Soja

 

A oleaginosa em VÁRZEAS de arroz

Devido a circunstâncias econômicas, a soja tem ocupado áreas do arroz no Rio Grande do Sul. O seu cultivo nestes terrenos é bem viável, sobretudo pelo conjunto de tecnologias que já existem nas áreas tradicionais de soja e nas adaptadas. E estudos apontaram que o arroz após a soja produz em média 15% a mais

Pesquisadores da Embrapa Clima Temperado Lília Sichmann Heiffig-del Aguila, [email protected], Francisco de Jesus Vernetti Junior, [email protected], e Giovani Theisen, [email protected]

Ano a ano a cultura da soja vem aumentando em área no Brasil, principalmente em função de que os preços internos, pelo sexto ano consecutivo, atingem níveis recordes, tendo alcançado valores superiores a R$ 80 a saca de 60 quilos no J. M. B. Perfitt final de julho. Especialmente no estado do Rio Grande do Sul este acréscimo vem ocorrendo, entre outros, em solos tradicionalmente cultivados com arroz irrigado. A ampliação da área é fruto não somente do alto preço alcançado pela commodity, mas também de outros fatores a serem enumerados na sequência. O uso sucessivo do arroz em uma mesma área leva à autolimitação da cultura, impedindo a continuidade do seu cultivo, principalmente devido ao aumento da infestação por plantas daninhas, em especial o arroz-vermelho. Também a intensificação do uso de veículos e implementos agrícolas pesados, utilizados para o preparo convencional dos solos hidromórficos, agrava ainda mais os problemas de estrutura já existentes nesses tipos de solos.

A colheita do arroz irrigado nas áreas de terras baixas muito planas ocorre, em geral, com o solo em condições de umidade de saturação, ou mesmo em condições de inundação. Nesta situação, o tráfego intenso de máquinas e equipamentos pela lavoura provoca rastros profundos, além de causar compactação ao solo. Nestas áreas é prática comum efetuar-se aração, gradagem e nivelamento do solo, tanto no outono, após a colheita do arroz, quanto no verão, em áreas de pousio. Essas operações, via de regra, requerem elevada força de tração dos tratores, o que se traduz em desagregação, compactação e erosão dos solos, além de consumo elevado de combustível, desgaste do maquinário, o que onera a atividade agrícola (Theisen; Silva, 2009).

Esses fatores somados acarretam no abandono das áreas após o segundo ou terceiro ano de cultivo. O impacto é tal que dois terços da área apta ao cultivo do arroz ficam desocupadas por ano, o que culmina numa ociosidade média anual destas áreas de 60% do disponível.

Assim que, no atual contexto, a crescente demanda mundial por alimentos e por energia, os preços atrativos e a vantagem logística de boa parte da Metade Sul do RS quanto à distância ao porto de Rio Grande (transporte de fertilizantes, escoamento da produção, etc.) têm incrementado o uso dessas áreas com culturas de sequeiro como a soja. Isso é bastante positivo em vista das melhorias advindas da adoção do sistema de rotação de culturas com leguminosas (aporte de nitrogênio melhorando a fertilidade natural) e possibilidade de variação de princípios ativos de herbicidas (diminuição do banco de sementes de invasoras, com consequente redução de plantas daninhas, principalmente arroz-vermelho) e a minimização de operações onerosas de preparo de solo para o próximo cultivo.

Maior produtividade — A avaliação desde o ponto de vista de sistema de produção é altamente favorável, haja vista que estudos apontaram que o arroz cultivado após a soja tem uma produtividade média 15% superior. Os solos tradicionais de cultivo de arroz irrigado, em geral, apresentam problemas relacionados à inundação ou encharcamento periódicos do solo, que afetam negativamente o crescimento e a produtividade das culturas, principalmente as mais sensíveis. A soja é uma espécie relativamente tolerante e também capaz de aclimatar-se a essa condição.

