Ferrugem I

 

ALERTA total com a mais temível das doenças

Em lavouras como as localizadas no Mato Grosso, a tendência é que a incidência da ferrugem seja antecipada por causa das plantas guaxas que se desenvolveram na entressafra

José Otavio Menten, presidente do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS)

A ferrugem asiática da soja é uma doença infecciosa causada por um fungo, denominado Phakopsora pachyrhzi, que pode causar danos e perdas de até 80%. Daí a necessidade de realizar o manejo da doença, utilizando medidas adequadas. Entre as medidas de controle, destaca-se a aplicação de fungicidas, sempre que necessário. Em algumas situações, são realizadas até cinco pulverizações. Na safra 2012/13, no Mato Grosso a previsão é que a ferrugem asiática terá início mais cedo, devido à elevada população do fungo no início do desenvolvimento das plantas. Quanto mais cedo se inicia a doença, maior a necessidade de aplicação de fungicidas. A epidemia de ferrugem deverá se antecipar devido à presença de muitas plantas guaxas, voluntárias, tigueras, que se desenvolveram na entressafra devido às condições climáticas favoráveis.

Neste ano, o inverno no principal estado produtor de soja no Brasil foi chuvoso. Isto permitiu que grãos de soja, perdidos durante a colheita e o transporte germinassem e originassem plantas que permitiram o desenvolvimento da ferrugem, causada por um parasita obrigatório, isto é, o agente causal só se desenvolve na presença de seu hospedeiro, da planta viva. Existem muitas plantas na região urbana, nas margens das rodovias e próximas às áreas que deverão ser cultivadas, produzindo esporos do fungo. São essas estruturas as responsáveis pelo início da epidemia.

A ferrugem asiática se estabeleceu no Brasil em 2001, no Paraná. Em poucos anos já estava em todas as regiões produtoras do país, exceto Roraima. A doença é favorecida por chuvas bem distribuídas e longos períodos de molhamento das folhas, temperatura ótima entre 18º e 26,5ºC e o cultivo de variedades suscetíveis. Nestas condições, os esporos germinam na superfície das folhas, penetram diretamente na epiderme, colonizam os tecidos internos da folha e, a partir de cinco dias após a infecção, expressam os sintomas iniciais; após mais quatro a seis dias inicia-se a reprodução do patógeno, com o surgimento das pústulas/urédias. Estas estruturas podem produzir esporos por cerca de 21 dias.

Para enfrentar a ferrugem, já estão começando a ser utilizadas cultivares resistentes à doença, como a soja Inox

A correta diagnose da ferrugem é muito importante. Existem diversas doenças, como as lesões iniciais da mancha parda, o crestamento bacteriano e a pústula bacteriana que podem ser confundidas. Os sintomas iniciais da ferrugem asiática são pontos escuros, com menos de um milímetro de diâmetro, que evoluem para saliências na face inferior das folhas. São nestas pequenas pústulas que são produzidas as estruturas reprodutivas do fungo, que são disseminadas principalmente pelo vento, permitindo a rápida evolução da doença. As folhas amarelecem precocemente e caem mais cedo; a desfolha prematura causa redução do tamanho dos grãos e presença de grãos verdes. A doença pode causar aborto e queda das vagens, reduzindo a produtividade em até 80%, quando se comparam áreas tratadas e não tratadas com fungicidas.

Prevenção — O manejo integrado da ferrugem é essencial para reduzir o risco de danos e perdas. Diversas medidas devem ser adotadas preventivamente, simultaneamente ou em sequência. Deve ser feita Leandro M. Mittmann Para enfrentar a ferrugem, já estão começando a ser utilizadas cultivares resistentes à doença, como a soja Inox A GRANJA | 63 Divulgação a rotação de culturas com espécies não hospedeiras do agente causal da ferrugem. E estão começando a ser utilizadas cultivares resistentes, como a soja Inox. Materiais de ciclo mais curtos, semeados o mais cedo possível, em regiões onde foi obedecido o vazio fitossanitário, são importantes para evitar grande população do fungo no início do desenvolvimento das plantas.

