Armazenagem

 

INVESTIMENTO estratégico

A armazenagem deve ser encarada pelo produtor como uma das operações da cadeia de produção, assim como o plantio e a colheita

Adriano Mallet, diretor técnico da Agrocult, [email protected]

A produção da safra brasileira deve alcançar um patamar próximo de 170 milhões de toneladas. Poderia ter sido maior, caso não tivesse ocorrido problemas climáticos em algumas regiões. Olhando o momento atual, já consideramos a importância de acelerar o aumento da capacidade da nossa rede armazenadora. A forma mais prática e sustentável de agilizar é a pulverização destes pontos, incentivando os investimentos em unidades armazenadoras na propriedade rural de forma sustentável, por meio de um Plano Nacional de Armazenagem nas regiões atuais e nas fronteiras agrícolas, as quais sempre começam pela abertura de áreas e investimentos em maquinários. Etapas iniciais possuem um ritmo mais acelerado em relação à etapa da implantação dos silos e armazéns graneleiros, criando um descompasso e gerando um déficit maior de capacidade a cada safra colhida.

A armazenagem é uma das operações da cadeia de produção, assim como preparo do solo, plantio, tratos culturais e colheita. De modo geral, a unidade armazenadora tem assumido, quase na sua totalidade, operações de limpeza, secagem, armazenagem e até beneficiamento dos grãos, como engenhos de arroz, indústrias de alimentos e de extração de óleo. O produtor tem ficado à mercê de filas, aguardando o descarregamento de seus grãos, sofrendo ainda os descontos de taxas devido a umidade elevada, teor de impurezas, classificação na recepção, de limpeza, de secagem e armazenagem. Hoje, com a tecnologia dos fabricantes e a variedade de tamanhos dos equipamentos disponíveis no mercado, é possível para o produtor rural armazenar parte ou o total da safra colhida com custos reduzidos e qualidade diferenciada sob sua própria gestão e capacitação técnica, aumentando sua renda rural.

A armazenagem a granel no Brasil iniciou na década de 1970, quando se observa o surgimento de silos de concreto, armazéns graneleiros e, na sequência, os silos metálicos. Todos compostos de uma rede com base em unidades governamentais e cooperativas, ainda sem a presença do produtor com seu próprio sistema de armazenagem, o qual sempre relegou a terceiros essa responsabilidade. Com o avanço da produção agrícola e a necessidade de guardar o produto, iniciou-se o movimento para ter uma instalação na propriedade, junto às áreas de plantio. Isto porque os armazenadores terceirizados não tinham a capacidade de acompanhar, em relação aos investimentos em estrutura, para incrementar a capacidade de armazenagem. Estes produtores inovadores começaram a se diferenciar em relação aos demais, quando observaram os ganhos financeiros reais que a armazenagem junto à sua lavoura proporcionou.

Com a unidade armazenadora na fazenda, o produtor não fica à mercê de filas, aguardando o descarregamento de seus grãos, sofrendo ainda os descontos de taxas devido à umidade elevada

Uma unidade armazenadora localizada de forma estratégica fornece ao país soluções para o sistema produtivo reduzir seus custos de viabilidade na região. Observando a médio e curto prazo, a evolução das novas fronteiras agrícolas, como Oeste da Bahia, Piauí e outras, impõe que tornar o complexo do agronegócio sustentável e equilibrado é o desafio neste momento. Logo, a armazenagem é fator determinante.

A seguir, veja quais são os ganhos da armazenagem na propriedade:

