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COOPERATIVISMO para a segurança alimentar

IV Fórum de Inovação, Agricultura e Alimentos, realizado no mês passado, em Campinas/SP, debateu a produção de alimentos e a urgência em combater a fome no mundo

Denise Saueressig - [email protected]

O mais recente relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) indica que uma a cada oito pessoas, ou 870 milhões de habitantes, passam fome no planeta. Apesar da redução nos índices – em 1992 eram 1 bilhão de pessoas em situação de fome –, o número é inaceitável. “Nossa meta até 2015 é conseguir reduzir pela metade esse índice. A fome é degradante, mata, e precisa ser erradicada”, frisa o representante da FAO no Brasil, o moçambicano Hélder Muteia. O Brasil obteve um avanço importante nos últimos anos. O país tinha 23 milhões de subnutridos em 1992 e, agora, esse número caiu para 13 milhões. “O Brasil ocupava uma posição embaraçosa, já que é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mas hoje tem conquistas relevantes, principalmente devido a experiências locais bem sucedidas”, analisa o representante da FAO no país.

Muteia participou no dia 19 de outubro do IV Fórum de Inovação, Agricultura e Alimentos, realizado na sede do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), em Campinas/SP. O evento, que foi realizado pela FAO, pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e pela Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), integrou o calendário da Semana Mundial da Alimentação, evento celebrado em mais de 150 países.

Hélder Muteia, representante da FAO: crescente urbanização é um dos adversários na luta contra a fome

A redução dos números alarmantes da fome passa pela necessidade de incrementar a tecnologia na produção de alimentos. Entre as ferramentas propostas para minimizar o problema estão a inovação, que aumenta a produtividade, as políticas de manutenção dos produtores rurais no campo e o incentivo ao cooperativismo. Não por acaso, a FAO definiu “Cooperativas Agrícolas Alimentam o Mundo” como tema da Semana da Alimentação deste ano. “No mundo todo, as cooperativas geram 100 milhões de empregos e, no Brasil, representam em torno de 40% do PIB agrícola. Essas organizações são promotoras de dignidade, trabalham pelo bem comum e combatem a pobreza”, destaca Muteia.

Urbanização — Quando enumera os principais desafios da segurança alimentar, o representante da FAO manifesta uma grande preocupação com a crescente urbanização. “Hoje, somos 7 bilhões de pessoas e, em 2050, seremos 9 bilhões. A tendência é que 70% desse contingente passe a viver nas cidades. Precisamos batalhar pela produção eficiente desses 30% que ficarão no campo”, argumenta. A luta contra a fome ainda tem como adversários o crescimento populacional, a volatilidade e a alta nos preços das commodities, a escassez de água, as mudanças climáticas, a degradação dos solos, as crises econômicas e as novas preferências de consumo.

A produção de biocombustíveis também está no foco das atenções da FAO. Mesmo que representem uma alternativa interessante do ponto de vista ambiental e que sejam geradores de emprego e renda, o etanol e o biodiesel precisam ser avaliados com inteligência, considera Muteia. “Se não for assim, pode haver competição com a produção de alimentos”, aponta, referindo- se especialmente ao caso dos Estados Unidos, que utilizam o milho para a fabricação do etanol. Nesta safra, devido à pior seca dos últimos 50 anos, a FAO recomendou o relaxamento da lei americana que prevê a destinação de 40% da colheita de milho para a produção de etanol. O objetivo é amenizar o impacto da quebra da safra sobre os estoques globais e sobre a volatilidade dos preços.