O vazio fitossanitário significa ausência de hospedeiros do agente causal da ferrugem na entressafra. Em diversos estados, existe legislação proibindo o cultivo de soja por 60-90 dias. Mas o fungo pode sobreviver em hospedeiros alternativos. Existem mais de 95 espécies de plantas hospedeiras. São importantes, no Brasil, kudzu, guandu, mucuna preta, desmodium, etc. O objetivo é eliminar estes hospedeiros para que seja quebrada a ponte verde que permite a sobrevivência do patógeno.

Para a aplicação de fungicidas, há necessidade de monitoramento da ferrugem. A primeira pulverização deve ser feita imediatamente antes dos sintomas iniciais. Para se comprovar a presença do fungo na região, pode-se instalar unidades de alerta, áreas de cerca de 100 metros quadrados, semeadas 15 a 20 dias antes da data de semeadura das lavouras, para constatar a presença das pústulas nas plantas das unidades alerta, antes delas surgirem na lavoura. Deve-se considerar que a ferrugem se inicia pelo baixeiro, nas folhas do terço inferior da planta.

Uso de fungicidas — Existem 20 produtos técnicos e 29 fungicidas comerciais à disposição dos produtores para manejo químico da ferrugem. Recomenda-se a aplicação da mistura pronta de produtos com diferentes mecanismos de ação, como um triazol e uma estrobilurina. Os fungicidas devem ser aplicados na dose de registro, como a adição de adjuvantes na calda, quando recomendado. O número de aplicações depende do estádio de desenvolvimento da cultura quando foi iniciado o controle, do período residual do produto aplicado e das condições climáticas.

Para evitar o surgimento de populações da ferrugem resistentes a fungicidas, é importante realizar o manejo adequado destes produtos. Recomenda-se a aplicação sequencial de fungicidas com mecanismos de ação diferentes ou a mistura de produtos com estas características, além de obedecer a dose e o intervalo de aplicação. Os fungicidas devem ser aplicados em condições climáticas apropriadas, para evitar deriva. O pulverizador deve estar calibrado e regulado para que as gotas de calda fungicida atinjam o alvo, ou seja, as folhas baixeiras. Para maior sucesso na pulverização, deve-se utilizar gotas finas, com diâmetro abaixo de 220 micrômetros, 60 gotas por centímetro quadrado, com volume de calda de cerca de 150 litros por hectare.

Menten: existem 20 produtos técnicos e 29 fungicidas comerciais à disposição dos produtores para manejo químico da ferrugem

Em condições de ocorrência da doença nos estádios iniciais da cultura, pode ser utilizado o tratamento de sementes com fungicida específico para ferrugem, fluquinconazole. Esta medida retarda o estabelecimento e a evolução da doença, contribuindo para a redução de número de aplicações. A importância da ferrugem asiática da soja é tão grande que foi criada pelo Ministério da Agricultura, em 2004, uma parceria público-privada, o Consórcio Anti- Ferrugem, com o objetivo de contribuir com o manejo da doença. Esta entidade estimou as perdas devido à ferrugem, de 2001/02 a 2010/11, em 15,2 milhões de toneladas, equivalente a US$ 3,7 bilhões. Neste período os gastos com fungicidas e aplicação, mais os danos na produção e a redução na arrecadação de impostos, proporcionaram perda de US$ 19,2 bilhões.

A soja é o principal cultivo agrícola do Brasil. A previsão é da semeadura de mais de 25 milhões de hectares e, se o clima for favorável e as boas práticas agrícolas forem utilizadas, a produção deverá atingir mais de 80 milhões de toneladas, tornando o Brasil o maior produtor mundial, pela primeira vez na história. Os Estados Unidos vêm sofrendo grandes danos com a estiagem. A soja está sujeita a mais de 40 doenças que limitam a obtenção de altos rendimentos. Diversas doenças surgiram no Brasil ao longo da expansão do cultivo, a partir de 1970: mancha olho-de-rã, em 1972; cancro da haste, em 1989; nematoide do cisto, em 1992, e oídio, em 1997. O agente causal da ferrugem foi descrito em 1902 no Japão, em 1976 em Porto Rico e em 1990 na África. Anteriormente, havia sido descrito no Brasil, em 1979, a ferrugem americana, causada por Phakopsora meibomiae. Esta ferrugem é muito menos agressiva e não representa preocupação atualmente.