Reportagem de Capa

 

A construção da FERTILIDADE do solo

Uma propriedade não tem como se manter sustentável se o produtor não atentar para um cuidadoso plano de correção da acidez, adubação completa e monitoramento nutricional constante de sua lavoura. Nesse cenário, práticas e recomendações que promovam o uso mais eficiente de nutrientes são estratégicas para garantir a manutenção de altas produtividades e a rentabilidade da cultura ao longo do tempo

Gilson R. da Rosa

Os solos agrícolas brasileiros são, em geral, ácidos e de baixa fertilidade. Existem algumas exceções de áreas altamente férteis, porém não possuem o peso na agricultura nacional que corresponda, por exemplo, ao Pampa Argentino ou aos solos altamente férteis e de larga extensão encontrados na Ucrânia. Mas, através dos conhecimentos gerados pela pesquisa e pela utilização adequada de corretivos e fertilizantes, regiões aparentemente improdutivas podem tornar-se destacadas produtoras de alimentos. Os bons exemplos estão por toda a parte e vêm sendo dados por produtores como Alexandre Palombo, no Mato Grosso do Sul, e Alexander Mittelstedt, no Paraná, que pelo trabalho conjunto com instituições de pesquisa conseguiram superar estas dificuldades e obter aumentos significativos de produtividade e produção, principalmente com a soja e o milho.

O cultivo da oleaginosa na fazenda de Palombo, em Projeto Camas, localidade que fica entre Chapadão e Camapuã, ocupa 1.200 hectares e, há três anos, vem sendo conduzida dentro do sistema de agricultura de precisão (AP), com o acompanhamento técnico da Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Chapadão (Fundação Chapadão). “O solo aqui é muito pobre e arenoso, com algo em torno de 15% de argila, o que exige correção com cálcio e gesso, além da fertilização com fósforo (P) e potássio (K). Mas a resposta que estamos tendo com a soja é muito boa. Colhemos na média de 45 a 50 sacas de soja por hectare, o que consideramos uma boa produtividade, levando em conta o clima da região, onde não chove muito”, relata o produtor.

Para manter este bom desempenho, Palombo dedica atenção especial, como manejo da fertilidade do solo. “Coletamos amostras e fazemos análise de solo todos os anos. A partir daí, identificamos as áreas que precisam de correção, definimos o tipo de fertilizante a ser usado e a dose correta a ser aplicada, de acordo com as recomendações que nos são repassadas pela área técnica da Fundação Chapadão”, ressalta ele.

Importância da AP — O engenheiro agrônomo da Fundação Chapadão, Marcelo Arf, que presta consultoria técnica a Palombo e a outros produtores da região, destaca o papel fundamental da agricultura de precisão em todas as etapas da fertilização. “A AP constitui-se uma importante ferramenta a serviço do produtor, pois possibilita o gerenciamento da adubação com base na amostragem sistematizada de solo e a geração de mapas de fertilidade, levando em consideração a produtividade da cultura ou do ciclo anterior para se fazer a reposição dos nutrientes extraídos”, explica.

Arf observa que as aéreas cultivadas na região, por apresentarem uma textura mais arenosa, exigem alguns cuidados. Entre eles, manter a palhada, já que o solo não consegue segurar a umidade, além de aumentar o sistema radicular das plantas para que ela possa aguentar os veranicos via aplicação de gesso ou intervenção mecânica em caso de solos compactados. “Em relação ao fósforo, procuramos não levantar muito o teor, mas nunca deixamos de aplicar para não afetar a produtividade. Trabalhamos com a ideia de poupança, que funciona quando os preços dos insumos estão altos ou quando os preços do grão estão baixos”, argumenta.

Outro cuidado necessário, de acordo com o pesquisador, é em relação à adubação com potássio, que o solo não consegue segurar em casos de chuvas. “Neste caso, recomendamos dividir a aplicação com o cloreto de potássio em duas vezes, metade em pré-semeadura, o mais próximo do plantio, e o restante em cobertura, entre 20 a 25 dias após a emergência”, aconselha. Na avaliação de Arf, embora os solos do Cerrado apresentem fertilidade mais baixa em relação a outros tipos de solo e as chuvas sejam escassas, o uso eficiente de fertilizantes, somado a outras práticas de manejo, está trazendo bons resultados aos produtores. “Com todas essas variáveis ajustadas é possível colher acima de 60 sacas por hectare, principalmente se o clima for favorável”, afirma.

