O Segredo de Quem Faz

 

PRECURSORES do Centro-Oeste

Um dos maiores produtores de soja do Brasil iniciou a sua trajetória com 12 hectares plantados em 1978. Na última safra, ele cultivou 107 mil hectares com a oleaginosa. Filho de um dos precursores da agricultura no Mato Grosso, o hoje presidente do Grupo Bom Jesus, Nelson Vigolo, relembra a trajetória do pai, fala dos desafios do presente e garante que não pretende parar de fazer crescer a empresa que está entre os gigantes do agronegócio nacional. “Quando olho para trás, lembro que jamais imaginei chegar nesse porte em que chegamos. A iniciativa do meu pai foi muito importante. Ele teve a visão, há 36 anos, que o Mato Grosso era uma região de futuro”, conta.

Denise Saueressig - [email protected]

A Granja – Como teve início a trajetória da família no meio rural?

Nelson Vigolo – Eu cheguei no Mato Grosso pré-adolescente, com o meu pai, que já era agricultor no Paraná. Chegamos no Centro-Oeste em 1976, quando eu estava com 12 anos. Meu pai – Luiz Vigolo – inicialmente iria plantar arroz e buscava terras planas para a agricultura mecanizada, para deixar de vez a era da enxada. No Paraná, ele plantava diferentes culturas e, em 1974, comprou seu primeiro trator e, um ano depois, sua primeira colheitadeira. Mas no Paraná as terras ainda eram muito acidentadas e pedregosas. Nessa época, começaram a falar sobre as possibilidades da agricultura no Mato Grosso. Então, meu pai viajou para o estado, conheceu as terras e gostou. Ele adquiriu sua primeira área na Serra da Petrovina, na região de Rondonópolis, onde hoje está a nossa unidade de beneficiamento de sementes, às margens da BR-364. É uma região com 750 metros de altitude, boa para altas produtividades e adequada para a produção de sementes. Nos dois primeiros anos no Mato Grosso, meu pai e um tio dele plantaram arroz. Em 1978/1979 foram plantados 12 hectares de soja e outros 200 hectares com arroz. Mas aos poucos a área de arroz foi deixada, para a soja ocupar a terra. Naquela época, o arroz era usado no cultivo de novas áreas. Mas o cereal ia bem nos dois primeiros anos e, no terceiro ano, já não tinha resultados tão bons. Hoje, existe tecnologia para plantar a soja em novas áreas, mas naquela época, o plantio da soja na primeira safra era sinônimo de prejuízo. Hoje, as áreas de agricultura estão consolidadas e corrigidas e não existe mais essa necessidade.

A Granja – Além do senhor, quem toma conta dos negócios atualmente?

Vigolo – No início, a família toda morava na fazenda. Meu pai, minha mãe, eu, duas irmãs e dois irmãos. Hoje, nos negócios do Grupo Bom Jesus, somos eu e meu irmão Geraldo. Eu passo a maior parte do tempo no nosso escritório central, em Rondonópolis, e em viagens, fazendo contato com clientes e fornecedores. Meu pai está afastado, mas acompanha o nosso trabalho. Meus filhos e os filhos do meu irmão ainda estudam e é provável que alguns deles voltem para trabalhar conosco. De qualquer forma, mantemos um processo de organização pensando no futuro da empresa. Inclusive pensamos que, caso os filhos não queiram ou não possam permanecer à frente dos negócios, teremos profissionais capacitados para manter o trabalho da empresa. Hoje, são 3 mil colaboradores nas mais diversas atividades do grupo, e alguns funcionários estão conosco há 25 anos. Nossas equipes técnica e operacional estão sincronizadas. Temos um setor específico que cuida da parte ambiental, procurando manter todas nossas fazendas adequadas à legislação, com APPs (Áreas de Preservação Permanente) e Reserva Legal. A terra é o nosso patrimônio e cuidamos para manter boas práticas agrícolas em todas as nossas áreas. Procuro me cercar de pessoas qualificadas nas diferentes esferas, porque não tenho a pretensão de tentar fazer o que eu não sei fazer.