Além dos aspectos de adaptação (seleção) da espécie para esta condição, o cultivo de soja nas áreas de arroz depende da adoção de um manejo de solo específico para minimizar os efeitos do excesso de umidade no solo. A forma de manejar/conduzir a soja em solos típicos de arroz é conhecida de longa data, haja vista resultados obtidos pelo Instituto de Pesquisa e Experimentação Agropecuária do Sul (Ipeas), atualmente Embrapa Clima Temperado, no início dos anos de 1970. Nessa data, teve início um experimento, marco inicial dos trabalhos de soja em solos de arroz, chamado de “Competição de Cultivares de Soja em Terras de Arroz”, conduzido em Pelotas (Ipeas), Camaquã (Granja Limoeiro, depois na Granja Capororoca), São Lourenço do Sul (Granja Santa Rita) e em Santa Vitória do Palmar (BR 471, km 197; depois na granja de José Patela), cujas produtividades de grãos em três anos agrícolas variaram entre 2.400 kg/ha e 3.100 kg/ha (Vernetti Jr.; Vernetti, 2012). Segundo os mesmos autores, nos dois anos seguintes as médias foram superiores a 3 mil kg/ha.

O produtor deve entender que o cultivo da soja em áreas de arroz irrigado é uma realidade possível, sobretudo visto às tecnologias já existentes

Em experimentos de avaliação de cultivares para tolerância ao excesso hídrico conduzidos pela Embrapa tem se observado com certa frequência como mais tolerante ao excesso hídrico a cultivar BRS 246 RR, juntamente com as cultivares BRS Pala, BRS 244 RR, BRS Cambona e FT Abyara (Vernetti Jr. et al., 2012). Também as cultivares Fundacep 53 RR, CD 226 RR, BRS Taura RR, BRS 246 RR e Fundacep 59 RR se mostraram aptas ao cultivo em áreas de arroz irrigado, enquanto que a cultivar BRS Charrua RR se mostrou inapta às condições de excesso hídrico (Vernetti Jr., 2010). Igualmente as cultivares BMX Apolo (Don Mario 5.8i), BMX Ativa, BMX Potência, Fundacep 61, Fundacep 64, Fundacep 66, Fundacep 57, CD 238, CD 236, CD 219, BRS Estância, BRS 243, Fepagro 36, Roos Avance, TMG 1067 e SYN 1059 foram consideradas como as mais tolerantes ao excesso hídrico das áreas de cultivo de arroz irrigado, de acordo com relato do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) na XXXIX Reunião de Pesquisa de Soja da Região Sul, em Passo Fundo, de 24 a 26, em julho último.

Manejo da área — Após a escolha da(s) cultivar(es), alguns aspectos são muito importantes e merecem atenção especial por parte do produtor. Destacam-se a drenagem da área, o aumento do risco de doenças na fase inicial da cultura e a maior pressão de plantas daninhas. As operações para drenagem e escoamento de água das chuvas são bem conhecidas e envolvem o uso de valetadeiras, plainas e outras máquinas que fazem limpeza de canais e drenos externos e internos da lavoura. A orientação é de que, imediatamente após a semeadura, o produtor faça os drenos e as valetas internas da área, para retirar algum excesso de água que venha a ocorrer. É prudente fazer as valetas e os drenos com planejamento para que passem com exatidão pelo centro das depressões da lavoura, além de, preferencialmente, serem em maior número e terem profundidade maior na medida em que os solos apresentem topografia mais plana.

Um cuidado importante a se considerar é que os solos de terras baixas são caracterizados pela elevada pressão de plantas daninhas, especialmente de gramíneas

O encharcamento do solo, muito comum nas áreas de arroz irrigado, além de diminuir a viabilidade das sementes de soja, pode ocasionar o aparecimento de doenças com maior intensidade, principalmente na fase inicial da cultura. A indicação, nesse sentido, é que se adotem medidas preventivas para manter a população da soja, como a utilização de sementes tratadas com fungicidas específicos para esta finalidade, e semear ao menos 17 sementes por metro linear, no espaçamento de 45/50 centímetros entre as linhas. A inoculação com rizóbio, que deve ser adicionado às sementes após o tratamento com fungicidas, é importante, de baixo custo e necessária para se obter boa produtividade em áreas de terras baixas, principalmente quando a cultura for implantada sob plantio convencional ou cultivo mínimo.