O manejo da fertilidade do solo através da AP também é sinônimo de excelentes resultados para o produtor Alexander Mittelstedt na Fazenda Rosário, região de Ponta Grossa/PR, onde são cultivados 870 hectares com milho, soja, feijão, trigo e cobertura vegetal, dentro do sistema de rotação de culturas, com a assistência da Fundação ABC Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário. A Fazenda Rosário está localizada em uma área onde a arenosidade do solo chega a 50%, o que torna o custo com a adubação relativamente alto se comparado a outras regiões. Mittelstedt foi então buscar assistência na Fundação ABC para implantar o sistema de AP na propriedade. “Isso nos permitiu fazer um acompanhamento mais detalhado da fertilidade do solo e, através de análises periódicas, encontrar um ponto de equilíbrio dos nutrientes no solo para fazer o uso racional dos fertilizantes”, avalia.

O milho, de acordo com Mittelstedt, é a cultura mais exigente em termos de adubação e custo de implantação. “Procuramos maximizar o aproveitamento dos insumos com tecnologia de aplicação, dividindo as doses, porque a insuficiência ou o desequilíbrio entre os nutrientes pode resultar numa absorção deficiente de alguns e excessiva de outros. O fósforo, por exemplo, é interessante porque fica preso no solo. Temos uma linha de estudo, conduzida em parceria com a Fundação ABC, para fazer com que o fósforo fique mais disponível para a planta. Também é preciso manter a área com cobertura vegetal para ter o potássio sempre dentro do sistema”, complementa.

Palombo, produtor no Mato Grosso do Sul: o solo muito pobre e arenoso, com 15% de argila, exige correção com cálcio e gesso, além da fertilização com fósforo e potássio

Com todos esses cuidados aliados à estratégia de correção com calcário e gesso e adubação do solo, conforme as análises que são realizadas anualmente, o produtor garante que a produtividade do milho pode chegar a 11 toneladas por hectare e a da soja, a 4 toneladas por hectare. “É difícil mensurar os ganhos obtidos com o uso racional da adubação porque isso é decorrente de uma sequência de novas tecnologias que são introduzidas na lavoura a cada ano. O investimento acaba sendo alto, mas a produtividade compensa”, pondera Mittelstedt.

Nova abordagem — A experiência relatada por estes dois produtores mostra que a correção e a adubação devem seguir estritamente as recomendações do agrônomo da assistência técnica, baseadas na análise de solo, e calibradas para a produtividade esperada de cada cultura, em cada local. Existe uma ordem cronológica para a adubação: 1 - Amostragem do solo; 2 - Análise química do solo; 3 - Interpretação da análise; 4 - Recomendação de calagem, gessagem e adubação; 5 - Aplicação de calcário e gesso; 6 - Adubação propriamente dita. Nenhuma destas etapas deve ser negligenciada.

Do ponto de vista do processo produtivo, o nitrogênio, o fósforo e o potássio são os mais importantes. O fertilizante composto ou mistura NPK consiste da reunião destes três principais nutrientes e sua combinação pode ser realizada nas mais diversas proporções, de acordo com a cultura explorada. Os demais macro e micronutrientes, apesar da importância biológica, não têm expressão econômica na indústria de fertilizantes, nem valorização comercial significativa, por serem utilizados em quantidades muito pequenas.

A obtenção de altas produtividades, na análise do pesquisador da Embrapa e membro do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS), Décio Gazzoni, requer muita atenção com a correção e a adubação de solo, para que esta não se constitua em um limitante. “A análise de solo sempre é a primeira operação a ser feita. A amostragem do solo, para fins de indicação de fertilizantes, poderá ser realizada logo após a colheita da cultura anterior àquela que será instalada. Caso haja necessidade de calagem, a retirada da amostra tem que ser feita de modo a possibilitar que o calcário esteja incorporado, pelo menos, três meses antes da semeadura da cultura de verão”, recomenda.

