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Faces da mesma moeda

Gestão competente e programa de melhoramento genético são interdependentes e andam juntos

Ivaris Júnior

Dos principais programas de melhoramento genético que se valem das Diferenças Esperadas de Progênie (DEPs) para nortear suas orientações, nenhum, hoje, está como nasceu. Todos passaram por inúmeras mudanças e, ao longo do tempo, adequações a novas demandas e exigências, de modo a se manterem em condições de atender às crescentes demandas do mercado. Apesar de produto de uma parceria público-priva Faces da mesma moeda Gestão competente e programa de melhoramento genético são interdependentes e andam juntos Ivaris Júnior da, o Geneplus – um dos mais antigos – não foge à regra. Nascido no Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte (CNPGC, Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande/MS), ele expandiu sem perder a missão e o desafio.

O programa é levado em trabalho conjunto da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da Geneplus Consultoria Agropecuária; aliás, a conjunção já nasceu para gerar as condições ne cessárias à evolução e à eficiência da ferramenta de seleção genética. Vale lembrar que melhorar o que é bom e deter o status de referência é sempre muito difícil. Simples entender o porquê. Se tudo começou com alguns poucos touros, a cada entrada de um novo animal, característica a ser apurada ou um novo parâmetro qualquer de mensuração, a base de dados cresceu em progressão geométrica. Das dezenas iniciais, quase três décadas depois, tornaram-se milhões.

Atualmente, o Geneplus atende 450 criadores das diferentes raças de corte no Brasil, além de Bolívia, Paraguai, Uruguai e Estados Unidos. As raças atendidas estão divididas em zebuínas (Nelore nas variedades mocha e aspada, Guzerá e Brahman), taurinas (Caracu, Hereford e Senepol) e compostas (Brangus, Braford, Canchim e Santa Gertrudis). O número de características avaliadas depende do plano de trabalho estabelecido para cada raça em particular; ou seja, depende dos objetivos estabelecidos entre os técnicos do programa e de cada fazenda. De saída e como diferencial, mostra que o Geneplus tem a capacidade de se adequar a interesses específicos (personalizados).

Uma missão implacável

A administração do Geneplus é compartilhada pelas duas instituições, havendo um representante de cada instituição. Pela Embrapa Gado de Corte (instituição estatal), o gestor é Gilberto Romeiro de Oliveira Menezes, zootecnista, com mestrado e doutorado em Genética e Melhoramento, além de “Pesquisador A” em Recursos Genéticos e Melhoramento Animal.

Pela empresa Geneplus (privada), a gestão é de seu proprietário, Paulo Nobre, responsável, juntamente com sua equipe, por fornecer as informações básicas desta reportagem. Logo, o programa conta com o apoio da Embrapa Gado de Corte, especialmente em termos de cessão parcial dos seus pesquisadores da área de melhoramento animal, para atuarem como consultores, além de ter seu próprio corpo de funcionários.

A forma da parceria não mudou desde seu estabelecimento, em 1996. Indagado sobre desafios do Geneplus, Menezes entende que o principal deles é “fazer jus ao grande trabalho realizado até aqui”, o qual lhe conferiu papel de protagonista no melhoramento genético do gado de corte no País. Para ele, cabe a frase do ilustre físico inglês Isaac Newton para ilustrar: “Se hoje posso ver mais longe é por me apoiar em ombros de gigantes”. Esse desafio, aliás, implica, cada vez mais, tornar o Geneplus um agente ativo da Embrapa na transferência de conhecimento e soluções tecnológicas para a cadeia produtiva da carne bovina.

Para tanto, o gestor tem como meta buscar formas de gerar valor para o selecionador e o produtor de gado de corte. “Gerar valor implica mais produtividade, mais qualidade, mais eficiência”, reforça. E isso tudo, para Menezes, “somente é alcançado com gente, e não com gado. Portanto, espero ampliar quantitativa e qualitativamente a equipe do Geneplus para que todo o Brasil possa ter acesso aos nossos serviços e produtos com máxima seriedade e competência técnica”.

Pelo lado privado do Geneplus, Paulo Nobre prega que, “como empresa de assessoria (prestação de serviços), os principais desafios são a forma ética de atuação, a qualidade da informação entregue aos criadores, na forma de sua utilização, e o respeito a toda a comunidade que envolve as ações, da pesquisa à implementação das novas tecnologias, produtos e serviços aos criadores e à indústria”.

