Comercialização

Bolsa a serviço da SEGURANÇA

Muitos produtores não se interessam pela comercialização na bolsa de valores por desconhecimento e receio sobre o uso dos seus mecanismos. São procedimentos realmente sofisticados, mas menos complexos do que se imagina

Julio Cezar de Abreu Rodrigues, consultor da BR Fields Agroconsulting, Uberlândia/MG, [email protected]

Uma nova safra de grãos se aproxima para os produtores brasileiros. Em algumas regiões, as sementes já estão sendo lançadas ao solo Agência Luz/Luiz Prado na expectativa de uma safra recorde para o nosso país. E neste ano o entusiasmo para a safra é redobrado em vista dos altos preços internacionais praticados no mercado de milho, soja e trigo, devido, principalmente, à seca histórica na região produtora dos Estados Unidos. Mas como o produtor pode aproveitar as oportunidades que o mercado de grãos oferece? A experiência nos mostra que os preços dos grãos são influenciados por muitos fatores de diversas origens. É muito difícil para o produtor acompanhar e reagir em tempo hábil no caso de mudanças bruscas nos humores dos mercados internacionais de grãos. E muitas vezes as maiores oscilações ocorrem na época de colheita, frustrando planos de venda da produção a preços altamente compensadores.

Esperar para vender pelo preço mais alto do mercado é uma aposta tão arriscada quanto numa mesa de jogo de cartas. A solução para reduzir os riscos de preços dos produtos e garantir valores que cubram o custeio da lavoura e uma margem confortável para fazer frente às despesas pessoais e buscar algum aumento do patrimônio está na procura de ferramentas do próprio mercado. Em primeiro lugar, é muito importante que o produtor tenha um orçamento detalhado de todas as despesas e obrigações que ele tenha para a safra. É preciso listar volumes necessários de cada insumo e serviço a serem usados, assim como os preços esperados durante o período de produção. Recomenda-se que o produtor faça projeções de diferentes panoramas de mercado e produtividade.

Estime uma safra média, normalmente atingida na propriedade. Num ano excelente, com a tecnologia e os investimentos previstos, a quanto poderia chegar esta produção? E se o ano for ruim, com falta de chuvas, doenças e pragas mais agressivas? Para cada situação, um plano de ação deve ser traçado. No caso de uma safra normal, a soma do custo da lavoura e amortizações mais as obrigações (financiamentos, parcelas de máquinas agrícolas, etc.) mais as despesas pessoais apontará a necessidade de recursos para esta safra. Este total dividido pelo número de sacas previstas de serem produzidas indicará o valor necessário por saca para cobrir suas obrigações anuais. Agora podemos verificar as oportunidades de mercado para venda da safra.

O produtor dispõe de uma série de alternativas para vender sua produção. Após a colheita, quando normalmente os preços experimentam uma baixa devido à grande oferta de produto ou vendas antecipadas. Normalmente a venda antecipada e negociada com tradings de grãos ou empresas de produtos químicos, o que é também uma oportunidade de capitalização para compra de insumos. Existem ainda, e são pouco usadas, operações na bolsa de valores para garantir o preço de produtos agrícolas. Estas operações na bolsa de valores são chamadas de derivativos e se dão principalmente nas modalidades de mercado de opções e mercado futuro. Para lançar mão dos recursos de comercialização de grãos na bolsa de valores, o produtor deve se preocupar primeiro com uma boa gestão da propriedade. E não há como fazer uma boa gestão sem conhecer números com a maior precisão possível. Portanto, a primeira coisa a se fazer para poder vender bem uma safra é conhecer bem o custo de produção.

Quando se faz uma venda no mercado futuro, algumas obrigações devem ser assumidas pelo produtor. É preciso colocar à disposição da BMF&Bovespa um recurso, normalmente em torno de 5% do valor de cada contrato negociado, que é chamada de Margem de Garantia. Este recurso será usado para os ajustes diários da operação. O que significa isso? Diariamente, o sistema de custódia de contratos da bolsa de valores ajusta o contrato. Veja o exemplo do infográfico (próxma página) onde é simulada a venda de um contrato de soja (450 sacas de 60 quilos, equivalentes a 27 toneladas). Todos os dias em que o contrato estiver aberto, o valor do produto será ajustado para aquele negociado no estabelecimento do contrato, ficando o preço de venda travado.

