Soja

 

NÃO-OGM: agregação de valor à produção

Além dos prêmios pagos ao produto não-transgênico, como um bônus médio de R$ 3 por saca de soja, o agricultor não é obrigado a recolher royalties às empresas produtoras

Ricardo Sousa, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Grãos Não-Geneticamente Modificados (Abrange)

Agregar valor à produção. Essa é a palavra de ordem de dirigentes e executivos dos mais diversos empreendimentos econômicos, focados em operar com eficiência num ambiente de negócios cada vez mais acirrado e competitivo. De fato, a agregação de valor constitui um atalho para o lucro e, muitas vezes, para a própria sobrevivência na atividade. Não por acaso, as empresas que apresentam os mais vistosos desempenhos são justamente aquelas que investem em inovação e em ferramentas que captem e antecipem as tendências e exigências do mercado consumidor. A produção agropecuária não foge a essa regra. Os exemplos de sucesso na agregação de valor podem ser colhidos nos mais diferentes campos de atividade. Tome-se o caso dos cafés especiais, produzidos para o mercado gourmet, cotados com grande diferencial sobre os cafés comuns.

O mesmo vale para o mercado de carnes: suínos e bovinos com menor teor de gordura são mais valorizados do que os produtos comuns. A indústria canavieira, por seu turno, paga prêmios para o produto com maior teor de sacarose. E assim por diante. No campo dos grãos, as possibilidades de agregação de valor são mais reduzidas. Há exemplos, claro, como produtores de orgânicos, fornecedores de especialidades, como arroz preto, e produtores biodinâmicos. Essas possibilidades, entretanto, não estão ao alcance da esmagadora maioria dos produtores agrícolas.

Uma promissora janela de oportunidades, entretanto, está sendo aberta para o produtor brasileiro de grãos. Trata-se da organização da cadeia produtiva de produtos não-transgênicos. À primeira vista, essa afirmação pode soar inconsistente. Afinal, são os produtos transgênicos os associados à “modernidade” e à “vanguarda” na produção agrícola. Essa imagem, entretanto, não é exata. Se não, vejamos: o Brasil é hoje o maior produtor e exportador mundial de produtos não-transgênicos, situação que vem sendo explorada com sabedoria pelos elos desta cadeia produtiva. Explica-se: os consumidores europeus, asiáticos e da Oceania têm enorme aversão aos alimentos que sejam ou contenham transgênicos. Para assegurar a natureza e a qualidade de alimentos não transgênicos, se dispõem a pagar um prêmio – um sobrepreço com relação àqueles praticados na Bolsa de Chicago.

“Hoje, graças ao trabalho de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa, o programa Soja Livre oferece uma ampla gama de variedades de soja para o produtor rural”, explica Sousa

Esse diferencial é rateado, então, pelos elos da cadeia produtiva de não-transgênicos: exportador, processador, certificador e produtor rural. Trata-se de um ganho substancial: na última safra, os sojicultores que se dedicaram à produção de não-transgênicos receberam um prêmio médio de R$ 3 por saca. E isso se chama agregar valor – e muito – à atividade. Para organizar e reforçar esse mercado diferenciado, a Embrapa e a Associação Brasileira dos Produtores de Grãos Não-Geneticamente Modificados (Abrange) criaram um programa – o Soja Livre – que está completando três anos de atividades bem-sucedidas.

O programa nasceu de uma demanda por parte de um grande número de produtores, preocupados em assegurar o suprimento de sementes de soja convencional para formar suas lavouras. Essa justificada preocupação foi provocada pelo processo de concentração do mercado de produtores de sementes: as principais empresas brasileiras foram adquiridas por companhias multinacionais, cujo único interesse é o de vender sementes de produtos transgênicos. Essa dominação de mercado é uma ameaça não só para os agricultores que participam de programas de produção de não-transgênicos, como também para aqueles que obtêm melhores resultados com as sementes convencionais.

De fato, as variedades de soja nãotransgênica vêm apresentando melhor desempenho em termos de custos de produção e produtividade final (confira os resultados pelo site www.sojalivre.com.br). O programa Soja Livre está se mostrando um sucesso. Lançado no Mato Grosso, foi estendido para seis outros estados: Roraima, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Dezenas de dias de campo foram realizados no âmbito do Soja Livre, com a participação de centenas de produtores, técnicos, agrônomos e integrantes de empresas da cadeia produtiva.

Hoje, graças ao trabalho de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa, o programa Soja Livre oferece uma ampla gama de variedades de soja para o produtor rural. Além dos prêmios pagos ao produto nãotransgênico e dos excelentes resultados registrados no campo pelas variedades do programa Soja Livre, o produtor que investe neste mercado conta com outra vantagem adicional: sua produção não é obrigada a recolher royalties às empresas produtoras, como ocorre no mercado de produtos transgênicos. Vale lembrar, a propósito, que os produtores gaúchos moveram uma ação questionando justamente a cobrança de royalties por parte de uma empresa produtora de sementes transgênicas, que foi acolhida pela Justiça.

E o mercado de não-transgênicos promete ganhar contornos ainda maiores. No final de setembro, a divulgação de uma pesquisa conduzida pela universidade francesa de Caen sobre os efeitos do consumo de milho transgênico sobre ratos abalaram o mundo científico e deixaram em polvorosa os já ressabiados consumidores europeus e asiáticos aumentando suas recomendações e princípios da precaução. Neste sentido os produtos originados no Brasil, livres de transgênicos, tornam- se mais e mais atrativos ao mercado consumidor que vem rotulando produtos à base de carnes. Ou seja, aves, bovinos e suínos alimentados com farelo nãotransgênicos passam a levar rótulos como “nouris sns OGM”, do Grupo Carrefour, e “Poulet de Louer”, e também os selo da VLOG (Alemanha) – “Ohne Gehntechnik”, dentre muitos outros.

Finalmente, ressaltamos não ter a menor indisposição em relação à transgenia do ponto de vista ideológico. Entendemos que se trata de tecnologia à disposição do produtor, a quem cabe, de forma soberana, decidir-se por sua utilização ou não. E é justamente isso o que buscam as empresas e os produtores associados à Abrange: exercer seu legítimo direito de escolha de processos de produção que julgar mais conveniente. Especialmente se esse processo agrega valor à sua produção.