Caprinovicultura

Bem-estar favorece toda a cadeia

Além de melhorar a condição do rebanho, práticas simples adotadas pelos criadores colaboram para elevar os índices de produtividade e facilitam o manejo no campo

Denise Saueressig
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O bem-estar dos animais está totalmente ligado à produtividade da pecuária. Essa compreensão deve estar presente no dia a dia dos criadores para que práticas simples, porém de fundamental importância, não sejam deixadas de lado. A zootecnista e pecuarista Marina de Vasconcellos, consultora na área e instrutora do Serviço Nacional de Aprendizagem Ru Bem-estar favorece toda a cadeia Além de melhorar a condição do rebanho, práticas simples adotadas pelos criadores colaboram para elevar os índices de produtividade e facilitam o manejo no campo Denise Saueressig [email protected] ral (Senar) no Rio Grande do Sul, resume: “Para uma boa produção, o animal precisa estar saudável”.

O conceito de bem-estar é definido por cinco liberdades estabelecidas pelo Farm Animal Welfare Council, da Inglaterra. São elas: 1) Livre de fome e sede; 2) Livre de desconforto; 3) Livre de dor, lesão e doença; 4) Livre para expressar os comportamentos naturais da espécie; e 5) Livre de medo e angústia. As três primeiras são fisiológicas e estão ligadas mais intimamente à produtividade, descreve Marina. “Quando alcançamos estas três, ficamos mais próximos das duas últimas”, conclui. Para entender mais sobre as necessidades e os comportamentos de cada espécie, a especialista recomenda que os produtores dediquem um tempo para a observação dos animais. “É possível aprender muito apenas com esse olhar mais atento para o rebanho”, afirma.

Zootecnista Marina de Vasconcellos: para entender mais sobre as necessidades de cada espécie, é recomendável que os produtores dediquem um tempo para a observação dos animais

Se há alguns anos a expressão “bem -estar animal” soava como algo quase imposto ao produtor, hoje já existe o maior entendimento de que as práticas beneficiam toda a cadeia, desde as práticas da criação até a qualidade da carne que chega ao consumidor. A temática é abordada no curso de manejo de ovinos do Senar/RS e foi levada para a Expointer deste ano em forma de oficinas diárias. Na tradicional feira agropecuária de Esteio/RS, Marina orientou sobre medidas que devem ser adotadas nas propriedades e apresentou índices que podem ajudar os produtores na tomada de decisão.

Um dos questionamentos mais presentes entre os criadores é a utilização de cachorros para pastoreio ou proteção do rebanho. A especialista alerta que é preci so ter certos cuidados já que, naturalmente, o cachorro é predador da ovelha. Um comportamento instintivo dos cães, o latido, pode gerar medo e estresse entre os ovinos. Por isso, o recomendável é apenas contar com cães treinados e com aptidão para a função, como é o caso do Border Collie para pastoreio. Entre os cachorros de proteção, a raça Maremano, quando criada desde jovem entre as ovelhas, entende o rebanho como parte da sua matilha. “Os ovinos reconhecem até 50 faces do seu rebanho e de outras espécies, incluindo os humanos, diferenciando as interações positivas e negativas. Assim, é por meio do contato visual que o Maremano também passa a fazer parte do rebanho”, explica Marina.

Planejamento e adequação

Considerando as cinco liberdades do bem-estar animal, o primeiro preceito é atendido, em grande parte, por um eficiente planejamento forrageiro. “O criador deve pensar o quanto de pasto precisa ter em cada época do ano, assim como adequar a alimentação às diferentes categorias animais. É preciso projetar, por exemplo, que algumas pastagens levam 60 dias entre o plantio e o consumo. Se não houver uma programação apropriada, talvez seja necessário fazer uma suplementação, o que eleva os custos”, relata a zootecnista.

A oferta de água fresca e de qualidade tem impacto direto sobre o conforto térmico e o desempenho produtivo, com melhoria da qualidade da carne, lã e leite. Em média, uma ovelha consome entre 4 e 6 litros/dia, com variações por fatores como temperatura, alimentação e lactação. Ovinos em confinamento, por exemplo, bebem, em média, 8 litros diários.

Para que os animais estejam livres de desconforto, o aconselhável é a adequação das instalações dos centros de manejo, com bretes de largura compatível com a espécie. “Uma estrutura específica para os ovinos, e não a utilização do mesmo espaço que existe para os bovinos, como percebemos muitas vezes nas propriedades, é mais confortável e facilita o manejo para quem está trabalhando”, detalha Marina. A manutenção de locais sombreados ao alcance do rebanho também é importante para oferecer mais conforto. Se não houver árvores, consideradas como ideal nesse caso, o recomendável é a instalação de abrigos com toldos.

Para prevenir dor, lesão e doença, que representam a terceira liberdade, a especialista orienta que os produtores conheçam os sintomas das principais enfermidades que acometem a espécie. Mais uma vez, o destaque vai para a importância de um bom planejamento nutricional. “Um animal bem nutrido terá menos doenças. Da mesma forma, um cordeiro que nasce com uma boa condição corporal e com reserva de energia satisfatória, tem chances maiores de sobrevivência”, analisa.

Marina ainda chama a atenção para o aumento do ataque de cachorros, que tem provocado perda de ovinos por lesões graves. “Identificamos alguns fatores que acentuaram a situação, como a grande quantidade de animais abandonados e os cães ferozes que são utilizados na caça aos javalis e acabam se perdendo dos donos”, alerta.

Para além dos limites da propriedade, o bem-estar envolve também cuidados no transporte para o abate. A densidade de carga recomendada varia conforme o peso. Por exemplo: para ovinos com média de 20 kg, o ideal são sete cabeças por metro quadrado. Para exemplares com peso médio de 60 kg, a quantidade passa a ser três animais por metro quadrado. Como orientações gerais, o transporte deve ser feito em veículo limpo e em boas condições de uso, e nos horários mais frescos do dia. Deve-se evitar longas distâncias e não embarcar animais que estejam cansados, machucados ou doentes.