  • Comercialização da safra de forma gradual e na melhor oportunidade, de acordo com a valorização das commodities. O produtor, hoje, tem a tecnologia da informação para observar a evolução dos mercados futuros. Tem, também, as consultorias de comercialização que monitoram online o mercado e subsidiam o mesmo de informações para uma tomada de decisão mais assertiva de quando e como negociar sua safra. Com essa infraestrutura informativa, criou-se o produtor empresarial, com visão financeira e foco em resultado.
  • Eliminação de pagamento das taxas decorrentes da classificação dos seus grãos, no momento da armazenagem com terceiros. Esses percentuais acabam sendo muito elevados e, em algumas situações, corroem a margem de lucro, a diferença entre o custo de plantio e o valor final de venda. Nas situações em que o produtor ainda necessita aguardar a safra por um período maior para realizar a venda, os custos de armazenamento acabam aumentando ainda mais essas perdas financeiras.
  • Minimiza os custos com frete e diárias geradas pela espera em filas para a descarga dos grãos nas unidades de terceiros. Este processo, sendo dentro da unidade, torna-se mais ágil e com custos menores por não necessitar de grandes investimentos para o deslocamento da safra entre a lavoura e a unidade de limpeza, secagem e armazenagem. No momento da negociação, comercializa o produto posto na unidade, repassando parte dos custos de frete para o comprador.
  • Redução das perdas quantitativas e qualitativas, conservando a identidade inicial (qualidade) dos grãos colhidos na lavoura. O produtor, por ter a própria responsabilidade de cuidar da sua safra, irá trabalhar para reduzir ou eliminar contaminações e o surgimento de grãos ardidos, mantendo o valor nutritivo dos grãos e procedendo de forma correta no manejo dos processos de secagem, limpeza e armazenagem (aeração), possibilitando assim a condição de reduzir as perdas de peso, ou seja, a quebra técnica.
  • Melhor negociação com as empresas transportadoras. O período de entressafra possibilita a contratação com valores menores. No pico da safra, a procura pelo frete aumenta, provocando de forma natural a inflação do serviço. No período de entressafra, os valores retornam aos patamares normais da pré-safra.
  • Ganhos decorrentes do beneficiamento e comercialização dos subprodutos, como impurezas, cascas e outros. A utilização desses materiais é mais uma renda para o produtor agregar ao orçamento. Impurezas podem ser direcionadas para as indústrias de alimentos animal (ração). A casca, no caso do arroz, pode ter a sua comercialização direcionada para geração de energia (queima) ou também para formação de briquetes para utilização na própria fornalha, economizando combustível na secagem.
  • Realização de serviços para terceiros, como secagem e armazenagem temporárias. Neste caso, tendo uma operação como empresa de armazéns gerais junto aos produtores da região. Para essa atividade, que chamamos de mista, é importante ter a estrutura armazenadora composta por silos metálicos, viabilizando a segregação do produto recebido.
  • Valorização do patrimônio rural, devido ao investimento em estrutura de armazenagem. Caso chegue o momento de vender a propriedade, ter uma unidade de armazenagem é um diferencial de valor. Neste caso, também é importante manter continuamente um plano de manutenção preventiva para reduzir a depreciação dos equipamentos no momento da avaliação dos mesmos.
  • Valorização da saca de grãos pelo fato de ter um grão de qualidade superior para a geração de alimentos, com ausência de fungos, insetos, pragas e outros. Essa é uma vantagem que se pode considerar, juntamente com os ganhos de reduções das taxas, como a mais relevante. Observa-se um crescimento na procura por estes tipos de produtos com maior valorização pelas indústrias. Os fabricantes de equipamentos de armazenagem também evoluíram no desenvolvimento de novos produtos que agridem menos os grãos, incrementando tecnologias de informatização no processo, como automação de secadores, alimentação automática de fornalhas, controles informatizados de aeração e outros que reduzem danos mecânicos nos grãos. A aplicação da tecnologia de exaustão nos ambientes de armazenagem elimina o fenômeno da condensação, o maior gerador de fungos e grãos deteriorados na camada superior da massa de grãos. Esse processo possibilita a saída natural do calor gerado pelo processo respiratório dos grãos, criando um fluxo vertical do ar interno na massa, chamado aeração intensificada, reduzindo a formação de grãos ardidos e promovendo o resfriamento natural da massa armazenada com economia de energia da aeração. São tecnologias que propiciam segurança ao armazenador e qualidade final do produto, ganhos estes somente possíveis para quem possui sua armazenagem particular.

“Uma unidade armazenadora localizada de forma estratégica fornece ao país soluções para o sistema produtivo reduzir seus custos de viabilidade na região”, explica Mallet

Investimento de todos — Independe do momento, com o produto valorizado ou não, a armazenagem deve ser considerada como investimento estratégico não somente pelo produtor, mas também em nível federal, criando linhas de créditos a juros que estimulem o produtor a investir. Não se pode delegar todo este crescimento para cooperativas, cerealistas e outros. A necessidade para atender é muito elevada e o país está com déficit de armazenagem na faixa de 40%, com tendência de aumentar ano a ano. Especialistas preveem a necessidade do Brasil ampliar sua produção em 40% até 2019 para atender as demandas mundiais, com uma produção estimada de 185,6 milhões de toneladas em 2021/22. Também é relevante ter um corredor para escoar este volume do campo (vias de escoamento – rodovias, hidrovias e ferrovias) até a ponta final, que são as indústrias e os portos. Armazenagem é um item logístico e fator determinante para nosso crescimento agrícola e como nação.