Por fim, os solos de terras baixas são caracterizados pela elevada pressão de plantas daninhas, especialmente de gramíneas. O cultivo de soja RR facilita o controle destas invasoras, contudo, deve-se evitar o erro frequente de semear a soja e ver a mesma emergir junto das infestantes. As perdas associadas à competição não são percebidas visualmente, mas comprometem a lucratividade da lavoura. Orienta-se aos produtores que a emergência da soja ocorra sem a presença de plantas daninhas na lavoura, com a dessecação logo antes ou imediatamente depois da semeadura, ou, ainda, com gradagens nos casos de plantio convencional.

Diversas práticas culturais devem ser feitas com exatidão para que a soja apresente produtividade e lucratividade satisfatórias quando implantada em rotação com o arroz irrigado. Além das já citadas, a análise de solo – para adição do tipo e quantidade certa de fertilizante – e a aplicação de fungicidas e inseticidas somente após a população das pragas atingir o nível de dano econômico são importantes para que o potencial produtivo da lavoura seja alcançado e mantido até a colheita e que não se efetuem gastos desnecessários.

Diversas práticas culturais devem ser implementadas para que a soja apresente produtividade e lucratividade satisfatórias em rotação com o arroz

Nas terras baixas da região de Pelotas, as melhores produções de soja são obtidas com semeaduras durante o mês de novembro, existindo diversas cultivares indicadas. Lembra-se, contudo, que as cultivares muito precoces geralmente são as menos tolerantes ao encharcamento e que as cultivares tardias poderão finalizar o ciclo em fins de maio ou mesmo em junho, época caracterizada pela abundância de chuvas.

No Rio Grande do Sul, praticamente a totalidade da área cultivada com arroz utiliza o sistema irrigado por inundação contínua. As áreas tradicionalmente utilizadas com essa cultura apresentam relevo diversificado, variando desde zonas muito planas (declividade menor de 0,2%) a zonas suavemente onduladas (declividades maiores que 2%). O sistema de irrigação por inundação contínua nessas áreas mais onduladas, em razão da grande quantidade de taipas necessárias ao controle adequado da água, provoca dificuldades adicionais importantes nos tratos culturais da lavoura, particularmente na semeadura, colheita e irrigação propriamente dita. Isso tem levado alguns produtores da região da Fronteira Oeste a procurarem métodos alternativos de irrigação para o arroz, dentro dos quais se destaca o de aspersão no sistema de pivô central.

Neste sentido, a Embrapa tem desenvolvido trabalhos para a avaliação de cultivares de soja num sistema de produção em rotação com arroz, com irrigação por aspersão sob pivô central, onde tem concluído que as cultivares de soja BMX Turbo RR, seguida em ordem decrescente, das cultivares BMX Apolo RR e Syngenta 08 CA 907562, com produtividade de grãos acima de 3.100 kg/ha, respondem adequadamente a este sistema, o que possibilita a adoção plena da rotação de culturas e, também, do sistema de plantio direto para o sistema produtivo proposto. Finalizando, verifica- se que o cultivo da soja em áreas de arroz irrigado é uma realidade possível, principalmente levando-se em consideração o conjunto de tecnologias vigentes nas áreas tradicionais de soja e aquelas adaptadas às áreas de arroz irrigado.

O encharcamento do solo, muito comum nas áreas de arroz irrigado, além de diminuir a viabilidade das sementes de soja, pode ocasionar o aparecimento de doenças com maior intensidade