Feno e Silagem

FENO: DESEMPENHO EM BOVINOS DE CORTE

Vanessa de Lima*, Anna Elisa Gatelli**, Daniele Zago***Júlio Barcellos****

A fenação é uma ferramenta de conservação de forragens para o uso em épocas estratégicas. A matéria-prima deve ter boa qualidade nutricional e pode ser oriunda de forrageiras cultivadas com esse objetivo ou do excedente de pasto em potreiros já utilizados pelos animais ou, ainda, aproveitando palhadas de cultivos agrícolas. As principais vantagens da utilização desse tipo de alimento são a flexibilidade da oferta de forrageiras, aumento do número de animais por área, redução dos custos com concentrado e a facilidade no processo de fabricação. Resultados satisfatórios têm sido relatados com o uso de fenos como fonte principal ou suplementar de volumoso, a campo ou em confinamento.

Fatores que afetam o valor nutricional do feno

O material a ser enfenado deve apresentar boa qualidade nutricional, pois isso determinará a qualidade e a viabilidade econômica do feno produzido. É importante ressaltar que esse método de conservação não melhora a qualidade da forragem, apenas a conserva. Para a produção do feno, são necessárias pastagens de alta produção de massa, fáceis de serem cortadas e desidratadas, máquinas especializadas, além de boas condições climáticas, pois a umidade relativa do ar não deve ser superior a 60% no período de fenação (Figura 1). Em condições ambientais adequadas, as perdas decorrem principalmente da respiração da planta morta, logo após o corte, e envolve a dissipação de açúcares e hidrólise de proteínas. Porém esse processo pode ser evitado quando há rapidez na secagem, até que a umidade esteja em torno de 15%.

Outras implicações podem gerar perda de nutrientes do feno, como processo de corte, murchamento, presença de atividade biológica e ações mecânicas. Quando a forragem é colhida no estádio de desenvolvimento de máximo valor nutritivo e a secagem ocorre rapidamente, o resultado é um produto com valor nutritivo semelhante ao da forragem fresca e permite seu armazenamento por longo período.

Com relação à armazenagem, radiação solar e calor excessivo podem provocar a reação de Maillard, que causa perda de carboidratos digestíveis e proteína, além de uma coloração escura e odor semelhante ao de tabaco, reduzindo a palatabilidade e o valor nutricional. A umidade na armazenagem também é prejudicial, devido à proliferação de micro-organismos, com alteração na palatabilidade e presença de micotoxinas. Portanto, cuidados com a correta enfenação e armazenagem são necessários para que os nutrientes do alimento conservado não sejam perdidos.

É importante observar não só a quantidade de nutrientes do feno (Tabela 1), mas também a que será ofertada na dieta total (feno + suplemento ou forrageira base), pois esta que irá atender à demanda diária de energia dos animais. A quantidade de fibra do feno é outro fator crucial (Tabela 1) e determinará a sua digestibilidade. Fenos produzidos com plantas colhidas em avançado estádio fisiológico, terão o teor de fibra elevado e demandarão uma quantidade adequada de nitrogênio (N) na dieta total, para que os micro-organismos ruminais tenham condições de fazer a quebra da porção fibrosa do alimento e o aproveitamento dos nutrientes oferecidos.

feno em sistemas de confinamento

Nos sistemas de produção em confinamento, o feno pode ser utilizado como fonte de fibra fisicamente efetiva, em substituição à silagem. Embora a qualidade nutricional dos dois alimentos seja distinta, é possível adequar o tipo de feno ao nível de energia da dieta total formulada. Resultados satisfatórios têm sido observados nesses sistemas (Tabela 2).

Porém a forma de oferta, consumo, equilíbrio da dieta total e viabilidade econômica são fatores determinantes.

De um modo geral, os fenos são difíceis de incorporar à dieta dos confinamentos devido à sua forma física, com partículas normalmente grandes e fibrosas. Por outro lado, quando oferecidos em separado, como em rolos ou em fenis, é difícil assegurar o nível desejado de consumo pelos animais, e esta é a variável que mais afeta o desempenho. O ideal, portanto, é que o feno seja picado em partículas de 2 cm a 5cm e incorporado à dieta total em vagão forrageiro, para, então, ser fornecido nos cochos do confinamento. Dessa forma, não há possibilidade de seleção dos alimentos concentrados pelos animais e problemas com distúrbios metabólicos por falta de fibra são evitados.