O pesquisador explica que as amostras devem ser coletadas em áreas homogêneas quanto às características de solo, relevo e histórico de utilização. Além da análise do solo para indicação de adubação, existe a possibilidade da diagnose foliar, que, segundo Gazzoni, apresenta-se como uma ferramenta complementar para a interpretação do estado nutricional e da fertilidade do solo, para fins de indicação de adubação, principalmente para a safra seguinte. A avaliação da necessidade de calagem também é realizada a partir da interpretação dos resultados da análise do solo. “O efeito residual da calagem é de três a cinco anos, dependendo do poder tampão do solo, do sistema de produção adotado e da quantidade de calcário aplicada. Preferencialmente, antes de iniciar o sistema de semeadura direta em áreas sob cultivo convencional, indica-se corrigir integralmente a acidez do solo, sendo esta etapa fundamental para a adequação do solo a esse sistema”, sugere Gazzoni. Ele também chama a atenção para o fato de os solos do Brasil apresentarem problemas de acidez subsuperficial, uma vez que a incorporação profunda do calcário nem sempre é possível. “Assim, camadas mais profundas do solo (abaixo de 20 centímetros) podem apresentar excesso de alumínio tóxico, mesmo quando tenha sido efetuada uma calagem considerada adequada. Esse problema pode limitar a produtividade, principalmente nas regiões onde é mais frequente a ocorrência de veranicos. A aplicação de gesso, embora não neutralize a acidez do solo, diminui a saturação por alumínio nas camadas mais profundas. Desse modo, criam-se condições para o sistema radicular das plantas se aprofundar no solo e, consequentemente, minimizar o efeito de veranicos”, observa.

Na visão de Gazzoni, a evolução recente da tecnologia agrícola, em especial os ganhos de produtividade, impõe a necessidade de uma nova abordagem a respeito da adubação. “Antigamente, o raciocínio dominante era o suprimento de alguns macronutrientes, em especial nitrogênio, fósforo e potássio, e correção do solo para o pH próximo a 6. Hoje, além dos macronutrientes tradicionais, ganham importância teores de outros como enxofre (S), magnésio (Mg) e cálcio (Ca). Além deles, foi demonstrada a importância capital dos micronutrientes para a expressão do potencial produtivo das culturas, em especial de boro (B), cobre (Cu), manganês (Mn), zinco (Zn), ferro (Fe) e cobalto (Co)”, enumera.

Fertilidade construída — As recomendações de adubação também devem levar em conta o que a pesquisa hoje denomina de “solos de fertilidade construída”. O pesquisador da Embrapa Solos Vinícius Benites explica que a fertilidade construída é aquela que o homem produziu com anos de adubação. “Isso ocorre porque as quantidades de fósforo aplicadas ao solo são superiores à extraída na cultura, o que pode ser considerada uma adubação corretiva gradual de fósforo. Foi este acúmulo de P que colocou muitos solos agrícolas, como o Cerrado, por exemplo, no atual patamar de fertilidade”, informa.

Segundo o pesquisador, quando os níveis de fertilidade estão altos, principalmente em relação a fósforo, não há resposta à adubação fosfatada. “Sugerimos ao produtor trabalhar com a ideia de formar uma poupança porque os preços de fósforo tendem a aumentar mundialmente e o Brasil importa a metade do que consome. Frente a esse cenário, a recomendação é manter a adubação com P, só que em doses menores, apenas para a manutenção das quantidades retiradas pelas colheitas, sem afetar a produtividade. O mesmo não se verifica com o potássio, que a planta, principalmente a soja, exporta em grandes quantidades, sendo necessária sua reposição a cada safra. Tudo isso, é claro, implica na reformulação das recomendações de adubação”, acrescenta.

