Na Hora H

 

AINDA UMA VEZ MAIS O CÓDIGO FLORESTAL BRASILEIRO

ALYSSON PAOLINELLI

Jurei que não voltaria a falar mais sobre o nosso “Código Florestal Brasileiro” enquanto ele não fosse colocado em seu lugar certo. Isto é, junto às instituições nacionais de pesquisas e às nossas universidades, que são as únicas que poderão dizer efetivamente o que deva ser uma legislação correta em termos de parâmetros com bases em indicadores técnica e cientificamente definidos, e se o código que necessitamos é um código florestal ou um código ambiental tropical onde vivemos.

Há os que defendem que deva ser um código agroambiental, mais voltado para as atividades rurais e ao nosso meio ambiente, o que também não discordo. Mas não ser um código florestal que misture “alhos e bugalhos” em um território que tem no mínimo seis biomas tão bem definidos e querer em um amontoado de definições estabelecer regras e parâmetros como se eles fossem iguais. Só para ilustrar, seria como se, o código fosse urbano, querer que as regras e os parâmetros de São Paulo fossem os mesmos para Picos, no Piauí. Estabelecer definições para o manejo dos recursos naturais num trópico úmido como o do Amazonas e os recursos naturais de um trópico semiárido do Nordeste, como se as condições de manejo destes recursos fossem absolutamente iguais, seria a mesma coisa.

O Brasil surge diante do mundo como o único que foi capaz de buscar aprofundar o seu conhecimento em alguns de seus biomas tropicais, estudar profundamente o manejo e uso destes recursos e, cientificamente, indicar por meio de novos conhecimentos as inovações necessárias para que o solo, a água, as plantas e os animais não venham ser degradados em sistemas produtivos altamente sustentáveis. Em alguns casos, em bases cientificamente definidas, está se conseguindo realizar o milagre da recuperação de alguns dos biomas mais degradados do mundo, como os cerrados no Brasil e as savanas africanas, hoje reconhecidos como as áreas mais produtivas e competitivas do globo. E o que é pior é que as regras que pretensamente estão impostas no atual Código Florestal não serão capazes nem de atender um princípio básico que seria o da preservação de tipos de cerrados e a preservação das espécies ali existentes. Fiquem atentos. Escrevam em suas memórias e depois me cobrem se eu estiver errado. Sei que não tenho tanto tempo de vida assim, mas espero viver o suficiente para demonstrar que estou certo. Regras mal postas e fiscalismos nunca deram certo.

O Brasil, que tem uma Embrapa, tem as mais de 17 instituições estaduais de pesquisas, tem uns sem números de universidades que são detentoras do maior conhecimento da tecnologia e da ciência tropical do globo e tantas outras instituições, inclusive no campo privado, que são desejadas por qualquer instituição ou país, não poderia nunca passar por um verdadeiro vexame de um espetáculo de desprezo aos seus valores científicos, tecnológicos e seus conhecimentos e colocar um Código Florestal em debate no qual o que se viu foi a radicalização de quem menos conhece e deu indicações de que nem sabem o que são os nossos verdadeiros biomas e como devem ser preservados e manejados.

Um pai que forma mais de 12 mil doutores por ano não pode se dar ao luxo de desprezá-los ou não utilizálos na busca do conhecimento que tanto necessitamos que pelo menos é conhecer os nossos biomas e aprender a manejá-los sem desperdício ou degradação em benefício do próprio povo brasileiro. Sonho que um dia ainda seremos capazes de acreditar em nós mesmos para resolver, como já fizemos, a busca do conhecimento tecnológico e científico, capaz de nos habilitar- mos a saber usar e preservar o que Deus nos deu.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura