Congresso Milho e Sorgo

 

Quais os horizontes para MILHO E SORGO

A 29ª edição do Congresso Nacional de Milho e Sorgo, realizada em Águas de Lindóia/SP, debateu as realidades e, sobretudo, as perspectivas para as cadeias produtivas dos dois importantes cereais

O 29º Congresso Nacional de Milho e Sorgo, realizado em Águas de Lindóia/SP, no final de agosto, foi pautado por temas de impacto e grande relevância para o segmento, como a importância dos estudos em transgenia para o avanço do mercado, o perfil atual das instituições de ensino para formação dos profissionais que atuarão no agronegócio, a agregação de renda com milho convencional, o potencial do mercado para o milho orgânico, o papel das instituições públicas no melhoramento de milho e sorgo no Brasil, os estudos sobre a utilização de sorgo na produção de etanol e a importância da integração lavoura-pecuária-floresta. O evento foi promovido pela Associação Brasileira de Milho e Sorgo (ABMS) e realizado pelo Instituto Agronômico (IAC), em conjunto como o Instituto Biológico (IB), o Instituto de Economia Agrícola (IEA), os Polos Regionais (Apta Regional) da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios e a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), além do apoio da Embrapa Milho e Sorgo e do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar).

De acordo com Aildson Pereira Duarte, pesquisador científico do Instituto Agronômico e presidente do congresso, a valorização dos profissionais para o mercado, com a melhoria do ensino e da assistência técnica, é uma das chaves para o avanço do setor. “Por isso, focamos a estrutura do evento nas atuais demandas da cadeia produtiva. Nosso objetivo foi o alinhamento com as atuais demandas do mercado, visando um amplo desenvolvimento do setor, e atingimos nosso objetivo. Com mais de mil participantes, todos puderam acompanhar análises de alto nível, realizadas por excelentes profissionais em cada área específica”, explicou. Antônio Álvaro Portino, da Embrapa Milho e Sorgo, destacou que o mundo vai precisar de muito mais milho. “E quem tem a possibilidade de ‘abraçar’ esta demanda é o Brasil. O ambiente e a conjuntura do mercado são favoráveis. Vivemos um excelente momento para o preço e a produtividade e a realização deste evento não poderia ter sido realizado em melhor momento, pois temos que nos consolidar cada vez mais”, disse.

Para Ivan Cruz, presidente da Associação Brasileira de Milho e Sorgo, é necessária a busca constante de equilíbrio entre as cadeias de milho e sorgo com as que mais dependem dos grãos, como avicultura e suinocultura. “Não podemos ficar alheios a esta realidade. Temos de ter a consciência de nosso papel como profissionais da agricultura. Estamos avançando muito, mas temos muito para crescer em termos de produtividade”, destacou. Esta integração também foi evidenciada por Hamilton Ramos, do Instituto Agronômico. “É preciso haver maior integração para entendermos melhor a demanda do mercado para realizar um planejamento estratégico para o segmento e sabermos onde precisamos investir mais, temos de ter claras nossas metas e objetivos”, afirmou.

Patentes de biotecnologia — O agronegócio vive um dilema no Brasil. Poucas empresas detêm o controle de patentes geradas por meio da biotecnologia. Como enfrentar este problema que pode gerar no futuro um paradoxo: o Brasil, um dos líderes na produção de vários produtos do agronegócio, assim como em exportação (milho, soja, complexo carnes, cana-de-açúcar), mas não possui as patentes para a produção base destes produtos? Thomas Hoegemeyer, da Universidade de Nebraska, EUA, afirmou que é extremamente necessária a participação do setor público no incentivo à pesquisa e no preparo de melhores profissionais para o setor. “Já enfrentamos problemas como este nos EUA e o incentivo das Parcerias Público- Privadas auxiliou na busca do equilíbrio. O Brasil deve pensar mais seriamente nesta questão”, destacou.

Aildson Duarte, presidente do congresso: o preço e a produtividade do milho estão muito bem e , por isso, a realização do evento não poderia ter sido em melhor momento

Para Sidney Parentoni, da Embrapa Milho e Sorgo, a situação é mais complexa do que foi antigamente. “Enquanto aqui os investimentos no setor público ‘patinam’, em países como a China, por exemplo, eles dispararam. Há um compromisso do Governo Federal em aumentar estes investimentos, mesmo porque o Brasil é um dos países com a maior taxa de adoção de técnicas de transgenia”, destacou. “O licenciamento desta tecnologia impõe uma pressão competitiva e os produtores podem optar pelo melhor produto conforme sua demanda. O risco do fato de o mercado estar ‘nas mãos’ de poucas empresas internacionais é de ocorrer uma diminuição da base genética e os produtores ficarem subjugados à pressão dos preços que são ditados pela oferta”, explicou.

Antônio Fernandes Antoniali, da empresa de sementes Semeali, afirmou que existe espaço para o desenvolvimento das empresas públicas. “E ainda acrescento a importância do papel dos institutos de pesquisa, que têm conhecimento, têm recurso e muitas vezes ficam reféns das questões políticas. Eles devem ser o ‘espelho’ do que é feito nas empresas privadas. Há uma concentração muito grande das pesquisas atualmente. É preciso ter transparência com as informações sobre as patentes de Organismos Geneticamente Modificados”, disse Antoniali. “É preciso avaliar os riscos desta concentração, seu impacto no agronegócio, a internacionalização do mercado, o desaparecimento das empresas e dos institutos de pesquisas nacionais. Por isso, se faz urgente maior união do setor”.

“Estamos avançando muito, mas temos muito para crescer em termos de produtividade”, lembrou Ivan Cruz, presidente da Associação Brasileira de Milho e Sorgo

Novo paradigma para o mercado — A estrutura e a importância do mercado e da produção de milho mudaram. Antigamente, a realidade era baseada na cultura de subsistência e em baixa tecnologia, além de sua produção ser totalmente voltada ao mercado interno. A criação da Associação Brasileira das Indústrias do Milho (Abimilho), em 1977, da Associação Brasileira de Milho e Sorgo (ABMS), em 1986, e da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), em 2007, faz parte do processo de aperfeiçoamento do setor, e esta realidade começou a se alterar. Ao mesmo tempo, os produtores começaram a tomar consciência da importância e do potencial deste mercado para o agronegócio brasileiro.

De acordo com Luiz Antônio Pinazza, diretor da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), atualmente os produtores contam com alta tecnologia para a produção de milho e este é um mercado que depende amplamente de políticas públicas e do mercado para exportação. “Contamos com muita informação para tornar a produção cada vez mais rentável, com práticas de manejo mais uniformes para produzirmos cada vez mais milho e com potencial nutritivo cada vez maior. Isto é fruto do profissionalismo dos produtores, da difusão e da avaliação dos profissionais que prestam assistência técnica no campo”, afirmou.

Pinazza destacou ainda o fato de o milho fazer parte do “Top 4” da produção do agronegócio. “Ao lado do leite, do trigo e do arroz, o milho faz parte deste seleto grupo dos produtos extremamente importantes para o agronegócio. Ele está na base da pirâmide alimentar e integra uma longa cadeia produtiva, como a de aves e a de suínos, por exemplo, além de ser matéria-prima para centenas de outros produtos”, disse. Pinazza ainda apontou importantes mudanças que estão ocorrendo no mundo. “A China tem aumentado o consumo de milho desde 2005. Nos EUA o milho está sendo usado para a produção de etanol e tem aumentado o consumo para esta finalidade desde 2004. Lá, o consumo do cereal, neste período, cresceu cerca de 25% ao ano”, descreveu. “Já no Brasil temos um excedente de produção que pode ser utilizado para auxiliar a equilibrar o mercado externo.

Luiz Antônio Pinazza, diretor da Associação Brasileira do Agronegócio, lembrou que o Brasil precisa superar alguns desafios, como logística e a busca por novos mercados

Este ajuste entre a demanda interna e a produção de milho se faz através da exportação, mas não pode ser somente como matéria-prima, precisamos sim, cada vez mais, agregar valor ao nosso produto. Para isso, precisamos superar alguns desafios, como logística e a busca por novos mercados”, afirmou. Atualmente, o Brasil é responsável por 7% da exportação mundial de milho.

“FORMAR MAIS E MELHORES PROFISSIONAIS VOLTADOS AO AGRONEGÓCIO”

A agricultura brasileira evoluiu muito nos últimos anos, e esse crescimento se refletiu no número de contratações de mão de obra. No primeiro bimestre de 2012, o campo foi responsável pela maior contratação de trabalhadores com carteira assinada. Foram 21.446 mil, de acordo com o Ministério do Trabalho, gerando um saldo positivo de 9.867 mil vagas. Mas qual é o perfil atual deste trabalhador? Qual é a demanda gerada no campo e nas empresas que atuam no agronegócio? Estes questionamentos também foram levantados durante o evento. Segundo Isabela Colagrossi, da Kleffmann, o perfil demandado pelo mercado acompanha essa evolução do campo e traduz o novo agronegócio brasileiro. “Para atuar no agronegócio, não basta entender de manejo e técnicas de produção. É preciso entender de negócios”, explicou Isabela. “A alta tecnologia empregada no campo exige que os profissionais tenham inclusive qualificações que anteriormente não eram necessárias.”

Pesquisa feita pela Kleffmann, realizada de maio a junho com 679 produtores de milho safrinha no Mato Grosso, Paraná, Mato Grosso do Sul, Goiás e São Paulo, destaca a contratação de profissionais com curso superior voltado à administração de negócios. “A pesquisa mostra que há uma preocupação dos agricultores em profissionalizar cada vez mais a gestão de negócios. Do total de propriedades entrevistadas, 19% contrataram profissionais com curso superior, e, desta parcela, 85% contrataram agrônomos e 23%, administradores”, descreveu. Observa-se também outro fenômeno: a grande procura nas faculdades pelos cursos de Agronomia, Engenharia Agrícola e Zootecnia.

De acordo com Alessandro Guerra, pesquisador da Universidade de Rio Verde/ GO, ainda há uma lacuna entre o que as faculdades oferecem e a demanda do mercado. “É preciso haver maior integração entre estes setores para a melhoria da formação deste profissional”, ressaltou. “O conteúdo programático das universidades é bastante regionalizado, conforme a produção da região”, disse. Para João Cândido de Souza, da Universidade Federal de Lavras/MG, é crescente a demanda por bons profissionais no mercado, ao passo que cresce o número populacional no mundo. “Alguém tem de produzir o alimento. Qual é o impacto do aumento do número de pessoas no mundo para o agronegócio?”, questionou. “Vamos ter de formar mais e melhores profissionais voltados ao setor do agronegócio.”