A Granja – Qual é a estrutura atual da produção e dos negócios da empresa?

Vigolo – Na última safra, foram plantados 107 mil hectares de soja, 56 mil hectares de algodão e 28 mil hectares de milho. Desse total, 35 mil hectares são manejados pensando na produção de sementes. Foram colhidas 350 mil toneladas de soja, 180 mil toneladas de milho e a lavoura de algodão deve render entre 90 mil e 95 mil toneladas de pluma. Temos fazendas espalhadas pelos nossos núcleos produtivos em Nova Mutum, Lucas do Rio Verde e Tangará da Serra. Em Lucas do Rio Verde, mantemos uma parceria com o Grupo Guimarães e, em Tangará da Serra, com a família Crestani. Também temos uma fazenda em Gaúcha do Norte e fazendas no entorno de Rondonópolis. Quase todas as fazendas contam com estrutura própria de armazenagem. Desde 2003 também temos a Bom Jesus Transportes, que presta serviços para produtores, empresas e, claro, para a nossa própria produção. Atualmente mantemos uma frota de 170 bitrens.

A Granja – E a produção de sementes, quando iniciou?

Vigolo – A Bom Jesus Sementes foi fundada em 1987, quando a produção foi de 10 mil sacas. Na última safra, foram produzidas 1,1 milhão de sacas de 40 quilos de sementes. A maior parte é de soja e uma pequena parcela, de algodão. Para a próxima safra, a nossa meta é ampliar a produção para 1,3 milhão de sacas.

A Granja – Como produtor, como o senhor avalia a importância do uso de uma semente de qualidade?

Vigolo – Acho que a semente é fundamental para a qualidade da lavoura e para o sucesso do produtor. O caminho certo começa com uma boa semente, que é o início da vida da planta. Um produto ruim vai refletir sobre a produtividade lá na frente. O produtor acha que pode economizar um pouquinho, mas não terá benefícios com isso. E essa é uma economia que não faz sentido, já que a semente não representa nem 10% do custo total de uma lavoura.

A Granja – Qual é a projeção do Grupo Bom Jesus para o cultivo da próxima safra?

Vigolo – Devemos fazer pequenos ajustes na nossa área. Se quiséssemos ampliar o nosso cultivo, teríamos que arrendar novas terras, mas com os preços atuais das commodities, ninguém quer “largar o osso”. Então, como o algodão está numa situação de mercado inferior em relação aos grãos, vamos reduzir em torno de 20% a área plantada com a pluma e substituir pela soja. A última safra foi muito boa para nós e o próximo ciclo tem indicativos de que será ainda melhor para a soja e para o milho. Normalmente, fracionamos a venda da soja em três partes ao longo da safra e conseguimos uma média de US$ 25 pela saca na última safra. Do que esperamos colher em 2013, já vendemos em torno de 30% com essa mesma média de preços. O mercado já está pagando mais e, logo, devemos ampliar a nossa venda. Por sabermos que o mercado tem oscilações, prestamos atenção aos custos, mas buscamos a produtividade, acima de tudo. É a produtividade que pode fazer a diferença num momento de mudanças no mercado.

``Hoje, são 3 mil colaboradores nas mais diversas atividades do grupo, e alguns funcionários estão conosco há 25 anos´´

A Granja – E quais são as médias de produtividade nas lavouras da empresa?

Vigolo – Até a década de 90, fazíamos apenas uma safra por ano aqui no Mato Grosso. Mas a partir do final da década de 90, com a ajuda da tecnologia, grande parte das áreas passou a receber duas culturas anuais. Nas lavouras de milho, com as novas variedades adaptadas, conseguimos uma produtividade de mais de 100 sacas por hectare na safrinha. E tivemos áreas com até 150 sacas por hectare esse ano, que foi de clima excepcional. A soja varia entre 50 e 65 sacas por hectare, dependendo do ciclo da semente. O algodão, que é plantado em dezembro e na safrinha, também teve rendimentos acima de 300 arrobas por hectare em algumas áreas.