A reposição do potássio é necessária a cada safra, principalmente no caso da soja, visto que a planta exporta o elemento em grandes quantidades

Benites é um dos coordenadores da Rede FertBrasil, projeto de pesquisa que desenvolve tecnologias para o aumento de eficiência de fertilizantes e estuda a introdução de novas fontes de nutrientes na agricultura brasileira. A rede é formada por cerca de 130 pesquisadores de diferentes áreas de conhecimento, pertencentes a mais de 20 unidades da Embrapa. “Uma das plataformas de trabalho da FertBrasil é justamente ajustar as recomendações de adubação para os solos com fertilidade já construída e, com isso, montar um quadro de informações para formar uma base de dados”, resume. Outra linha de pesquisa da FertBrasil, conforme Benites, é o desenvolvimento de um tipo de fertilizante adaptado à agricultura tropical e com um custo menor, já que a maioria dos produtos é importada de países do Hemisfério Norte. “A nossa agricultura tem especificidades que não casam com o temperado”, argumenta.

Milho: fórmula desbalanceada — Nos últimos anos, o consumo de fertilizantes nitrogenados, fosfáticos, potássicos e micronutrientes tem aumentado consideravelmente na cultura do milho, constituindo- se na segunda principal cultura consumidora no Brasil, sendo superada apenas pela soja. De um consumo de apenas 108 quilos por hectare de nitrogênio, fósforo e potássio, no início da década de 1990, atingiu, na safra de 2010/11, cerca de 350 quilos por hectare. De acordo com o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo Antônio Marcos Coelho, este volume correspondeu à aplicação de três doses em equivalente de fertilizantes de 42, 112 e 67 quilos por hectare de nitrogênio, pentóxido de fósforo (P2O5) e óxido de potássio (K2O) respectivamente. “O aumento no consumo de fertilizantes teve uma alta correlação com os ganhos médios de produtividade de grãos, os quais passaram dos 23 quilos por hectare (de consumo) ao ano, verificados na década de 1980 e no início dos anos 1990, para 90 a 100 quilos por hectare ao ano na década atual”, compara.

Mas, embora tenham ocorridos aumentos significativos no uso de fertilizantes na cultura do milho, o que se verifica atualmente, na visão do pesquisador, é que pode estar havendo um desbalanceamento nas fórmulas utilizadas na adubação. “O consumo médio atual estimado de 112 quilos de P2O5 por hectare pode ser considerado alto, visto que, em muitas áreas, os solos foram por muitos anos adubados com formulações de fertilizantes concentrados em fósforo e apresentam- se com altos teores deste nutriente. Por outro lado, o consumo médio de nitrogênio e potássio é baixo”, observa.

Para Coelho, quantidade de nitrogênio naturalmente disponível no solo é insuficiente para suprir a demanda do milho, o que exige a complementação com fertilizante nitrogenado

Para Coelho, este desequilíbrio é acentuado porque, na maioria das vezes, a quantidade de nitrogênio naturalmente disponível no solo é insuficiente para suprir a demanda. “Desta maneira, a complementação com fertilizante nitrogenado no milho é fundamental para obtenção de maiores produtividades. Mas, com base nesse desequilíbrio, pode-se dizer que o nitrogênio é atualmente o nutriente que mais limita o aumento da produtividade de milho no Brasil”, estima. Em relação ao potássio, Coelho diz que é preciso levar em conta o sistema de cultivo utilizado pelos agricultores, como a rotação e a sucessão com a soja, uma planta altamente exigente e exportadora de K. “Assim, em áreas cultivadas sucessivamente com a soja, verificase um acentuado declínio nos teores de K no solo, o que também requer complementação. Dos fatores que afetam o uso de fertilizantes, a rotação e a sucessão de culturas podem ser consideradas as mais importantes devido às diferenças nas exigências nutricionais e na ciclagem dos nutrientes”, ressalta.

