Congresso ABAG

 

A SEGURANÇA global nas mãos do Brasil

Realizado no mês passado, em São Paulo, o 11º Congresso Brasileiro do Agronegócio destacou a importância do país diante da demanda mundial por alimentos e energias

Denise Saueressig - [email protected]

Produzir no campo os recursos que o mundo demanda é o grande desafio do setor agropecuário brasileiro no presente e nas próximas décadas. O argumento foi a proposta do 11º Congresso Brasileiro do Agronegócio (CBA), realizado no dia 6 de agosto, em São Paulo. Com o tema “Brasil – Alimentos e Energias/Seguranças Globais”, o evento realizado pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) reuniu produtores e lideranças do setor em torno de discussões sobre as possibilidades e as necessidades da produção nacional.

As limitações físicas em países desenvolvidos são notórias e, portanto, será preciso que as nações emergentes cumpram o papel de expandir a produção agrícola mundial, lembra o presidente da Abag, Luiz Carlos Corrêa Carvalho. “Os mercados emergentes revivem, de algum modo, o papel desempenhado pelos Estados Unidos como um grande produtor de commodities. O Brasil terá que ampliar sua produção em 40% até 2019, número que supera o previsto para países como Rússia, Ucrânia, Índia e China”, destaca.

Como principal candidato a maior ofertante mundial de alimentos e energias, o Brasil precisa superar barreiras que representam entraves para o crescimento do agronegócio. “É necessário trabalhar melhor a nossa imagem diante da sociedade, contar com uma regulação mais clara para investimentos e manter o setor sempre na agenda do Governo. Nossa ambição global passa também por estratégias locais, que resolvam, por exemplo, problemas de logística e de alta tributação. Precisamos de coordenação entre as ações do Governo e do segmento privado, e acertar o nosso senso de urgência diante das dificuldades”, argumenta Carvalho.

O coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (GVAgro) e ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, constata que o momento revela uma fragilidade na produção mundial de alimentos em decorrência da seca norte-americana, que vai retirar pelo menos 50 milhões de toneladas de grãos do mercado. “Essa crise de oferta abre uma oportunidade imensa para o Brasil, e é uma situação que não será resolvida em um ou dois anos. Por isso, precisamos aproveitar o cenário e fazer um projeto interno de longo prazo”, analisa.

O ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro Filho, garantiu que o Governo está trabalhando para construir a estrutura necessária para fazer frente à demanda dos produtores brasileiros e do Gerardo Lazzari A GRANJA | 59 mercado mundial. “O Brasil está pronto para produzir o que o mundo precisa e tudo indica que vamos obter a maior safra da história ainda este ano”, ressalta. Durante sua participação no congresso, o ministro disse que um pacote de investimentos voltados à logística seria anunciado, o que foi confirmado dias depois, com o Programa de Investimentos em Logística, ou o PAC Concessão, como foi apelidado.

Como conduzir a expansão da produção? — Mesmo com o prenúncio de uma safra de 170 milhões de toneladas, o país precisa manter o incremento da produção e, claro, criar condições para que esse crescimento contínuo seja possível. “A evolução tecnológica é um dos aspectos positivos da nossa agricultura, mas precisamos trabalhar para reduzir os custos, o que inclui os gastos extras pelas falhas na logística e os custos do capital. Infelizmente, o Governo ainda tem limitações para resolver a necessária expansão da produção”, avalia o diretor de Commodities da BM&FBovespa, Ivan Wedekin. No entanto, o dirigente aposta que o Brasil vai continuar acelerando a produção, mesmo sem as condições ideais para cumprir o trabalho. “O espírito empreendedor dos agricultores e as empresas não vão ficar esperando o Governo fazer melhor. Existem uma demanda e uma dinâmica de mercado que precisam ser atendidas”, conclui.

Para o presidente do Conselho Consultivo da The Nature Conservancy (TNC) no Brasil, Werner Grau Neto, a tecnologia empregada no campo precisa estar acompanhada de estímulo aos produtores, com iniciativas integradas entre Governo, sociedade e indústrias. “É fundamental a redução da carga tributária, com revisão total do sistema vigente. A educação também precisa de mais estímulo, já que a mão de obra no campo carece de qualificação”, assinala.

Organização é a palavra-chave para um maior desenvolvimento da produção, na avaliação do presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Márcio Lopes de Freitas. “Somos 5 milhões de agricultores, ou 2,5% da população. Se não nos organizarmos, não teremos política eficiente nunca. Governos não agem, governos reagem e, por isso, precisamos trabalhar para que a política nos ajude, integrando o processo político com capacidade para impactar”, declara.

Em 2011, o agronegócio representou 22,15% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, cita o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho. Na opinião dele, a blindagem do país contra as crises internacionais não seria tão forte sem a participação do setor na economia. “A agricultura é um garantidor de estabilidade no mercado doméstico, assim como é um garantidor dos resultados positivos da balança comercial”, justifica.

Falando sobre a economia brasileira, Coutinho descreve que hoje 84% das famílias brasileiras ocupam espaço entre as classes A e C. “Nos últimos cinco anos, o consumo só não cresceu em dois trimestres, o que é significativo para quem produz alimentos”, enumera. A produção de grãos deverá chegar a 185,6 milhões de toneladas em 2021/2022, segundo o economista. Os produtos mais dinâmicos do agronegócio brasileiro serão o algodão, soja em grão, carne de frango, açúcar, milho e celulose. A produção de cana deverá alcançar 793,2 milhões de toneladas, somando um aumento de 30,5% em relação a 2011/2012.

O 11º Congresso da Abag reuniu em torno de 600 participantes no Hotel Sheraton, em São Paulo. Cerca de 10 mil pessoas também acompanharam a programação pela internet. Entre as conclusões dos debatedores presentes no evento, está o fato de que algumas reivindicações do setor não se alteram ano após ano, o que mostra a necessidade de uma estratégia mais firme e coordenada entre o setor privado e as lideranças políticas.