Feijão

 

MODIFICADO só chega em 2015

O feijão transgênico da Embrapa resistente à doença mosaico, aprovado um ano atrás pela CTNBio, ainda cumpre trâmites para ter suas sementes produzidas

Um ano depois da aprovação pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CNTBio), o fei- Fotos: Cláudio Bezerra jão geneticamente modificado da Embrapa segue sendo submetido a testes e ensaios de VCU (valor de cultivo e uso), de acordo com as normas do Ministério da Agricultura para registro de cultivares. Esses testes começaram a ser feitos neste ano e continuarão em 2013. O procedimento seguinte será o pedido de registro no Ministério da Agricultura e, por fim, a multiplicação das sementes básicas. Esse é o processo normal pelo qual passam todas as novas cultivares. A previsão é que as sementes cheguem ao mercado na safra 2015. O feijão, aprovado na CTNBio em 15 de setembro de 2011, é resistente ao vírus do mosaico dourado, pior inimigo dessa cultura agrícola no Brasil e na América do Sul. A aprovação foi considerada à época um marco para a ciência nacional, pois trata-se da primeira planta transgênica totalmente produzida por uma instituição pública de pesquisa brasileira.

As variedades GM são resultado de mais de dez anos de pesquisa e foram desenvolvidas em parceria por duas unidades da Embrapa: Recursos Genéticos e Biotecnologia, sediada em Brasília, e Arroz e Feijão, de Goiânia. Batizadas de Embrapa 5.1, as novas variedades garantem vantagens econômicas e ambientais, com diminuição das perdas, garantia das colheitas e redução da aplicação de produtos químicos no ambiente. No Brasil, o mosaico dourado está presente em todas as regiões produtoras de feijão e, se atingir a plantação ainda na fase inicial, pode causar perdas de até 100% na produção. Segundo estimativas da Embrapa Arroz e Feijão, os danos causados pela doença seriam suficientes para alimentar de 5 milhões a 10 milhões de pessoas.

Transformação genética e impactos — Para chegar às variedades geneticamente modificadas, os pesquisadores Francisco Aragão, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, e Josias Faria, da Embrapa Arroz e Feijão, modificaram geneticamente a planta para que ela produzisse pequenos fragmentos de RNA responsáveis pela ativação de seu mecanismo de defesa contra o vírus mosaico dourado, devastador à lavoura. Os testes de eficiência das variedades transgênicas e as análises de biossegurança para comprovar a sua inocuidade ao ambiente e à saúde humana foram feitas em parceria com a Embrapa Agroindústria de Alimentos, a Embrapa Agrobiologia e a Unesp.

Esse projeto é um exemplo significativo de impacto social e alimentar do uso da engenharia genética. No Brasil, o feijão é uma cultura de extrema importância social, já que é produzido basicamente por pequenos agricultores, com cerca de 80% da produção e da área cultivada em propriedades com menos de 100 hectares. Além disso, é a principal fonte vegetal de proteínas (o teor das sementes varia de 20% a 33%), além de ser também fonte de ferro (6-10 mg/ 100 g). Associado ao arroz, dá origem a uma mistura tipicamente brasileira e ainda mais nutritiva e rica em vitaminas.

Na verdade, a importância do feijão na alimentação transcende as fronteiras brasileiras, sendo a leguminosa mais importante na alimentação de mais de 500 milhões de pessoas na América Latina e na África.

A produção mundial de feijão é superior a 12 milhões de toneladas. O Brasil ocupa o segundo lugar na produção, mas sua produção ainda não é suficiente para suprir a demanda interna, o que se deve, em grande parte, às perdas causadas por pragas e doenças, como o mosaico, associadas a estresses hídricos. “Com as variedades GM, resistentes ao vírus, esperamos poder diminuir consideravelmente os danos e contribuir para estabilizar o preço do produto no mercado”, comenta Aragão. O principal benefício ambiental das variedades GM é a redução na aplicação de inseticidas no ambiente. Além disso, melhoram a produtividade e, consequentemente, reduzem o avanço da agropecuária sobre áreas de florestas.


A MAIS DANOSA DOENÇA DO FEIJOEIRO. PERDAS DE ATÉ 100%

O mosaico dourado do feijoeiro é uma doença que causa amarelecimento das folhas, nanismo, deformação das vagens e grãos e abortamento das flores. As perdas de produção de grãos podem variar de 40% a até 100%, dependendo da incidência, da época de plantio e da cultivar utilizada. Essa doença, causada por um geminivírus transmitido pela mosca-branca, foi identificada nos anos 60 no estado de São Paulo e disseminou-se por quase todas as regiões produtoras de feijão do país, principalmente aquelas de clima tropical.

O principal método de controle da mosca-branca é a aplicação de agrotóxicos. Mais de 20 princípios ativos estão registrados para o seu controle na cultura do feijão, entretanto, poucos deles tem-se mostrado eficientes. A busca por cultivares resistentes ao mosaico dourado foi iniciada na década de 70, tendo sido encontrados apenas baixos níveis de tolerância à doença. Não existe cultivar com nível adequado de resistência ao mosaico dourado em utilização no Brasil, e também não foi observada imunidade à doença no gênero Phaseolus.