Conforme o pesquisador, o que tem sido verificado em condições experimentais e na prática é que o milho responde intensamente a incrementos na melhoria da fertilidade dos solos. “A experiência tem demonstrado que altas produtividades de milho só são possíveis em solos cuja fertilidade encontra-se em níveis classificados como de média, alta e muito alta. Em solos com fertilidade classificada como baixa e muito baixa, seja pelas condições naturais, seja pelos processos de degradação, é muito difícil, no primeiro ano, obter altas produtividades”, assegura. Para ilustrar, Coelho cita como exemplo a abertura dos Cerrados, na década de 1970, ou, recentemente, a integração lavourapecuária (ILP) na recuperação de pastagens degradadas. “Em ambas as situações, a introdução do milho sem os devidos cuidados na construção da fertilidade dos solos foi frustrante, com baixos níveis de produtividade”, reconhece.

Mercado segue em crescimento — A agricultura brasileira é dependente da importação de matéria-prima para a fabricação de fertilizantes. “O Brasil importa em média 65% dos nitrogenados, 50% dos fosfatados e 90% do potássio”, calcula o secretário executivo da Associação Nacional para a Difusão de Adubos (Anda), David Roquetti Filho. Para Roquetti, as possibilidades de diminuir a dependência externa são boas, desde que o Brasil continue a direcionar esforços no sentido de entender, enfrentar e superar uma série de desafios, tais como infraestrutura e logística, questões regulatórias, ambientais, fundiárias e tributárias, investimento em pesquisas geológicas, entre outras. Os gastos com fertilizantes representam de 30% a 40% dos custos variáveis de produção de grãos no Brasil. Nesse cenário, práticas e recomendações que promovam o uso mais eficiente de nutrientes são estratégicas para garantir a competitividade do agricultor.


O algodão tem a sua lógica. É a lei de Liebig

Na cultura do algodão, o manejo eficiente da fertilidade está baseado no seguinte raciocínio: o nutriente que estiver em menor teor no solo e na folha, em relação à expectativa de teores esperada, deve ter sua quantidade de adubo aumentada na safra seguinte para atender os limites estabelecidos. “Pela lei de Liebig, o nutriente mais importante é sempre o que está mais limitante para o nível de produtividade que se deseja alcançar. Assim, é necessário fazer análise de solo e de planta, acompanhar o desempenho produtivo da cultura anualmente e fazer um histórico da área”, aponta o pesquisador da Embrapa Algodão Gilvan Barbosa Ferreira (foto).

Ferreira explica que existem tabelas de recomendação de adubação específicas por cultura cujas quantidades dependem do teor do nutriente na análise de solo e do nível de produtividade da lavoura. “Quanto menor o teor e maior a produtividade requerida, maior será a dose do adubo a ser aplicada. O algodão é uma planta sensível à acidez do solo e exigente em nutrientes para desenvolver sua capacidade produtiva. Em termos de quantidades exigidas, nitrogênio, fósforo e potássio são sempre os mais importantes”, avalia.

De acordo com o pesquisador, a planta precisa receber anualmente um aporte de 40 quilos de nitrogênio por tonelada de algodão em caroço produzido, 25 quilos de P2O, cerca de 40 a 50 quilos de K2O, além de boro, de 1 a 3 quilos por hectare a cada hectare/safra. A pesquisa também recomenda pulverizações com micronutrientes como zinco e manganês, para manter o equilíbrio nutricional da planta. “Sob alto nível de produtividade, também é comum o uso de nitrato de potássio (20 kg/ha de K2O), em cinco pulverizações semanais após o início do florescimento, apesar de os resultados em produtividades dessa prática não terem sido mostrados consistentes”, complementa.

O máximo aproveitamento dos nutrientes aplicados ocorre quando o solo está com acidez corrigida (pH 6 a 6,5), tanto na superfície pela calagem, como em profundidade pela gessagem. Conforme o pesquisador, os nutrientes devem ser postos na linha de plantio (no caso do fósforo, zinco, manganês, cobre e, em parte, do potássio) ou a lanço (nitrogênio, potássio, enxofre, cálcio, magnésio, boro e molibdênio), com uso de produtos solúveis em água e nas doses requeridas pela cultura para o nível de produtividade que se pretende alcançar. “É necessário, também, que a cultivar tenha boa capacidade de absorção do nutriente e as demais condições de manejo sejam dadas para potencializar o crescimento e o desenvolvimento da planta e, por consequência, sua produtividade”, aconselha.

