Percevejos

 

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Os percevejos, tão danosos à soja, têm assumido a mesma importância na cultura do milho. Novas tecnologias e até as mudanças climáticas explicam porque muitas pragas, incluindo-se os percevejos, que até pouco tempo não preocupavam, agora merecem mais atenção

Ivan Cruz, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, [email protected]

Por muitos anos, o principal problema do milho em termos de insetos fitófagos era a lagarta-do-cartucho, Spodoptera frugiperda (J. E. Smith) (Lepidoptera: Noctuidae), exigindo, invariavelmente, medidas de controle. Outras espécies fitófagas, embora presentes, não demandavam controle específico, possivelmente, pelo controle involuntário propiciado pela aplicação de inseticidas contra a lagarta-do-cartucho. A modificação do cenário agrícola, incluindo novas tecnologias e até mesmo mudanças no clima, pode ser apontada como causa do aumento e/ou diversidade de espécies atacando os cultivos agrícolas. Por exemplo, pragas-chaves na cultura da soja, como os percevejos, atualmente são também importantes no milho.

A introdução da tecnologia dos transgênicos, por meio da liberação comercial e do plantio de milho Bt, sem dúvida nenhuma tem contribuído para uma mudança ainda maior na redistribuição da importância econômica das espécies de pragas no milho. O alvo das cultivares de milho Bt no Brasil são as lagartas, especialmente a lagarta-do-cartucho. A adoção da tecnologia tem propiciado a redução no uso de inseticidas químicos. A ação das cultivares de Bt é imediata, reduzindo a população de lagartas em seus primeiros ínstares, sendo que muitas vezes não se percebe o dano na planta. Ausência de competição intraespecífica, plantas sadias e sem resíduos ativos de inseticidas oferecem condições propícias para a ocupação e a permanência de outras espécies na cultura, como, por exemplo, os percevejos sugadores Nezara viridula Linnaeu, Dichelops melacanthus (Dallas), D. furcatus e Leptoglossus zonatus Dallas.

Os percevejos sugadores iniciam a alimentação após introduzir o aparelho bucal (estiletes) na fonte nutricional.

Ivan Cruz: Apesar de ser uma medida preventiva, o tratamento de sementes com inseticidas sistêmicos é uma alternativa viável de manejo dos percevejos em milho

Durante o processo, injetam saliva que irá se solidificar, formando a bainha alimentar ou flange. Posteriormente, uma saliva aquosa, contendo enzimas digestivas, pré-digerem o alimento, antes de ocorrer a sua ingestão. Durante ou após a alimentação, pode ocorrer a infecção por microorganismos, causando manchas típicas nas sementes ao redor da inserção dos estiletes.

Percevejo-verde — A espécie Nezara viridula é totalmente verde. Seus ovos são colocados em grupos. As ninfas inicialmente ficam próximas à postura. Os adultos geralmente migram da soja para as plântulas de milho, podendo causar redução do número de plantas por unidade de área. Plantas de milho entre 25 e 30 centímetros, quando atacadas, mostram graus distintos de danos, variando desde um leve murchamento das folhas centrais até a morte. Quando o ataque ocorre em plantas mais desenvolvidas e a planta não morre, é comum o aparecimento de perfilhos improdutivos. Quando a planta é atacada na fase de formação de grãos, as espigas se deformam e não há o desenvolvimento dos grãos ou os mesmos ficam ressecados. Quando o grão é atacado no estágio leitoso ou pastoso, ele é completamente destruído ou apresenta- se manchado na maturidade.

Os insetos adultos medem, em média, 15 milímetros de comprimento. As ninfas passam por cinco ínstares. As primeiras fases ninfais são de coloração preta com manchas que podem ser brancas, amarelas ou vermelhas no dorso. Ficam geralmente agregadas sobre a planta hospedeira. Os maiores danos à planta começam a partir do 3º ínstar, especialmente na cultura da soja, quando os insetos passam a alimentar-se dos grãos. A ninfa completamente desenvolvida mede ao redor de 9 mm. A fêmea faz a postura na face inferior das folhas ou nas partes mais abrigadas das plantas e cada uma põe até 200 ovos, agrupados em formato hexagonal de coloração inicial amarelada. O período de ninfa dura em torno de 23 dias. A longevidade do inseto adulto pode alcançar 70 dias.

A distribuição do inseto é cosmopolita, as plantas hospedeiras são milho, soja, trigo, alfafa, algodão, feijão, melancia, melão, pepino, abóbora e tomateiro, e o período de risco se dá especialmente em plântulas de milho. O dano provocado pelo percevejo-verde é muito similar ao dano ocasionado pelos demais percevejos que atacam a plântula. Em baixa infestação, os sintomas se manifestam pela descoloração das folhas, que se apresentam estriadas. O perfilhamento também pode ser observado. Maior densidade populacional pode ocasionar a morte da planta. O inseto pode também atacar as partes reprodutivas da planta, sugando os grãos. O monitoramento deve ser realizado especialmente após a emergência da planta. Considerando o maior risco de perdas de plantas pelo ataque do percevejo- verde, o tratamento de sementes com inseticidas sistêmicos é uma alternativa eficiente e econômica de controle, tanto para plantios de milho Bt como milho não-Bt. Ataque na espiga, de maneira geral, somente demanda medidas de controle quando o milho é produzido como sementes.