Desta forma, se a saca de soja subir R$ 1, o produtor tem o mesmo valor descontado de sua margem de garantia. Se o valor da saca de soja na bolsa cair R$ 2, o mesmo valor será depositado para o produtor em sua conta de margem de garantia, havendo sempre uma compensação a cada movimento de alta e baixa do preço do produto na margem de garantia depositada. No dia do fechamento deste contrato, faz-se a operação inversa. Para travar o preço do produto, o produtor vendeu um ou mais contratos. Para fechar sua posição na bolsa, ele vai comprar o mesmo número de contratos que tenha em seu poder. Desta forma ele zera sua posição. Não há necessidade de entregar fisicamente o produto para a bolsa, podendo este ser vendido normalmente pelo produtor no mercado local.

A operação de saída do mercado pode ser feita a qualquer tempo. Quando feita na venda do produto físico, o valor ganho na margem de garantia, caso o preço do produto tenha caído, compensará a perda na venda. Por esta razão, a operação de venda no mercado futuro pelo produtor, que terá o produto para ser vendido em alguns meses, é chamada de travamento de preço. Independente do valor de mercado do produto subir ou cair, ele está garantido em um valor que foi estabelecido com antecedência. Se o produtor tiver informações que o preço do produto de sua lavoura vai subir, ele pode a qualquer momento fechar sua posição, como explicado anteriormente, e entrar novamente travando o preço do produto quando o mercado estiver em um patamar mais elevado, o que não pode ser feito quando se faz uma venda antecipada para uma trading, por exemplo.

Em mercados mais maduros, em que os operadores atuam mais intensamente na bolsa, as operações de entrada e saída são feitas constantemente, com cada parte buscando defender seus interesses da melhor maneira possível. Na Bolsa de Mercadorias de Chicago, que é referência internacional de preços de soja e milho, entre outras commodities, o mercado de milho tem movimentado uma safra americana do grão por mês, o que significa que se compra e vende toda produção do país mensalmente. Para isso acontecer, operadores entram e saem de suas posições constantemente.

Mercado de opções — Outra operação de interesse para o produtor é o mercado de opções. Nesta modalidade, compra-se um seguro de preço. O produtor verifica seu custo de produção e observa no mercado como ele pode garantir que na colheita ele receba o que pretende para bem remunerar seu ano de trabalho. A BMF&Bovespa publica diariamente o prêmio que cobra para dar esta garantia no mercado de opções. O produtor pode ver o prêmio equivalente ao valor que quer segurar o preço da safra e comprar um contrato de opção de venda. O mercado de opções funciona como um seguro do preço. Assim como no seguro de um carro, um prêmio é definido para garantir um preço. Se o preço ficar abaixo da garantia contratada, usa-se o contrato para garantir o preço. Caso o preço pago pelo produto no mercado seja maior que o valor da opção, rasga- se o contrato, que não vai ser exercido. O contrato de opção permite ao produtor se beneficiar de aumentos de preço do produto ocorridos após a colheita e ter um preço mínimo garantido pelo produto de sua lavoura.

É importante que o produtor conheça estes mecanismos de mercado para usar como alternativa na tomada de decisão da venda de seu produto. Com flutuações cada vez mais fortes nos preços dos produtos agrícolas e custos elevados de produção, a gestão de riscos é cada vez mais importante no agronegócio. Encontrar uma maneira mais eficiente de formação de preço da propriedade é um dos pontos da boa gestão. Muitos produtores ficam fora deste mercado de bolsa de valores por desconhecimento e receio sobre o uso dos mecanismos apresentados, que são sofisticados, mas menos complicados que a maioria pensa. Para quebrar esta barreira, é interessante o empresário rural fazer um contrato para conhecer o funcionamento deste mercado, ganhando assim confiança para operações maiores no futuro.

Julio Rodrigues: “É importante que o produtor conheça estes mecanismos de mercado para usar como alternativa na tomada de decisão da venda de seu produto”