Entrevista do Mês

Força total no Campo

Esse é o slogan da nova diretoria da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, encabeçada pelo presidente eleito Rivaldo Machado Borges Jr. Diferente de três anos atrás, eleição foi tranquila, ocorreu com chapa única. Veja os planos do criador para uma das maiores entidades de pecuária do mundo.

Revista AG – A última disputa à presidência da ABCZ foi bem acirrada, você já esperava uma eleição de chapa única?

Rivaldo Machado Borges Jr – Eu esperava, até porque fizemos uma gestão muito aberta e proativa. Fizemos a gestão ‘ABCZ de A a Z e para todos’. Também abrimos um contato muito grande com a oposição, porque eu acho que, quando há oposição, é ruim para o associado e também para a pecuária. Eu já tenho uma tradição muito grande na pecuária. Já fui presente do Sindicato Rural de Uberaba por 12 anos e vice-presidente da Federação de Agricultura de Minas Gerais por outros 14 anos. Meu avô começou a criar Gir e Nelore em 1906 e damos continuidade a esse trabalho. Eu trabalho com a raça Nelore e já somos a terceira geração, comple tando 113 anos de história.

Revista AG – Durante esses três anos de mandato de Arnaldo, realmente vimos uma ExpoZebu com público maior. Seria esse o sinal de um tempo para o zebu puro de origem?

Rivaldo Borges – Acredito que sim, até pela conduta que tivemos nessa gestão. Estou com o Arnaldinho desde a gestão passada. Essa conduta em abrir a ABCZ para todos, tirou um pouco daquela visão eletizada da ABCZ. A pecuária é formada por um grande grupo de pecuaristas. Com essa abertura, essa liberdade, o público sentiu-se à vontade para participar da ExpoZebu novamente. O zebu, por si só, está tendo um crescimento sustentável ao longo desses anos.

Revista AG – Você teve uma participação direta na reformulação da feira?

Rivaldo Borges – Todos tivemos uma participação importante, onde cada um fez a sua parte. A minha era a área administrativa e o PróGenética. Na área administrativa, conseguimos melhorar a receita da ABCZ e trouxemos a primeira agência agro ao parque, após dois anos de negociação com o Banco do Brasil. Só é correntista nela quem é produtor rural. Conseguimos também, paralelamente à Expozebu, trazer uma feira de máquinas ao pequeno produtor. Por eu fazer parte do sistema sindical, a primeira assinatura do Arnaldo com uma parceira forte foi junto à CNA. Foi construído um prédio dentro do parque com a intenção de aproximar as duas entidades. O grande mérito foi o Pró-Genética, inaugurado em 2006, direcionado ao pequeno produtor. Como fui presidente do Sindicato Rural por muito anos, sou bem relacionado em Minas Gerais e também em outras federações. Conseguimos fazer o programa saltar a presença em oito Estados para 23, levando para dentro dos sindicatos um dia de feira para atender as demandas dos pequenos pecuaristas, que, muitas vezes, não têm acesso à genética melhoradora. Nós temos, hoje, 4,3 milhões de pequenos produtores. Desse total, 3,6 milhões são pequenos pecuaristas e, em sua grande maioria, não tem acesso a essas tecnologias. Nossa intenção é levar o Pró-Genética a todos os estados da federação. Devemos encerrar 2019 com um total de 101 feiras e leilões chancelados pelo programa. O progra ma está ajudando a revolucionar o mercado da bovinocultura. Hoje, muitos desse produtores ainda utilizam touros ‘ponta de boiada’ no rebanho, animais sem genética alguma. Agora, quando ele introduz genética PO, sua lucratividade é aumentada consideravelmente. Ele passa a vender bezerro de R$ 800 por mais de R$ 1.500,00. Até hoje o Pró-Genética comercializou cerca de 30 mil animais.

Revista AG – Em relação à seleção genética do gado PO é possível dizer que o zebu está mais baixo?

Rivaldo Borges – Não. Há controvérsias quanto a isso. Nos temos diversos criadores de zebu no Brasil. Tem muitas pessoas que fazem acasalamento pelo programa de avaliação genética. Tem gente que usa programa e também quem olha o fenótipo do animal, que é o meu caso. Tem rebanho em que, às vezes, os animais têm os membros mais curtos, mas a história não é bem por aí. Ele tem de ser equilibrado, um 50/50, ou seja, 50% de costela (que seria do osso lombar até o umbigo) e 50% de pernas (da barriga aos cascos). No Brasil, onde temos grandes áreas extensivas, o animal tem de ter perna. Não quero dizer que tenha de ser pernalta e, sim, que ele deve ser equilibrado. O animal que buscamos dentro da ABCZ é o animal 50/50, que seja equilibrado, tenha boa avaliação genética e boa avaliação fenotípica.

Revista AG – Em relação ao melhoramento genético de zebuínos, você defende que CEIP e PO devem ficar em lados opostos da balança ou podem coexistir em prol de uma pecuária mais eficiente?