Acima, adulto, grupo de ovos e forma imatura (ninfas) do percevejo barriga-verde; abaixo, adulto, grupo de ovos e ninfa do percevejo grande

Percevejo barriga-verde — O percevejo barriga-verde, D. melacanthus, associado a plântulas de milho foi relatado pela primeira vez em 1993 no Mato Grosso do Sul, com densidade populacional superior a seis indivíduos adultos/ 10 metros de fileira de milho. Tal densidade ocasionou definhamento em até 56% das plantas atacadas. Desde então, o seu ataque tem aumentado ano a ano em vários outros estados, como Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais, além da região sudeste do estado de São Paulo. É possível também encontrar no milho outra espécie muito semelhante, conhecida como D. furcatus, também atacando plantas recém-emergidas.

Um dos fatores considerado propulsor do aumento populacional do percevejo barriga-verde em milho foi a ampla adoção de rotação de culturas em sistemas de plantio direto, que favorece os percevejos ao propiciar alimentação contínua e condições adequadas de sobrevivência, mesmo em períodos de inverno ou estação seca. Nessas condições os insetos sobrevivem sob os restos de culturas. Outro fator favorável ao inseto é o cultivo de plantas hospedeiras em sequência, como soja, milho e trigo. A severidade de ataque do percevejo pode ser resumida em dano leve, ao se observar apenas pontuações nas folhas; dano moderado, quando as folhas começam a enrolar e ocorrer leve redução do porte, e dano severo, quando há redução do porte da planta e perfilhamento da plântula.

As duas espécies de percevejo barriga- verde são muito semelhantes, de coloração marrom no dorso e verde no abdome. Ambas apresentam espinhos laterais, sendo tais espinhos maiores em D. furcatus e de mesma cor do pronoto. Já na espécie D. melacanthus os espinhos são menores sendo as extremidades mais escuras do que o restante do pronoto. Os adultos medem de 9 mm a 12 mm, sendo que a espécie D. melacanthus é menor do que a espécie D. furcatus. A fêmea coloca em torno de 14 ovos de coloração esverdeada, na planta hospedeira, em fileira dupla. As ninfas são marrons acinzentadas.

O ciclo de vida em milho, de ovo a adulto, é de cerca de dois meses. A longevidade do adulto pode atingir até seis meses, sua distribuição é pela América Latina e as plantas hospedeiras são soja, milho e trigo. O período de risco ocorre principalmente na fase inicial de desenvolvimento da planta de milho, podendo provocar a morte da plântula. O risco é maior para milho de segunda safra, pois há migração dos insetos da soja. Plantas de cobertura e/ou gramíneas de inverno servem de alimento para os insetos, como o milheto, muitas vezes provocando aumento substancial na população da praga, possibilitando gerações contínuas. As pragas sugam a seiva da base do colmo, causando o murchamento da planta e, depois, o seu secamento. Podem também provocar o perfilhamento do milho, o que torna a planta improdutiva. As folhas mais desenvolvidas quando atacadas pela praga apresentam necroses do tecido foliar no sentido transversal.

O monitoramento deve ocorre especialmente durante o período inicial de desenvolvimento da planta. Para enfrentar este percevejo, em regiões onde há histórico de ocorrência do inseto, podese utilizar o tratamento da semente com inseticidas sistêmicos. Tal medida muitas vezes é adequada, considerando o nível de dano econômico calculado em 0,58 percevejo/metro linear de sulco. Quando não há o tratamento da semente, essa densidade populacional da praga indica a necessidade de pulverização.

Percevejo gigante — O percevejo adulto de Leptoglossus zonatus é o menos importante das três espécies, mas em certas condições pode causar prejuízos ao produtor, especialmente quando a produção se destina a sementes. O inseto adulto mede cerca de 25 mm. Ataca, além do milho, vários outros cultivos, como sorgo, feijão, soja, tomate e citros. O seu dano se verifica através da sucção do grão, o que ocasiona uma redução na produtividade da planta. O inseto pode também estar associado a algumas doenças da espiga, como Fusarium, Penicillium e Cephalosporium.

A fêmea do inseto geralmente é maior que o macho. Os ovos são colocados enfileirados, aderidos ao substrato vegetal. Inicialmente são de coloração esverdeada, tornando-se, próximos a eclosão, completamente marrons. O período de incubação é, em média, 9,6 dias. As formas imaturas (ninfas) mantêm-se agrupadas até o final do segundo estádio, após o qual se dispersam. Decorridos cerca de 30 dias após a eclosão, surgem os primeiros adultos. Em milho os adultos podem ser vistos alimentando-se nas espigas, onde seus estiletes atravessam a palha. O inseto é mais importante para o milho cultivado para produção de semente, pois, além de danificar o peso da semente, também pode afetar o vigor e o poder germinativo. Nesse caso, pode haver necessidade de controle.

Acima, sintoma de danos dos percevejos verde e barrigaverde em ataque durante a fase vegetativa; abaixo, o ataque à espiga do milho

Considerações finais — Os percevejos sugadores associados à cultura do milho apresentam grande potencial para causar danos, principalmente à planta recémemergida. Nessa fase de desenvolvimento, a plântula é muito sensível ao dano e pode ser morta pela praga. A redução no número esperado de plantas por unidade de área traz como consequência imediata a redução na produtividade de milho, especialmente em função da contribuição significativa de cada planta para a produção total da área semeada. Deve ser também considerada a dificuldade no manejo do inseto, que também ataca hospedeiros que convivem próximos à plantação de milho, como é o caso, por exemplo, dos percevejos cujos adultos migram constantemente da soja para o milho. Muitas vezes, a redução do potencial de risco ao milho pode ser alcançada pelo correto manejo da praga nos hospedeiros alternativos. Apesar de ser uma medida preventiva, o tratamento de sementes com inseticidas sistêmicos é uma alternativa viável de manejo dos percevejos em milho, especialmente para as infestações em plântulas e em áreas cujo histórico mostra risco de ocorrência da praga.