Ferrugem II

 

O MANEJO do antes ao fim da safra

Já são 11 safras de convívio com a ferrugem nas lavouras brasileiras, e muitas informações sobre a doença e seu controle foram geradas. Mas, a cada safra, surgem novos desafios

Rafael M. Soares, Claudine D. S. Seixas, Cláudia V. Godoy, pesquisadores da Embrapa Soja

Originária da China e presente na maioria dos países asiáticos e na Austrália, a ferrugem asiática da soja, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, sempre foi considerada a mais séria doença a afetar a cultura da soja. Até a década de 90, ficou restrita ao Hemisfério Oriental e, na última década, se disseminou para os três principais países produtores de soja: Estados Unidos (2004), Brasil (2001) e Argentina (2002). A partir do primeiro relato em 2001, a ferrugem asiática tornou-se a principal doença da soja no Brasil. Isso se deve ao seu alto potencial de dano e à constante presença em praticamente todas as regiões produtoras ao longo desses anos.

Os sintomas da ferrugem caracterizam- se principalmente por lesões nas folhas, sendo que plantas severamente infectadas apresentam desfolha precoce, o que compromete a formação, o desenvolvimento de vagens e o peso final do grão. Quanto mais cedo ocorrer a desfolha, menor será o tamanho do grão e, consequentemente, maiores serão as perdas em rendimento e qualidade. As perdas em produtividade causadas por essa doença variam de 10% a 90% nas diversas regiões geográficas onde foi relatada.

No Brasil, prejuízos com a ferrugem são estimados em mais de US$ 19 bilhões até a safra 2011/12, levando em consideração as perdas em produtividade, a arrecadação de impostos e os custos com o tratamento com fungicidas. Após 11 safras de convívio com a ferrugem, muitas informações sobre a doença e seu controle foram geradas e acrescentadas ao que se conhecia até a sua introdução. No entanto, cada safra tem apresentado um padrão diferente e desafios surgem, tornando as recomendações de manejo dinâmicas de forma que se ajustem às novas situações.

Na safra 2011/12, as perdas pela doença foram maiores no Mato Grosso, onde chuvas abundantes favoreceram a ocorrência da doença, ao mesmo tempo que dificultaram as aplicações de fungicida no momento correto. Outros estados produtores tradicionalmente afetados pela ferrugem, como Mato Grosso do Sul, Paraná e Rio Grande do Sul, sofreram com a forte estiagem e, com isso, as condições climáticas não foram favoráveis para a sua ocorrência.

As estratégias de manejo recomendadas para ferrugem devem ser adotadas de forma conjunta, por meio da utilização de cultivares de ciclo precoce e semeaduras no início da época recomendada; eliminação de plantas de soja voluntárias e ausência de cultivo de soja na entressafra (vazio sanitário); monitoramento da lavoura desde o início do desenvolvimento da cultura; utilização de fungicidas (misturas de triazóis e estrobilurinas) e utilização de cultivares resistentes, quando disponíveis.

O vazio sanitário — Em 2006, os estados de Mato Grosso, Goiás e Tocantins instituíram o vazio sanitário, período de ausência total de plantas vivas de soja, durante um período estipulado na entressafra da cultura. Com isso, o fungo causador da ferrugem, por ser um organismo biotrófico, ou seja, necessita de um hospedeiro vivo para sobreviver, não encontra seu hospedeiro preferencial durante um período suficiente para reduzir sua população. A eficiência do vazio sanitário na safra 2006/07 nos estados que o adotaram levou à adoção de medida semelhante em anos subsequentes em Mato Grosso do Sul, São Paulo, Maranhão, Pará, Minas Gerais, Paraná, Bahia, Rondônia e Distrito Federal. O Paraguai, país que tem sofrido fortes epidemias de ferrugem, passou a adotar o vazio sanitário a partir de 2011.

As datas do período de vazio variam de acordo com a região e o período varia de 60 a 90 dias, não devendo ser inferior a isso, pois estudos mostram que os esporos do fungo podem sobreviver cerca de 55 dias no ambiente em temperaturas entre 15- 20°C. O desrespeito ao vazio sanitário pela falta de controle de plantas voluntárias de soja (tigueras ou guaxas), fruto do descaso dos responsáveis pelas áreas infestadas e aliado a uma fiscalização deficiente pelos órgãos competentes estaduais, tem sido um problema presente em várias regiões.