Tabela 1 – Níveis nutricionais de alguns fenos utilizados nas dietas de bovinos de corte

Vários tipos de feno podem ser utilizados em confinamento, já que normalmente, na formulação da dieta, ele representa a fonte de fibra fisicamente efetiva no rúmen, e, nesse caso, a densidade nutricional é pouco relevante. Considerando a reduzida margem de lucro em confinamentos, a viabilidade do uso dessa fonte de fibra deve ser analisada com cuidado, pois a produção de biomassa das forrageiras utilizadas para produção de feno é consideravelmente inferior à do milho e sorgo, por exemplo, cultivados para produção silagem.

Tabela 2 – desempenho de bovinos de corte com o uso de feno

Feno em sistemas extensivos de produção

Nos sistemas extensivos, o feno pode ser utilizado como fonte principal de forragem em épocas de déficit na produção de pasto, ou como alimento adicional, com objetivo de aumentar a taxa de lotação ou reduzir o consumo de pasto. As respostas biológicas desse manejo compreendem o aumento da carga mantendo os níveis produtivos ou a manutenção da carga e aumento dos níveis produtivos. Por outro lado, nos casos em que o pasto tem disponibilidade e qualidade ruim, o feno torna-se a principal fonte alimentar. Nesse contexto, uma suplementação com concentrado seria uma alternativa para incrementar as respostas biológicas.

O material a ser enfenado deve apresentar boa qualidade nutricional

Na Região Sul do Brasil, esse é um manejo comum nos rebanhos de cria, quando a produção de matéria seca (MS) do campo nativo é reduzida pelas condições climáticas frias. Devido à boa disponibilidade e ao baixo custo, diferentes tipos de feno de palha têm sido utilizados, como aveia, arroz e cevada, por exemplo. O uso feno de palha de arroz no pré-parto de vacas de corte tem demonstrado resultados satisfatórios na manutenção do peso e condição corporal, taxa de prenhez e intervalo entre partos, principalmente quando combinado com concentrados ou sal proteinado (Tabela 3). Raramente, fenos de palha, ou de forrageiras de baixa qualidade nutricional fornecem a quantidade necessária de proteína, por isso devem ser associados a uma fonte de nitrogênio, que visa proporcionar condições para o crescimento dos micro-organismos do rúmen, os quais farão a quebra da fibra, presente em alta quantidade (Tabela 1).

Tabela 3 – Condição corporal ao parto, intervalo entre partos e taxa de prenhez de vacas alimentadas com diferentes tipos de feno na fase pré-parto

Os resultados positivos (Tabela 3) demonstram a importância do alimento conservado para manter a oferta de energia para as vacas e garantir a funcionalidade do eixo endócrino-reprodutivo, responsável pela ativação da atividade ovariana. Embora a suplementação com feno possa ser feita em todas as categorias de bovinos, as vacas de cria multíparas possuem a menor demanda de energia frente às demais categorias, o que, aliado à necessidade de redução dos custos de produção de bezerrros, justifica o uso do feno suplementar.

Feno de capim-pangola em rolos e ofertado para vacas de corte

Por fim, os dados apresentados demonstram vantagens técnicas significativas com a utilização de feno nos sistemas de produção. Adicionalmente, o nível de consumo, o teor de fibra e o custo dos alimentos conservados são fatores determinantes para os resultados positivos. Dessa forma, uma análise integrada desses fatores deve ser considerada no momento de optar pela utilização de feno, pois o melhor resultado produtivo não necessariamente é acompanhado do melhor resultado econômico da atividade.

*Vanessa é médica-veterinária e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Zootecnia NESPro/UFRGS **Anna é graduanda em Agronomia, bolsista de iniciação científica do CNPq – NESPro/UFRGS ***Daniele é zootecnista e pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Agronegócios NESPro/UFRGS **** Júlio Barcellos é médico-veterinário e doutor – NESPro/UFRGS [email protected]