Gestão

 

INSUMO de primeira necessidade

Softwares de gestão podem ser ferramentas de trabalho para o produtor tão fundamentais no seu negócio como máquinas, fertilizantes e defensivos

Luís Henrique Vieira

O agricultor moderno precisa não só estar atento às condições climáticas, à regulagem dos implementos e maquinário, às cultivares mais adaptadas as suas necessidades e à legislação, mas também à contabilidade da sua propriedade. Neste ponto específico, a sua vida pode ser substancialmente facilitada pela adoção de software voltado para a administração rural. Ao contrário do que se possa pensar, existem diversas alternativas quanto ao software ideal e apropriado a ser escolhido. Um pensamento comum é de que o software será muito difícil de ser usado ou de que o produtor não terá condições de pagar pelo programa ou pelo treinamento. Existem múltiplas opções para os empresários rurais de todos os tamanhos, com diferentes cultivos e necessidades de informatização.

O caso de Mercedes Degrandi, do município de Santa Margarida do Sul/ RS, é bastante comum. A família dela administra uma propriedade com 850 hectares de soja, 80 de arroz, 13 de trigo e outros 100 hectares de cevada. Apesar de não serem agricultores pequenos, os Degrandi até pouco tempo não tinham a certeza do quanto ganhavam com cada um dos cultivos. Em janeiro do ano passado, o marido de Mercedes, Pedro Degrandi, foi a uma palestra da Cooplantio sobre a importância da informatização no gerenciamento das propriedades. Degrandi ficou impressionado e imediatamente decidiu adotar um software na sua propriedade.

O processo iniciou a partir da instalação do software e de um treinamento de seis meses de duração feito com Mercedes e seu filho, dividida entre visitas à propriedade e por Skype (software de comunicação por teleconferência). As visitas dos instrutores da empresa que forneceu o software ocorriam todos os sábados, o dia inteiro. Ela conta que teve muita dificuldade para aprender a utilizar o programa. Até hoje, segundo Mercedes, há algumas dúvidas. No entanto, não duvida das vantagens da adoção do programa. “Agora sabemos exatamente o custo por hectare de cada cultivo. Antes, era tudo ‘de olho’. Era tudo guardado na cabeça. Agora, não. Registramos o que gastamos com fertilizantes, adubos, inseticidas. Agora fica mais fácil tomar a decisão do que cultivar. Sabemos o que dá lucro”, resume Mercedes, embora não saiba ainda o que precisamente o programa gerou de eficiência em função da recente seca no Rio Grande do Sul.

O custo total do software junto com o treinamento foi de aproximadamente R$ 650. Geralmente, a empresa que fornece os serviços cobra por hectare, mas concedeu um desconto aos Degrandi. “Não dá pra dizer que é barato, mas valeu muito a pena”, opina. Em propriedades um pouco mais estruturadas a Fotos: Divulgação A GRANJA | 55 demanda por uso de software é ainda maior. Por isso, a recomendação é de adoção do produto por módulos. Assim fez o produtor Henricus Johannes Maria Aernoudts, que mora em Panambi/ RS e possui quatro propriedades, duas no Rio Grande do Sul e duas no Piauí, onde produz soja, milho, trigo e aveia branca.

Para Aernoudts, o software deve ser visto apenas como uma excelente ferramenta, especialmente na integração fiscal, e não como uma solução. “O software atende plenamente as expectativas que sobre ele pairaram quando da sua aquisição. Vale lembrar, contudo, que o software é uma ferramenta de trabalho, assim como o são as demais máquinas e equipamentos que compõem o todo da organização e que precisam ser usados de forma racional a garantir o êxito final”, afirmou o produtor. O custo-benefício, segundo o produtor, não é mensurável. “É difícil valorar economicamente o custo benefício apresentado pelo software. É, como aqui já dito, importante ferramenta de trabalho que por certo traz benefícios e reduz custos. A segurança, o controle e a agilidade de uso das informações e dados obtidos a partir do software são o diferencial”, resume.

Adaptação à tecnologia — Gustavo de Lima Lemos, diretor da empresa Safras & Cifras e mestre em agronegócios, destaca que o produtor, de acordo com suas necessidades, pode optar por softwares com diferentes recursos, lembrando as dificuldades com fluxo de caixa, departamento pessoal e controle fiscal. Porém, ele recomenda que se comece pelo mais básico possível, até como uma forma de adaptação à tecnologia. “Às vezes (os empresários rurais) não medem a necessidade de mão de obra. O que se diz é o que o produtor tem que medir o que ele precisa. Se acercar de uma boa orientação. Investir na medida certa. Cada caso é um caso. Não existe um modelo único. Um controle mais simples e depois ir aprofundando. Muitos começam com um controle extremamente complexo! Não controlavam nada e querem controlar a vírgula do parafuso x, y, z”, adverte o consultor.

Para Aernoudts, o software deve ser visto apenas como uma excelente ferramenta, especialmente na integração fiscal, e nunca como uma solução

Lemos diz também que não há um investimento inicial previsto para a informatização da propriedade. O valor sempre dependerá da quantidade de controle e dos itens que serão exigidos na utilização do software. O diretor da Safras & Cifras revela que a facilidade na implantação do software na administração rural é maior nas propriedades que já começaram a transferir parte da administração para a geração seguinte. Ou seja, as fazendas que já têm jovens participando nos controles operacionais aderem muito mais facilmente às tecnologias. “Imagina um produtor na volta dos 65 anos... (O sucesso da implantação) Está relacionado a essa mescla (de gerações) e à preparação do sucessor”, resume.

De acordo com o consultor, na maior parte das empresas rurais há consciência da importância da adoção de tecnologias. “Tem que agir em cima dos números para aumentar a rentabilidade. É preciso tentar evitar o retrabalho, melhorar a contabilidade gerencial e fiscal. O produtor rural tem que se acostumar a não pensar nos impostos só em abril. Passou a época da sorte, do acaso”, conclui.