Rivaldo Borges – Como o PO foi construído em cima da genealogia, temos uma base muito grande . Hoje, é possível avaliar o pedigree do animal, se não me engano, até a quinta geração, observando o que foi produzido desde lá de trás. Acredito que o PO está anos luz na frente do CEIP, em função de todo o trabalho realizado ao longo dos anos. Já no CEIP, é comum o gado passar por uma avaliação genética, onde são eleitos os melhores e se começa a reproduzir através disso. No PO, você vê a árvore genealógica e consegue fazer uma seleção baseado nisso. Desde a época do meu avô, trabalhamos sempre pensado nisso. Quem faz acasalamento na minha fazenda, há 16 anos, é o Arnadinho. Muitos me perguntam porque o levo, sendo eu neto e filho de pecuarista. Simplesmente porque ele tem conhecimento. O PO é feito dentro de conhecimento ao longo desses anos, das inúmeras exposições, com a eleição de animais que representam melhor a raça. Agora, no outro (CEIP), não. O rebanho filho desses animais que foram cruzados com uma vaca comum, que vêm melhorando ao longo dos anos, mas não tem a genética do PO. Se botar numa balança, o peso do PO é muito maior, porque ele tem história construída pela genética, um trabalho que começou no olho de muitos pecuaristas, desde que a subespécie zebuína foi introduzida no País. Um animal que foi trabalhado dentro de cada propriedade, acompanhado pelo técnicos da ABCZ ao longo de muitos anos. Então, essa é a grande diferença. Pode ser que, um dia, o CEIP alcance isso, mas, na minha visão, o que tem base, o que tem raiz, é o PO. Não tenho nada contra o CEIP, mas eu não trocaria um touro PO por um touro CEIP. Cada um representa um trabalho diferente.

Revista AG – Aproveitando o gancho, o PMGZ passou por importantes mudanças nos últimos anos. Quais foram as principais e o que ainda estaria por vir?

Rivaldo Borges – Nós acabamos com o índice Top e passamos para o índice Deca, porque o Top valorizava apenas um único animal. Já o Deca gera a oportunidade para os grupos de melhores animais. O Deca 1 pega os 10% melhores animais, então, trata-se de um índice mais democrático. Porque a diferença de um animal Top 1% para o Top 10 é insignificante. Acho que o Deca veio para democratizar e valorizar mais a raça. Outra mudança importante no PMGZ foi a introdução da genômica. Um índice está sendo agregado ao programa. Eu vejo que os programas de avaliação vêm melhorando ano a ano. Não podemos dizer que a melhor opção é só o programa sozinho. O fenótipo deve trabalhar junto com ele. Estamos com a meta de fechar o ano com 90 mil animais genotipados e estamos fazendo uma programação para chegar a mais de 300 mil. Está sendo feito por meio de uma parceria com a Embrapa, gerando números importantes para ganho de peso, de carcaça e de leite.

Revista AG – Mas optando pelo Deca o Top 0,01% não é ‘penalizado’?

Rivaldo Borges – Não penaliza o Top 0,1% ou Top 1%. A diferença é muito pequena, segundo o pessoal da área técnica. Então, o Deca veio para democratizar. Se é muito ínfima a diferença de um boi para outro, por que vamos desvalorizar um animal? O Deca pega os dez por cento melhores. Se pôr numa balança, é mais ou menos equilibrado, do primeiro ao décimo. O Top, às vezes, estava sendo injusto para os animais.

Revista AG – Mas não prejudica aquele animal que antes era líder Top 0,1% e agora possou a ser apenas Top 1%?

Rivaldo Borges – Não. O Top 1% são os 10 primeiros melhores avaliados. O Top 2% são os 20 primeiros animais avaliados, os Top 3% os 30 melhores avaliados... por isso que falo de uma coisa mais equilibrada, que não vai glorificar um animal somente. Tem outros animais visualmente, paralelamente, iguais ao outro. Democratizou no sentido técnico, colocou eles no mesmos patamar.

Revista AG – Falando agora da ABCZ como defensora do pecuarista, acredita que a associação perdeu um pouco sua representatividade nessa questão ou avalia que o envolvimento atual está satisfatório?

Rivaldo Borges – Essa pergunta é muito boa. A ABCZ não foi tão presente, ela participou. Em nossa gestão, ela vai ser muito presente, porque, como venho do sistema sindical, tenho essa cultura de defender o produtor. E pelo fato de a ABCZ representar a espécie que forma mais de 80% do rebanho nacional, que é o gado zebu ou azebuado, ela tem por obrigação defender o interesse da pecuária nacional. Precisamos estar em Brasília discutindo o preço do leite, da carne, as questões políticas, tentando gerar mais oportunidades de crescimento. Vemos muita coisa acontecendo e temos de bater de frente. A gestão atual já está fazendo isso, mas acho que nossa participação será muito boa. Estaremos sempre em Brasília, no Mapa, perante o governo, trabalhando em prol da pecuária nacional. Da pecuária e da agricultura também, pois uma depende da outra. Estamos criando um projeto junto à Embrapa que ainda não foi sacramentado, chamado Integra Zebu, um programa de integração lavoura-pecuária. Hoje, mais de 70% das pastagens estão degradadas só em Minas Gerais. A genética ‘entra pela boca’ também. Em nossa gestão, teremos essa visão macro. Isso também dará um equilíbrio à natureza. A grande maioria está preocupada em preservar. Então, quando se produz mais com menos, você está protegendo mais a natureza. Sobre essa barbaridade que os europeus e outros estão dizendo do Brasil, que somos degradadores da natureza, na verdade, quem está incendiando a Amazônia são extrativistas de madeira e pedras preciosas. Há algum pecuarista também, mas por trás disso há uma gama de exploradores que não são realmente produtores e isso acabou recaindo sobre a agricultura e a pecuária. Nós temos 76% das nossas áreas nativas. Nenhum outro país tem isso. Agora, é inadmissível ouvir essa barbaridade lá fora. Acho que é aí que a ABCZ entra, nessa defesa, nessa luta, mostrando a verdade. Outra meta é pulverizar cada vez mais o gado PO para todos produtores, independentemente de seu porte. Temos em torno de 23 mil sócios na ABCZ, de todos os tamanhos, e todo eles têm de se beneficiar desse trabalho.