Plantio Direto

 

A consolidação do SPD no OESTE BAIANO

Engenheiro agrônomo Ingbert Dowich, presidente da Associação Plantio Direto no Cerrado

O plantio direto no Brasil tem sido reconhecido pelo conceito da semeadura das culturas sem o revolvimento do solo e da existência de boa cobertura de palhada. A grande divulgação da realidade deste sistema no Sul do país fortaleceu esta imagem no Brasil e em países vizinhos, sistema que tem como marca o grande volume de palha acumulado sobre o solo, formando um verdadeiro tapete protetor. O Sistema Plantio Direto (SPD), que é a expressão técnica mais usual, envolve uma série de conceitos e procedimentos. De modo geral, para seu bom desempenho, envolve três pontos chaves: a rotação de culturas, o perfil do solo trabalhado sem revolvimento e a existência de plantas de cobertura.

Este tripé de sustentação do SPD está sendo desenvolvido na região Oeste da Bahia. No caso da rotação de culturas, ela existe, mas em desequilíbrio proporcional. Partindo dos últimos números da safra 2011/2012, constata-se a participação da soja em 56% da área, do algodão em 19% e do milho em 12% da matriz produtiva regional. Assim, ao observar a realidade da região chega-se a uma conclusão lógica, de que o sistema plantio direto não está sendo aplicado na sua plenitude. Pouca palhada se observa em muitas áreas, embora o plantio sem revolver o solo seja amplamente adotado na cultura da soja e do milho, com algumas resistências ou limitações legislativas, ainda, na cultura do algodoeiro.

Entretanto, encontramos em fazendas de alguns produtores uma outra realidade, com provas de que este sistema de plantio está em melhores condições que em certas regiões brasileiras onde o sistema é tido como consolidado, apresentando uma diversificada biodiversidade e com presença de minhocas encontradas sob a palhada. A diversidade apresentada é salutar, porém não significa sucesso, pelo fato da melhor receita de sustentabilidade do SPD para a realidade do Oeste da Bahia ter base na cultura do milho. Assim sendo, em termos percentuais, esta cultura deveria atingir pelo menos um terço da matriz regional.

O SPD promove a melhor receita para ciclagem de nutrientes e proteção do solo, uma vez que a condição formada permite grande expansão da população de minhocas e corós, bons indicadores de qualidade do solo

Continuando a análise com a segunda base do tripé de sustentação do sistema, há o uso de plantas de cobertura. Por não chover em parte do ano, não há condições de um bom desenvolvimento de plantas após a cultura agrícola principal. Para isso, uma estratégia comum nas áreas de soja como tentativa para promover a produção de palhada está na semeadura do milheto em sobressemeadura ou na sequência, após a colheita da soja. Apesar de apresentar um visual de boa cobertura do solo, ocorre um balanço invertido em termos de nutrientes no solo, com altíssima queima da matéria orgânica do solo e ponte verde para muitas pragas de expressão das principais culturas. Por outro lado, nas áreas de soja precoce com algum volume de chuvas após a colheita se consegue alguma recuperação de nutrientes, em especial potássio, por exemplo.

Cobertura de solo — Uma estratégia corrente em algumas fazendas tem sido a manutenção do capim carrapicho ou timbête, de fácil manejo e que promove boa cobertura do solo, sem necessidade de semeadura. Além de boa proteção do solo, apresenta-se mais eficiente no aproveitamento da umidade noturna e de chuvas fracas. Porém, precisamos estar atentos quanto a multiplicação de nematoides do Cerrado ou outras pragas, o que seria prejudicial, mas com efeito menos daninho do que a falta de cobertura do solo. Como carro-chefe e energia ao SPD estão a rotação de culturas com milho, e ainda melhor se o consórcio do milho estiver com a braquiária. A forma de implantação da braquiária poderá ser por semeadura desta antes da semeadura do cereal, ser simultânea ou na sequência, a qual ganha vigor vegetativo após o milho fechar seu ciclo. Como resultado, no período chuvoso a primeira cultura garante proteção do solo, sendo que, após, a braquiária continua com esta função.

Diante da grande massa verde formada, este sistema permite trabalhar a integração lavoura-pecuária, com a inserção de animais para aproveitar parte desta massa verde ou palhada do milho, sem comprometer a cobertura do solo. Como consequência, este procedimento promove a melhor receita para ciclagem de nutrientes e proteção do solo, uma vez que a condição formada permite grande expansão da população de minhocas e corós, que são bons indicadores de qualidade do solo, pois auxiliam na decomposição de resíduos vegetais e na mineralização destes.

O tripé rotação de culturas, não-revolvimento do solo e plantas de cobertura, o que dá sustentação do SPD, está sendo desenvolvido nas lavouras da região Oeste da Bahia

Partindo deste cenário, a região deveria triplicar a atual área de plantio de milho, o que não tem sido possível por questões logísticas e falta de mercado para o produto. Embora iniciada a exportação do cereal, não será o suficiente para ampliar a demanda. Com a rotação de culturas ocorrendo de forma sucessiva ou intercalada, bem como a manutenção de plantas de cobertura, o SPD se expande, mas sem deixar de lado o terceiro ponto de sucesso, que é a manutenção de um bom perfil de solo. Esta condição é obtida com a descompactação da camada superficial de pelo menos 40 centímetros e mantendo-a com bons níveis de fertilidade. Com estas condições, o solo terá sua vida microbiana preservada e a fertilidade elevada, sendo condição fundamental para a sustentabilidade. Porém, a solução para que o SPD se consolide na região não é técnica e sim de logística, uma vez que expandindo as áreas com milho, o plantio direto ganhará nova expressão na região.