Os sintomas da ferrugem caracterizam-se principalmente por lesões nas folhas, e as plantas severamente infectadas apresentam desfolha precoce

Resistência genética — A utilização de cultivares resistentes para o controle de doenças pode ser o método de controle mais eficiente e barato para o produtor. No entanto, o desenvolvimento de cultivares leva tempo e seu sucesso também depende das características da doença que se deseja controlar. No caso da ferrugem asiática, a resistência genética pode ajudar a diminuir os custos com o controle químico, melhorando a eficiência deste e reduzindo a pressão de seleção para resistência a fungicidas. Atualmente, foram identificados seis genes de resistência à doença (Rpp1, Rpp2, Rpp3, Rpp4, Rpp5 e Rpp6) e a pesquisa tem mostrado que há outros genes atuantes na resistência a P. pachyrhizi.

No entanto, a alta variabilidade genética do fungo é um obstáculo a ser vencido para se obter cultivares com resistência eficiente e durável. Resultados de pesquisa têm mostrado que há variabilidade entre as populações do fungo que ocorrem em diferentes países, como Brasil, Paraguai, Estados Unidos, Japão, e, dentro dos países, em diferentes regiões, com diferenças de severidade e de virulência. Com o aumento no número de cultivares resistentes e a provável utilização destas em extensas lavouras comerciais, a variabilidade patogênica do fungo poderá influenciar na efetividade dos genes de resistência.

Segundo os pesquisadores Rafael Soares (na foto), Claudine Seixas e Claudia Godoy, a utilização de cultivares resistentes pode ser o método de controle mais eficiente e barato para o produtor

A utilização de cultivares resistentes como única estratégia de manejo possui as mesmas limitações dos fungicidas, pois pode ocorrer seleção para populações com capacidade de “quebrar” a resistência e a cultivar se tornar suscetível. Portanto, as cultivares resistentes devem ser vistas como uma ferramenta a mais a ser incorporada no conjunto de estratégias de manejo da doença. A Embrapa já lançou duas cultivares que possuem genes de resistência à ferrugem que, embora não sejam imunes à doença, são menos afetadas por ela, o que ajuda no manejo, inclusive tornando o controle químico mais eficiente. São elas BRSGO 7560 e BRSMG 780RR.

Resistência do fungo a fungicidas — Devido à presença da ferrugem, os fungicidas são atualmente uma das principais ferramentas de manejo que viabilizam o cultivo da soja no Brasil. Sem produtos eficientes, a média de produtividade brasileira jamais atingiria os patamares atuais. O número de fungicidas registrados para o controle da ferrugem aumentou de cinco, em 2002, para cerca de 78, em 2012. Apesar do grande número de produtos registrados, a maioria pertence ao grupo químico dos triazóis, com diversos similares genéricos e combinações de triazóis e quatro estrobilurinas. Tanto os triazóis quanto as estrobilurinas são fungicidas com modo de ação específico. Os triazóis são inibidores da biossíntese de ergosterol, importante componente da membrana celular dos fungos sensíveis. As estrobilurinas interferem na respiração mitocondrial dos fungos.

A partir da safra 2007/08, começou a ser observada menor eficiência dos triazóis. Essa menor eficiência tem sido associada à seleção de populações menos sensíveis do fungo aos fungicidas do grupo. Populações menos sensíveis a fungicidas já estão presentes na natureza mesmo sem nunca terem sido expostas ao fungicida. Embora fungos que causam ferrugens estejam classificados como patógenos de baixo risco de resistência, a pressão de seleção que ocorre nos cultivos de soja no Brasil é muito alta devido às grandes áreas cultivadas, à frequência de aplicação proporcionada pela extensa janela de plantio para a cultura e às aplicações curativas que ocorrem a partir da doença instalada.

Em consequência da menor eficiência associada à seleção de populações menos sensíveis do patógeno aos triazóis, o Consórcio Antiferrugem passou a orientar que fossem utilizadas apenas misturas de triazóis e estrobilurinas. A resistência de patógenos aos triazóis é descrita como quantitativa, ou seja, ocorre mudança gradual na sensibilidade do patógeno, aumentando ano após ano com o uso contínuo do produto, raramente levando a uma perda completa de eficiência. A utilização de misturas de triazóis e estrobilurinas é uma estratégia antirresistência devido ao diferente mecanismo de ação da estrobilurina, que atua sobre indivíduos resistentes e sensíveis aos triazóis.

Com a menor eficiência dos fungicidas do grupo dos triazóis é esperado um aumento de pressão de seleção para resistência aos fungicidas do grupo das estrobilurinas. Estudos mostram que, em teoria, a resistência completa de P. pachyrhizi à estrobilurina tem probabilidade quase nula de ocorrer. No entanto, o ideal é que esses fungicidas não sejam utilizados em aplicações isoladas e que se invista no desenvolvimento de produtos com diferentes modos de ação que possam compor uma estratégia antirresistência, garantido maior segurança para o sistema de produção da soja. No momento, não há outros grupos químicos registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento que apresentam eficiência para o controle da ferrugem da soja.