O Confinador

MANEJO SANITÁRIO

Rotina de rondas sanitárias é fundamental para identificar risco de doenças em confinamentos

*Por Ingo Mello

Com o setor aquecido, confinamentos em todo o Brasil seguem com boas perspectivas de crescimento: tendências de valorização da arroba, aumento na oferta de grãos e nas exportações de carne, além de maior segurança em rastreabilidade, sanidade e bem-estar animal. Conforme dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), em 2018, a média de rentabilidade do confinamento no Brasil foi de 5,6% e pode atingir 9% em 2019, cenário que contribui para perspectivas ainda mais otimistas. No ano passado, foi registrado um crescimento de 6,9% no número de abates, total de 44,23 milhões de cabeças.

cabeças. Dessa forma, também houve crescimento no volume de carne bovina produzida, com um total de 10,96 milhões de to MANEJO SANITÁRIO neladas equivalente carcaça (TEC), 12,8% acima de 2017. Do montante, 20,1% foi exportado e 79,6%, destinado ao mercado interno, responsável por um consumo per capita de 42,12 kg/ano. O crescimento no número de abates e na produção de carne ocorreu paralelamente à queda de 1,6% na área de pastagem, para 162,19 milhões de hectares, com um rebanho estimado em 214,69 milhões de cabeças (ABIEC, 2019). Os confinamentos participaram com 5,58 milhões de cabeças abatidas (12,6% do abate total).

A pecuária de precisão, bem representada pela maioria dos confinamentos, segue em consonância com as tendências de consumo atual, influenciada por setores cada vez mais exigentes, com crescimento verificado do consumo consciente em todo o mundo, e tal fato requer que a cadeia produtiva entenda os vetores modernos da sociedade: justiça social, responsabilidade ambiental, sustentabilidade, bem-estar animal, saúde, higiene, rastreabilidade, segurança alimentar, certificação e rótulo.

Atualmente, existem diversos programas e selos para carnes premium no Brasil e no mundo, com ótima recepção pelo mercado, e todos movidos por conceitos que se ampliam com o passar dos dias. Mais informado e conectado, o consumidor segue cada vez mais exigente por processos auditados e cobra para que as empresas ajam com transparência, municiando o mercado com informações mais seguras.

Do ponto de vista das garantias de sanidade animal, há, pelo menos, quatro modelos de confinamento que podem ser classificados em relação à origem dos animais que serão confinados e que devemos considerar riscos sanitários distintos para definição das estratégias de manejo sanitário, para maior segurança epidemiológica e produtiva:

Sistema 1: Animais que foram criados e manejados em ciclo completo na mesma fazenda onde serão terminados e confinados. Nesse modelo, os animais podem ser padronizados antecipadamente e com segurança quanto ao histórico sanitário, o que facilita a hierarquização dentro dos lotes, reduzindo sodomia, diminuindo as lesões de casco e facilitando a adaptação dos animais. Permitem identificar quais vacinas e vermífugos já foram utilizados, as datas de manejos sanitários e os riscos reais para cisticercose bovina. Dessa maneira, é possível definir um protocolo sanitário no manejo de entrada no confinamento que seja mais assertivo e justo.

Serão necessários os seguintes manejos: vermifugação com produtos de amplo espectro de ação, alta eficácia e com período residual curto (ex.: associação de ivermectina 0,8% com sulfóxido de albendazole 10% ou eprinomectina). Nesse caso, as vacinas podem ser feitas com apenas uma dose (ex.: raiva e clostridiose), desde que no sistema de manejo anterior os animais tenham sido bem vacinados (dose + reforço).

No caso no qual há incidência de cisticercose bovina, é possível iniciar o tratamento dos animais antes de confinar com duas vermifugações (sulfóxido de albendazole 10%), com intervalos de 30 dias e uma última dosificação (3ª dose) na entrada do confinamento. Em situação de controle de carrapatos, moscas e bernes, também é possível definir um protocolo de controle de parasitas que permita limpar os animais antes de entrarem no confinamento, por meio de associações carrapaticidas (organofosforados com piretróides, abamectina com fluazuron ou fipronil com fluazuron).

Sistema 2: Animais recriados e terminados na mesma fazenda onde serão confinados. Nesse modelo ainda é possível padronizar com segurança o histórico sanitário dos animais, seguindo as mesmas premissas do Sistema 1.

Sistema 3: Animais comprados de diferentes origens (outras fazendas), que são adaptados em semiconfinamento e terminados em confinamento. Nesse modelo ainda é possível padronizar com segurança o histórico sanitário dos animais, seguindo as mesmas premissas do Sistema 1.

Sistema 4: Animais comprados de diferentes origens (outras fazendas) e que serão confinados imediatamente após o desembarque. Nesse sistema, não há uma padronização sanitária adequada dos animais. Os riscos sanitários são grandes para diversas enfermidades.

Os animais não serão capazes de estabelecer suas relações sociais antecipadamente, os riscos de refugo de cocho são evidentes, há mais casos de pneumonia, sodomia e pododermatites. Outros dois riscos comprometedores são o de não realizar os reforços vacinais e não efetuar o controle adequado da cisticercose bovina, levando ao aumento das taxas de mortalidade e prejuízos ao abate.

