Eduardo Almeida Reis

 

RECUERDOS

Sempre que vejo na tevê o compositor Ronaldo Bastos, autor de tantos sucessos, caçula dos quatro filhos de Mariana Bastos Ribeiro e Vicente Bello Ribeiro, me lembro com funda saudade de seu pai, vizinho de fazenda na região de Três Rios/RJ, companheiro de papo e copo durante muitos anos.

Vicente contava que fez carreira na Shell, onde começou como “vendedor de pastinha” e se aposentou como diretor comercial ao cabo de 35 anos de trabalho. Naquele tempo, a Shell premiava seus funcionários graduados, que se aposentavam, com dois salários multiplicados pelo número de anos trabalhados. Foi com os 70 salários que o excelente amigo comprou fazenda próxima da cidade de Três Rios, de acesso dificílimo a partir do asfalto: terras de ótima qualidade, estradinha estreita, subida íngreme, clima quente.

O dinheiro não deu para construir uma sede e o novo produtor de leite se limitou a reformar pequena casa de colono, com direito a geladeira e fogão a gás, ao lado de imensa parede de rocha onde funcionara uma pedreira. Fez pequeno gramado, tomávamos nossas cervejas à sombra da rocha e aplicou o resto dos cobres no estábulo e nas instalações para produção de leite tipo B.

Nesse tempo, o aposentado teria cerca de 55 anos e tremenda experiência profissional, contra os meus 36, metade dos quais usando no meu carro a gasolina de sua bandeira, além da dolorosa experiência de quatro anos como dono de posto de gasolina e churrascaria de beira de estrada. Por coincidência, bandeira Shell, mas só conheci o diretor comercial depois de vender o posto e a churrascaria, localizados numa curva perigosíssima da BR-3, atual BR-040, trecho Rio- Belo Horizonte.

Em Três Rios, logo tivemos a companhia e os conselhos do bom Vicente em nossa cooperativa e no sindicato rural, bem como nos botequins onde afogávamos nossas mágoas falando mal do governo e dos 12 centavos de dólar que recebíamos por litro de leite B. Contávamos, é certo, com o crédito rural e as nossas fazendas, penduradas no BB, conseguiam dívidas cinco vezes maiores que o seu valor de venda. Com o passar dos anos as coisas se ajeitaram e ainda me foi possível vender a fazenda, em 1980, com um lucrinho razoável, depois de pagos todos os empréstimos.

Ninguém chega a diretor comercial da Shell por suas virtudes abstêmicas e o excelente amigo era imbatível numa roda de chope. Sei disso, porque o desafiei uma porção de vezes e sempre fui derrotado. De outro lado, das lições da Shell Brasil – nascida depois que a Royal Dutch Shell foi fundada em 1907, unindo a N.V. Koninklijke Nederlandsche Petroleum Maatschappi à companhia Shell Transport and Trading Company Ltd para competir com a gigantesca empresa estadunidense Standard Oil –, das lições da Shell Brasil, repito, nosso Vicente pouco aproveitou, porque não lhe ensinaram a lidar com os vigaristas que infelizmente existem em nossa pecuária leiteira, gente que pinta e borda com os novos fazendeiros.

Daí a queixa recorrente do ex-diretor da multinacional: “Não foi isso que me ensinaram, Eduardo”. Também fui vítima dos vigaristas regionais: são simpáticos, envolventes, espertos. Deles, ninguém escapa.

Vicente circulava a bordo de um Fusca verde, único veículo sem tração 4x4 capaz de subir a estradinha de sua fazenda em tempo de chuva. Subir e descer, porque na roça não funciona o ditado para baixo todo santo ajuda. Depois de pelejar com as vacas compradas aos vigaristas da região, aproveitou um plano de financiamento e importou 100 holandesas do Uruguai.

Seriam ótimas, não existissem os carrapatos. Considerando que o veterinário não morava na fazenda, cumpria ao fazendeiro, termômetro em punho, tomar a temperatura das 100 vacas três ou quatro vezes por dia, antes de aplicar as injeções recomendadas pelo veterinário. Perdemos o companheiro de chope e dos papos na cooperativa, que passava dias e noite com imenso termômetro veterinário espetando-o naqueles orifícios vacuns que o leitor bem pode imaginar.

Numa tarde em que se reservou meia hora para tomar sua cerveja à sombra da tal parede de rocha, quase perdeu a vida. Uma das uruguaias, sem prática em pastos acidentados, cismou de cair lá de cima para morrer no pequeno jardim, a dois metros do fazendeiro.