ILP — Outra estratégia interessante tem sido a integração de atividades, em especial com a pecuária. O sistema surgiu de uma forma espontânea no Brasil, principalmente por pequenos produtores do Sul, para aproveitar sobras das safras de culturas de inverno como o trigo e a aveia ou do próprio milho e soja. No Oeste da Bahia o sistema se difundiu pelos agricultores no intuito de se aproveitar, assim como o produtor do Sul, sobras de safras e, principalmente, a safrinha de carne, uma vez que não temos suficiente volume de chuvas para cultivo de grãos. Nos primórdios do ano de 2002, várias iniciativas, especialmente de produtores adotantes de plantio direto, os quais vislumbraram na integração um incremento de receita em seus empreendimentos sem prejuízo da qualidade do plantio direto. Em função do baixo valor de mercado da arroba do boi gordo, os crescentes bons preços dos cereais e a falta de plantas frigoríficas para o abate dos animais, esses produtores começaram a se desestimular a prosseguir com o sistema.

Atualmente, o sistema vem sendo adotado por produtores-pecuaristas visando reformar pastagens degradadas com produção de grãos e mesmo a produção de grãos como alternativa de renda ao pecuarista. Essas áreas se concentram no vale, sem uma expressão em termos de influenciar a produção de cereais, mas vital para a sustentabilidade e a rentabilidade da pecuária. O efeito disso é a mitigação do desmatamento, ou seja, podemos produzir carne e leite nas áreas de soja, milho e algodão sem necessidade de desmatar novas áreas de cerrado.

Infelizmente, para que isso ocorra, precisamos de comprometimento da sociedade como um todo e, em especial, preparo e capacitação dos agentes financeiros para que financiem essas atividades com juros diferenciados, uma vez que os adotantes da ILP são relevantes prestadores de serviços ambientais, arcando com os custos da conservação ambiental de forma voluntária e consciente, com seus próprios recursos. Outro aspecto importante da ILP é a alta capacidade de sequestro de gases de efeito estufa, tão propalados principalmente pela mídia e pela sociedade urbana, sem, contudo, estes estarem fazendo a sua parte. Enquanto o produtor de SPD e ILP está reduzindo drasticamente o consumo de recursos naturais (combustível, por exemplo), a sociedade urbana aumenta ano a ano o consumo de combustível.

Se considerarmos as áreas altas de Cerrado, o agricultor adota a ILP como fonte de renda adicional ao seu negócio, ou seja, uma safrinha de carne sem irrigação. Assim, verticaliza a produção, otimizando o uso da terra sob seu domínio, reciclando nutrientes aplicados nas culturas principais e quebrando ciclo de pragas e doenças. Neste caso, planta o milho consorciado com a braquiária, colhe cedo e libera a área para que o capim aproveite as últimas chuvas para crescer e ciclar nutrientes do solo ou sobrados da cultura principal. A forragem é aproveitada pelos animais na própria área. Em algumas situações, o produtor produz o feno do capim e, então, fornece aos animais em engorda no sistema semiconfinado (o boi fica no pasto e recebe a forragem picada no cocho) e, até mesmo, aos totalmente confinados.

Amortização de custos — Por outro lado, nas áreas baixas (no vale) o pecuarista adota o sistema como forma econômica de amortizar os custos da reforma das pastagens degradadas, a produção de grãos para comercialização ou suplementação alimentar ou mesmo a produção de silagem para engorda de gado de corte ou produção de leite. Mas podemos afirmar que a ILP é adotada principalmente para amortizar custos da reforma de pastagens ou a troca da espécie forrageira em uma área. A cultura mais utilizada é o sorgo, devido a sua alta tolerância a veranicos e ao custo relativamente baixo de semeadura.

Dowich: a solução para que o SPD se consolide no Oeste Baiano não é técnica e sim de logística, pois, se expandindo as áreas com milho, o plantio direto ganhará nova expressão na região

No sistema ILP é possível elevar a lotação de animais de 0,5 UA/hectare (unidade animal = 450 quilos) para 1,5 a 2,5 UA, dependendo da época do ano e da forrageira implantada. Áreas de milho consorciadas com braquiárias chegam a receber 3 UA de junho a setembro (época em que os animais então prontos para abate). Se houver alguma complementação com proteinado, esses animais chegam a ganhar 1.260 gramas/dia. Sempre que conseguirmos acima de 700 gramas/dia, os animais abatidos irão apresentar boa cobertura de gordura em suas carcaças.

Por outro lado, nas áreas de sorgo consorciadas com braquiária, essa lotação fica em torno de 2 UA, com bom ganho de peso dos animais, que, quando complementados, atingem 1.165 gramas/dia. Também permitem uma excepcional forragem para bezerros desmamados em maio e junho, com elevado crescimento (ganho de peso) apenas a pasto, com mineralização adequada. Outro aspecto interessante é o menor consumo de suplemento mineral dos animais, pois a forragem é mais equilibrada que aquela das pastagens tradicionais.