“Gerar valor implica mais produtividade, mais qualidade, mais eficiência”, reforça Gilberto Menezes

Cliente x programa

Para o atual coordenador da área de Pesquisa e Desenvolvimento, Luiz Otávio Campos da Silva, um dos criadores do programa e ex-gestor pela Embrapa, o Geneplus evoluiu bastante ao longo desses anos e, mais importante que a própria evolução, foi ela ter acontecido “dentro da perspectiva de atender às necessidades particulares de cada um dos seus clientes; ou seja, cada um dos rebanhos”. “Nunca nos importou o estágio de seleção genética de cada fazenda, mas os anseios de cada uma. Nosso objetivo sempre foi oferecer os melhores caminhos”, afirma.

Nesse sentido, a evolução e sucesso do programa de melhoramento genético passa por um aprimoramento da relação técnica de campo e o selecionador, na qual o rebanho está cercado de toda a assessoria necessária. Assim, “precisamos sempre promover cursos e reciclagens técnicas, dinâmicas, de modo a se alcançar a melhor compreensão de todos de procedimentos e conhecimentos específicos”, reforça Silva.

Da mesma forma, essa aproximação contínua permitiu também o apri moramento de ferramentas de trabalho, principalmente softwares, sejam eles voltados às avaliações ou à coleta de dados. “E vale reforçar que este é um diferencial do Geneplus. A entrega de dados é muito boa. Então entendemos que o foco está posto: melhor entrega das informações e, da mesma forma, das avaliações genéticas”, elucida o pesquisador da Embrapa.

Também é importante lembrar que, ao longo de sua existência, novas características surgiram, tais como as decorrentes das mensurações ultrassonográficas e genômicas. Todas demandaram passar por esse sistema de informação de ida e volta, o que foi bastante facilitado pelo tipo de relacionamento estabelecido. “Não falo de facilidades nas introduções, mas falo de canais existente que sempre funcionaram bem na transferência de novas tecnologias”, explica.

Gente antes de tudo

Reiterando o importante papel das pessoas no processo, o pesquisador entende que, “com profissionais de alto nível junto aos nossos criadores, não há limites para os ganhos da nossa pecuária, em especial, com tamanha disponibilidade de tecnologias ligadas à telecomunicação, à bioinformática e à genômica”. Ele avalia que há um grande abismo no Brasil entre o nível genético dos rebanhos de seleção e dos rebanhos comerciais, o qual, uma vez preenchido ou amenizado, certamente gerará significativos saltos em competitividade e sustentabilidade em toda a cadeia produtiva.

Com a utilização da inseminação artificial, o teste de progênie clássico perdeu importância, observa Paulo

Nesse sentido, o Geneplus pretende intensificar e ampliar sua atuação rumo à integração de rebanhos de seleção e comerciais. “Os ganhos estarão distribuídos entre todos. Em suma, o Geneplus visa ser uma referência técnica sólida e séria em melhoramento genético e um parceiro de alto valor para selecionadores e produtores de gado de corte.” Atualmente, a ação do programa é levada por dois gestores, além de quatro pesquisadores na área de Pesquisa e Desenvolvimento; três coordenadores e 22 técnicos de campo na área de Produtos, Ações e Comunicação; e outros dois coordenadores e quatro analistas na Administração e Tecnologia da Informação.

Alguns dados a equipe em torno do Geneplus ainda não pode informar, tais como número de touros produzidos por ano e/ou coletados em central de inseminação artificial. Mas Paulo Nobre deu luz a algumas questões. Ele avalia como importante observar que, “com a utilização da inseminação artificial, o teste de progênie clássico perdeu a sua importância para os programas de avaliação genética, os quais, a partir dos dados de genealogia e das medidas das características em idades pré-determinadas, coletados nos diferentes rebanhos da raça, produzem os denominados sumários de touros, que levam em consideração, além das progênies, dados do próprio indivíduo e de seus parentes colaterais e ascendentes”.

Como funciona?

O Geneplus opera de modo similar aos demais programas de melhoramento genético baseados por DEPs. Estabelecidas as características que o selecionador quer apurar no rebanho, tais como peso ao nascimento, desmame, sobreano ou perímetro escrotal, é preciso obter as informações de forma fidedígna. Para a coleta, o gerenciamento e a remessa desses dados ao Geneplus, é necessária a utilização de um aplicativo adequado. Embora disponível, não há obrigatoriedade de uso do software Geneplus de coleta de dados. É facultada ao usuário a utilização de qualquer outro recurso, desde que sejam atendidas as recomendações estabelecidas no Plano de Trabalho.

O Geneplus, além de acompanhar a execução do programa de melhoramento do rebanho e orientar o criador na avaliação dos resultados das avaliações genéticas, ainda se responsabiliza pelo armazenamento dos dados, garantindo sigilo sobre os mesmos e sobre as informações geradas. Quanto mais dados de indivíduos, desde a sua genealogia até a sua progênie, maior a confiabilidade das informações; portanto, maior a acurácia. Nesse cenário, a genômica veio conferir maior segurança.