Cada um dos sistemas de manejo ante riormente descritos necessita de protocolos sanitários diferentes, mas a base continua sendo: vermifugação de entrada + vacinação contra clostridioses e contra raiva (nos sistemas 3 e 4 serão necessários, pelo menos, um reforço vacinal).

Outra grande preocupação, quando os animais já estão confinados, são as enfermidades. A taxa de mortalidade média nos confinamentos nacionais está estimada em 0,21% (21 animais morrem a cada 1.000 confinados), mas a taxa de morbidade é bem mais impactante, resultando em tratamentos e manejos extras para contenção dos animais doentes (Baptista et al., 2017). Os principais riscos sanitários para os animais confinados podem ser listados da seguinte maneira:

1. Verminoses: vermes gastrintestinais e pulmonares, vermes redondos, vermes chatos e cisticercose bovina. Eles podem estar presentes em 100% dos animais que serão confinados, e a cisticercose bovina pode variar de ausente até com taxas superiores a 5%, resultando em grandes prejuízos para os produtores (Mello, 2007);

2. Pneumonias (DRB – doença respiratória bovina): infecções primárias (bacterianas ou virais), secundárias por anemia/amarelão (Tristeza Parasitária Bovina: hemoparasitas anaplasma e babesias) ou por clostridioses (Clostridium perfringens type D-enterotoxemia). A prevalência média da DBR em confinamento é de 6,13% (aproximadamente 61 animais doentes para cada 1.000 confinados) (Baptista et al., 2017);

3 Clostridioses: carbúnculo (manqueira), gangrena gasosa, enterotoxemias, morte súbita, botulismo, tétano, hemoglobinúria bacilar etc;

4. Intoxicações: polioencefalomalácia;

5. Pododermatites ou frieiras;

6. Parasitas externos: carrapatos, bernes e moscas;

7. Anemia ou amarelão: anaplasmose, babesiose ou outras hemoparasitoses;

8. Acidose ruminal e Laminite;

9. Timpanismo ou empanzinamento;

10. Traumas decorrentes de acidentes.

Vacas confinadas com pelo arrepiado: surto de clostidioses (enterotoxemia) com 0,4% de mortalidade

As pneumonias (DRBs) podem estar associadas ao estresse do transporte e manejo de chegada dos animais ainda não adaptados. Muitos dos que são comprados chegam desidratados das longas viagens e com a imunidade comprometida, o que predispõe as DRBs.

Poeira de inverno predispõe a ocorrência de DRBs

O período de incubação da doença pode ser de duas a três semanas, por isso o pico de animais com DRBs se dá ao redor da terceira semana de confinamento (Vechiato et al., 2014). As grandes amplitudes térmicas durante o inverno (dias quentes e noites frias) e a poeira característica do período de baixa humidade contribuem para a redução da imunidade do aparelho respiratório e a presença de fatores predisponentes.

Confinamento no período chuvoso aumenta os riscos de pododermatites

Os casos de DRB devem ser controlados com marbofloxacino a 20%. A taxa de cura é de 92% com apenas uma dose, baixando rapidamente a febre e curando os animais que voltam a se alimentar e recuperam o peso do lote (Elsen Saut et al., 2019).

As pododermatites (frieiras e lesões nos cascos) são frequentes em animais confinados, estando relacionadas a lesões provocadas durante o transporte e manejo de curral na chegada dos animais. Alguns acabam manifestando lesões de casco durante o período confinado e, nesse caso, estão associados às condições ambientais (umidade excessiva e pedras), altas lotações com disponibilidade inferior a 10 m²/boi nas águas, sodomia, brigas (dominância e hierarquia) ou competição de metragem de cocho (ideal> 0,40 m de cocho/cabeça).

Pododermatites podem ser tratadas através do casqueamento curativo, antibióticos (ceftiofur a 10%) e anti-inflamatórios (meloxicam 2%), sendo a taxa de cura superior a 90%, em apenas 15 dias, reduzindo rapidamente o edema e promovendo a rápida reepitelização.

Nos casos da polioencefalomalácia (PEM), quando o animal fica desorientado, com dificuldades para andar e cego, se não tratado imediatamente, a taxa de mortalidade pode ser de 0,2% e o estado de conservação e armazenagem dos alimentos que compõem a dieta deve ser avaliado quanto à presença de micotoxinas. A PEM deve ser tratada com fosfato sódico de dexametasona a 0,2%, associando a vitamina à tiamina (vitamina B1), assim os animais se recuperam e voltam.

Em muitos confinamentos foram relatados casos de anemia/amarelão (Tristeza Parasitária Bovina: hemoparasitasanaplasma e babesias), principalmente no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, mas acredita-se que a doença ocorra nos demais estados, sendo confundida com outras enfermidades, portanto, subnotificada. Nos confinamentos, onde há confirmação de anemia por hemoparasitas, é necessário prevenir a ocorrência com dipropionato de imidocarb a 12%.

É fundamental capacitar os funcionários que cuidam dos animais para identificação de casos suspeitos de enfermidades. Adotar um sistema de vigilância por meio de rondas sanitárias de rotina e registro das ocorrências é a base para prevenção e tratamento de diversas doenças, reduzindo-se os prejuízos com mortalidades e tratamentos tardios. *

Modelos de rondas sanitárias que podem ser realizadas periodicamente

*Ingo Mello é médico-veterinário e gerente técnico da Ourofino Saúde Animal