Gesso

 

Efeitos na PRODUTIVIDADE da soja

Uma pesquisa no Cerrado sul-mato-grossense concluiu que a aplicação de gesso agrícola não influenciou no desenvolvimento e na produtividade de grãos de soja

Engenheiro agrônomo M.Sc. Marcelo Valentini Arf, pesquisador em fertilidade do solo e nutrição de plantas da Fundação Chapadão, e Marina Silveira Batista, estagiária

Na região do Cerrado a prática da gessagem encontra muitas restrições por parte de técnicos e produtores pelo fato do carreamento de bases no perfil do solo. Visando esclarecer este fato, foi implantado um ensaio com o objetivo de verificar o efeito de doses de gesso no desenvolvimento e na produtividade da cultura da soja em sistema plantio direto em dois anos agrícolas. Foram utilizadas cinco doses de gesso (0; 1,4; 2,8; 5,6 e 11,2 toneladas/hectare) aplicadas três dias antes da implantação da cultura.

Pelos resultados obtidos verifica-se que na safra 2011/12 a massa de 100 grãos foi influenciada negativamente com o aumento das doses de gesso; a aplicação de gesso agrícola não influenciou no desenvolvimento e na produtividade de grãos da cultura da soja nos dois anos agrícolas. Nos solos de Cerrado, a deficiência de cálcio, associada ou não à toxidez de alumínio, não ocorre apenas na camada arável, mas também abaixo dela. Para superar esse problema na camada arável é utilizado, com sucesso, o calcário. No entanto, a calagem não corrige a acidez e a deficiência de cálcio da subsuperfície em tempo razoável para evitar que o agricultor corra risco de perda de produtividade devido aos veranicos, pois as raízes das plantas só crescem onde o calcário foi incorporado e, consequentemente, onde tem acesso a um volume pequeno de água (Sousa et al., 2005).

O manejo de áreas em plantio direto por vários anos promove acúmulo de matéria orgânica no solo, principalmente em superfície, refletindo em melhoria na agregação do solo, aumento da atividade biológica, maior disponibilidade de nutrientes para as culturas, complexação de elementos tóxicos, além de promover aumento da capacidade de troca de cátions (CTC) (Bayer e Mielniczuk, 2008). No entanto, devido ao longo período de tempo sem revolvimento, essas áreas podem apresentar impedimentos físicos e químicos para o aprofundamento do sistema radicular das culturas. Dessa forma, o revolvimento do solo e a aplicação de gesso agrícola são alternativas para melhoria em profundidade do solo e, consequentemente, do ambiente para o crescimento das raízes de plantas.

Apesar de alterar pouco o pH do solo, o gesso agrícola pode diminuir a toxidez do alumínio trocável para as plantas, reduzindo a atividade desse elemento na solução do solo (Alva et al., 1986), além de fornecer cálcio e enxofre para as plantas em profundidade. Ainda, o íon sulfato do gesso promove o carreamento de outras bases, como magnésio e potássio das camadas superficiais do solo, para maiores profundidades (Silva et al., 1997; Caíres et al., 2003), já que esse ânion desloca-se com facilidade para as camadas mais profundas do solo (Dias et al., 1994), podendo expor as plantas a eventuais deficiências, caso não se utilize o gesso com base em critérios técnicos. Assim, o trabalho teve como objetivo avaliar o efeito de doses de gesso no desenvolvimento e na produtividade da cultura da soja em dois anos agrícolas.

A semeadura da soja foi efetuada nos dias 3 de novembro de 2010 e 28 de outubro de 2011, na área experimental da Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Chapadão, em Chapadão do Sul/ MS, em Latossolo vermelho distrófico com as seguintes características: 0-20 cm; pH (Cacl2) – 4,8; matéria orgânica – 3,9%; P (resina) e S – 24,5 e 10,1 mg dm-3; Ca, Mg; K e H+Al – 29, 7, 3,7 e 63 mmolc dm-3 respectivamente; argila, areia e silte – 52%, 5% e 43%, respectivamente. Em ambos os anos, os tratos culturais como controle de plantas daninhas e pragas foram realizados segundo as recomendações da Fundação Chapadão sempre que o nível de ataque assim exigia. A cultivar utilizada em ambos os anos foi a Anta 82 RR.

Na safra 2010/11, a adubação básica no sulco de semeadura constou-se de 209 kg/ha da fórmula (05-37-00) e, na safra 2011/12, foram utilizado 130 kg/ha do superfosfato triplo (46% P2O5). Em ambos os anos agrícolas, a adubação potássica foi realizada a lanço em pré-semeadura com 100 kg/ha de cloreto de potássio, calculado de acordo com as características químicas do solo. O delineamento experimental utilizado foi o de blocos casualizados, com cinco repetições. As parcelas foram compostas por sete linhas de 11 metros de comprimento, espaçadas 0,45 metro entre si, tendo como área útil 34,65 metros quadrados. Foram utilizados cinco doses de gesso (0; 1,4; 2,8; 5,6 e 11,2 t/ha) aplicado três dias antes da implantação da cultura.

Na Tabela 1 estão apresentados os resultados das avaliações de população final de plantas, altura de plantas e altura de inserção da primeira vagem de soja em função da aplicação de doses de gesso em dois anos agrícolas. Para a avaliação da população final de plantas, não foram verificadas diferenças estatísticas entre as doses de gesso utilizadas em ambas as safras. O mesmo pode ser observado para as avaliações de altura de plantas e altura de inserção da primeira vagem.

Resultados — Na Tabela 2 estão apresentados os resultados das avaliações de massa de 100 grãos e produtividade de grãos de soja em função da aplicação de doses de gesso em dois anos agrícolas. Referente à avaliação da massa de 100 grãos na safra 2010/11, não foram verificadas diferenças estatísticas entre as doses de gesso utilizadas. Já na safra 2011/12 observa-se que houve resposta linear decrescente as doses de gesso utilizadas (y = -0,000095 x + 15,8775 R2 = 0,31**), ou seja, a medida com que foi aumentando as doses de gesso, a massa de 100 grãos foi diminuindo.

Para a avaliação de produtividade de grãos, não foram verificadas diferenças estatísticas significativas entre as doses de gesso, variando de 0 a 11,2 t/ha para a referida avaliação. É possível inferir com este resultado que mesmo com os possíveis carreamentos de bases trocáveis para camadas mais profundas, é possível corrigir o solo com gesso agrícola, produzindo soja sem decréscimo em produtividade, levando em consideração os teores de 0-20 cm de profundidade, principalmente o magnésio (7 mmolc dm-3) e o potássio (3,7 mmolc dm-3) associado com adubação potássica.

Em razão do uso do gesso para a correção do solo em subsuperfície, há tendência de um melhor desenvolvimento do sistema radicular, assim como a cultura fica mais resistente a alguma deficiência hídrica

Vale ressaltar que durante a condução do ensaio não foram verificadas diferenças visuais em relação a deficiências nutricionais. Caires et al. (2003), trabalhando com doses de gesso (0, 3, 6 e 9 t/ha) na região de Ponta Grossa/PR por três anos consecutivos, observaram que a gessagem não contribuiu com a produtividade da soja. Os autores atribuem a falta de resposta, dentre outros fatores, ao baixo de teor de alumínio de 0-20 cm (3 mmolc dm-3).

Conclusões — Na safra 2011/12, a massa de 100 grãos foi influenciada negativamente com o aumento das doses de gesso. E a aplicação de gesso agrícola não influenciou no desenvolvimento e na produtividade de grãos da cultura da soja nos dois anos agrícolas.