Nobre explica que a utilização de informação incorreta de pedigree ou a quebra de laços genéticos conduz a menores estimativas de herdabilidade e à predição de valores genéticos incorretos, especialmente para aqueles indivíduos com parentesco errado. “Nesse sentido, a possibilidade de utilização da genômica conduz a importante contribuição ao ser usada na determinação do parentesco, reduzindo tais inconsistências.”

Com a utilização da inseminação artificial, o teste de progênie clássico perdeu importância, observa Paulo

Além disso, a estimativa de parentesco entre os indivíduos pode ser mais precisa pela utilização da matriz de parentesco genômica. Consequentemente, a seleção baseada nos valores genéticos genômicos se torna mais precisa que a nos valores genéticos preditos pela matriz dos numeradores dos coeficientes de parentesco de Wright. “Estes são dois exemplos entre outros”, reforça.

Nunca nos importou o estágio de seleção genética de cada fazenda, mas os anseios de cada uma, explica Luiz Otávio

Para o empresário, “a utilização da genômica pode promover o incremento de eficiência e aumento de lucro, resultante do aumento nas precisões das predições dos valores genéticos e na redução nos intervalos de geração. Por meio dela, “torna-se possível a inclusão de características de difícil e de alto custo de medição nos programas de melhoramento, possibilitando, assim, a predição de DEPs com razoável precisão e com um menor número de dados”.

Um pouco de história

Desde a fundação da Embrapa Gado de Corte, em julho de 1977, os pesquisadores da área de melhoramento animal tinham a convicção de que, para se realizar, de fato, o melhoramento genético, é preciso uma atuação direta nos rebanhos de seleção. Essa percepção foi decisiva para a busca de parcerias privadas, cujo primeiro exemplo foi o convênio com a Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), assinado em 1979.

Com a expansão dessa cooperação técnica para nível nacional, em 1982, e a nomeação da Embrapa pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento como Gerente do Arquivo Zootécnico Nacional, em 1987, os sumários nacionais de touros das raças zebuínas passaram a ser editados periodicamente.

A partir da difusão dessa nova tecnologia, os criadores, aos poucos, passaram a demandar por informações mais detalhadas sobre os seus próprios rebanhos. Dessa forma, calcada na experiência adquirida ao longo de quase 20 anos de trabalhos, a Embrapa Gado de Corte,em parceria com a Geneplus Consultoria Agropecuária Ltda., desenvolveu e colocou à disposição da cadeia produtiva, em 1996, o Programa Geneplus-Embrapa.

Relevância ao serviço público

Independentemente de posicionamentos políticos, a Embrapa é um orgulho nacional e, possivelmente, o maior exemplo de um Brasil que dá certo. Nascida no regime militar, ela sobreviveu a inúmeros planos econômicos, com mais ou menos recursos voltados às suas pesquisas e mantença, e, posteriormente, na era democrática, aos sucessivos governos, inclusive com dezenas de ministros da Agricultura.

Apesar de tantos revezes, ela sobreviveu e se tornou uma entidade à parte e inatingível, pois é a grande responsável por tirar o Brasil da condição de importador de alimentos para oferecer o famoso “celeiro do mundo”. A Embrapa, hoje, é, inclusive, exportadora de tecnologias de produção de alimentos (agrícolas, pecuários e serviços pertinentes) nos trópicos, consumidas por diversos países de mesmo ambiente.

Para Menezes, a importância do Geneplus para o CNPGC é indiscutível. Trata-se de um braço forte da Embrapa Gado de Corte em ações de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em melhoramento genético de gado de corte. Basicamente, todas as ações da equipe de melhoramento animal da Embrapa Gado de Corte tiveram o programa como peça importante nestes anos de forma direta ou indireta. O Geneplus permite que as demandas reais do setor produtivo cheguem até a Embrapa, dando foco e pertinência aos esforços realizados.

Esse canal de percepção sinaliza e faz com que as soluções encontradas sejam entregues diretamente ao público-alvo. Isso, naturalmente, é o que a sociedade espera de uma instituição pública como a Embrapa, e, felizmente, o Geneplus tem contado com o apoio e a confiança dos criadores das diferentes raças bovinas de corte do Brasil. Na verdade, “o programa faz uma ponte direta da Embrapa Gado de Corte com os criadores, contribuindo para que esta cumpra sua missão junto à sociedade brasileira”, conclui.

O valor da assessoria da Tecnologia Geneplus depende do número de matrizes que o associado queira incluir no programa e do preço da arroba de boi gordo em Campo Grande/MS, de acordo com o índice da Scot Consultoria. No link http://geneplus.cnpgc. embrapa.br/geneplus/quanto-custa, é possível informar o valor da arroba no momento para simular os custos para um plantel de 300 a 5 mil matrizes.