A Granja – Como o senhor avalia as possibilidades e necessidades do agronegócio brasileiro nesse momento?

Vigolo – O Brasil tem suas vantagens naturais, que vêm da terra e do clima, e produtores e agroempreendedores competentes, que conseguem resolver muitos desafios e problemas que surgem. Há alguns anos, o setor vive uma fase muito boa, mas há questões importantes a resolver. A principal delas, na minha opinião, está relacionada à logística. Agora, com esse novo pacote de investimentos anunciado pelo Governo, parece que finalmente algumas obras importantes podem acontecer. Estamos aqui no Mato Grosso há mais de 30 anos, e as rodovias são as mesmas, com trechos esburacados, com remendos. Em alguns momentos, parece que você está andando em estrada de terra. O Brasil precisa muito de investimentos em ferrovias para diminuir os custos do transporte da safra. Carregar um caminhão de soja em Sinop e andar 2 mil quilômetros até Paranaguá/ PR não faz sentido. O país também precisa de mais atenção à qualificação da mão de obra. No campo, algumas vezes, faltam operadores qualificados para operar as máquinas cada vez mais modernas que são fabricadas. Também sentimos falta de motoristas de caminhão. Às vezes, entre 5% e 10% da nossa frota fica parada por falta de motoristas. No Grupo Bom Jesus, procuramos apoiar a capacitação. Um colaborador que deseja cursar uma pós-graduação, por exemplo, recebe apoio financeiro para isso. Nas fazendas, auxiliamos com o transporte àqueles que precisam se deslocar para fazer um curso.

A Granja – Quando o senhor relembra o passado, quais são as impressões e lições que ficam para quem iniciou pequeno e hoje está entre os maiores produtores de soja do país?

Vigolo – Quando olho para trás, lembro que jamais imaginei chegar nesse porte em que chegamos. A iniciativa do meu pai foi muito importante. Ele teve a visão, há 36 anos, que o Mato Grosso era uma região de futuro. Ele largou a zona de conforto no Paraná e enfrentou as dificuldades iniciais daqui. Meu pai também nunca centralizou demais o trabalho. Ele não sentiu a necessidade de segurar o bastão. Ele delegou tarefas, mas também cobrava bastante. Eu assumi a presidência com 30 anos de idade, em 1994. Até então, meu pai era o presidente, e eu, o vice. Nessa época, plantávamos apenas 4 mil hectares com soja. Mas eu já conhecia bem o negócio, já me sentia preparado. Meu irmão ficou sempre junto comigo, ajudando a cuidar da parte das fazendas. Não sei ao certo qual é o ranking, mas acredito que hoje estamos entre os cinco maiores produtores de soja do Brasil. É um orgulho e uma satisfação ter chegado até aqui.

A Granja – Quais são os planos do Grupo Bom Jesus para os próximos anos?

Vigolo – Recentemente adquirimos duas fazendas no Oeste da Bahia. Essas áreas ainda estão passando pelos processos de licença ambiental e a nossa expectativa é iniciar o cultivo por lá em 2013. Vamos começar com a soja e, depois, pensamos em cultivar também o algodão. As duas fazendas somam 60 mil hectares e a área plantada deve ser de 45 mil hectares. Para os próximos anos, ainda não temos definições sobre novos investimentos. Nesse momento, o nosso foco é fazer um bom trabalho na Bahia, mas claro, ficamos sempre atentos às novas oportunidades. Essa visão de crescimento e desenvolvimento que cultivamos sobre a empresa está no sangue. Eu gosto do que eu faço, gosto de tocar os negócios em frente, mas também sei que é preciso dar um passo de cada vez.

``O Brasil tem suas vantagens naturais e produtores competentes, que conseguem resolver os desafios e problemas que surgem´´