O pesquisador lembra que, em solos com fertilidade corrigida, todos os adubos podem ser postos a lanço em préplantio, exceto o nitrogênio. Neste caso, se recomenda o fracionamento em ao menos duas aplicações, uma com sulfato de amônio na semana do plantio, antes ou depois deste, e outra com ureia 20 dias após o plantio, em sistema plantio direto. “No sistema de plantio convencional é recomendada a adubação na linha de plantio de todo o fósforo, até 40 quilos por hectare de nitrogênio e até 60 quilos por hectare de K2O. O restante do adubo deve ser posto em cobertura no início do florescimento ou em duas aplicações, no abotoamento e no florescimento”, especifica Ferreira.


Arroz: avanço nas recomendações

O arroz irrigado cultivado no Rio Grande do Sul, cuja área plantada abrange mais de 1 milhão de hectares, está entre as culturas que melhor respondem à adubação, registrando crescentes avanços em produtividade, sobretudo nas últimas cinco safras. Esses avanços se devem a esforços dos produtores, às práticas de manejo, ao melhoramento genético, que disponibilizou cultivares com maior potencial produtivo, à melhoria na nutrição das plantas e a programas de transferência tecnológica que englobam essas práticas, com destaque para o Projeto 10, do Instituto Rio-grandense do Arroz (Irga).

O pesquisador Rodrigo Schoenfeld (foto), da área de Fertilidade do Solo e Nutrição de Plantas do Irga, explica que a maioria dos solos de várzea no estado passa boa parte do ano com drenagem deficiente, principalmente no período de inverno, e cerca de 120 dias inundados com o cultivo do arroz irrigado. “Do ponto de vista químico, em sua condição natural, são solos geralmente pobres em nutrientes, sendo deficientes principalmente em cálcio e magnésio. Levantamentos feitos pelo Irga também mostram que a maioria dos solos apresenta teores de matéria orgânica baixa, fósforo na faixa de alto ou muito alto e deficiência de potássio. Sendo assim, somente fazendo o manejo correto é possível obter boas respostas à adubação”, esclarece.

Conforme Schoenfeld, as recomendações de adubação para o arroz irrigado evoluíram muito nos últimos anos. “Não existe ‘receita de bolo’ quando se fala em adubação de arroz. Diante dos altos investimentos em fertilizantes e principalmente pensando na sustentabilidade ambiental, a palavra que define adubação é eficiência no uso desse insumo. Mas para isso é preciso semear na época recomendada, fazer o manejo correto e, principalmente, irrigar o mais cedo possível”, destaca.

Na média, a resposta do arroz irrigado à adubação, de acordo com dados levantados pelo Irga, é de 3,2 toneladas por hectare em qualquer solo ou região do RS, mas pode variar em função da cultivar utilizada. “Materiais como a cultivar Irga 424, por exemplo, apresentam potencial produtivo mais elevado devido ao maior ciclo (135 dias) e podem chegar a 6 toneladas por hectare, superando as 12 toneladas por hectare de produtividade em muitas regiões da Fronteira Oeste. Merecem, portanto, um maior investimento em adubação”, avalia o pesquisador. No geral, segundo Schoenfeld, todas as cultivares precisam de boas quantidades de adubo para produzir bem. “Em média, cultivares de ciclo precoce precisam de três doses de NPK (120, 60 e 90 quilos por hectare) e materiais de ciclo médio, três doses de NPK (135, 60 e 130 quilos por hectare). Mas também é preciso levar em conta fatores como histórico da área, cultivo anterior, cultivar utilizada entre outros”, enumera.

Outro avanço apontado pelo pesquisador nas recomendações da pesquisa é a adubação nitrogenada aplicada em cobertura. “A ureia no seco, antecedendo a entrada de água nas lavouras, é um dos fatores responsáveis pelo aumento da produtividade de arroz no RS. O produtor deve estar atento para anos de clima mais complicado com excessos de chuva em anos de El Niño ou de seca, La Niña, além de estresses causados por herbicidas, frio, calor, ataques de pragas e outros fatores que influenciam direto no manejo do nitrogênio”, completa.