Acima a broca da cana-de-açúcar, cujo controle químico só será efetivo quando a praga ainda estiver se alimentando das folhas; abaixo, a lagarta-do-cartucho, a principal praga do milho

O controle da lagarta- do-cartucho tem sido alcançado quando se utilizam determinadas cultivares de milho Bt. Em área onde é cultivado o milho convencional, pode ser utilizado o controle biológico com parasitoide de ovos. Se a opção for o controle químico, deve ser levada em consideração na escolha do produto a seletividade em relação aos agentes de controle biológico.