Escolha do Leitor

Heterose x heterozigose: existe diferença?

A estratégia de cruzamento industrial a ser adotada vai depender, principalmente, dos objetivos do sistema de produção, além, é claro, do tipo de produto requerido pelo mercado

*Juliana Santin e **Liziana Rodrigues

A pecuária de corte brasileira tem se destacado internacionalmente, mas ainda estamos aquém da capacidade potencial de produção. Com isso, cada vez mais, os pecuaristas estão se aperfeiçoando, em busca por animais zootecnicamente superiores, impulsionado o uso de ferramentas de seleção e melhoramento genético com o objetivo de aumento da produtividade e qualidade da carne. Assim, é importante entender os conceitos utilizados em melhoramento animal para se orientar nas escolhas e direcionar a seleção.

Muitos termos técnicos utilizados no melhoramento genético ainda geram dúvidas e confundimentos, mesmo para profissionais. Um exemplo são os termos heterose e heterozigose, que, apesar de serem conceitos muitos distintos, geram dúvida em seu uso e aplicação. Mas o que é heterose? É a mesma coisa que heterozigose?

Heterose
Utiliza-se o termo heterose, ou vigor híbrido, para caracterizar a superioridade média dos filhos em relação à média dos seus pais, independentemente da causa. O termo também se aplica ao fenômeno no qual a descendência de acasalamentos entre linhagens consanguíneas, ou entre populações de raças puras, apresenta desempenhos superiores à média das duas populações, excedendo a melhor destas. Alguns autores referem-se à heterose como o aumento do vigor da progênie em relação ao dos pais, quando indivíduos não aparentados são acasalados.

Resultados de heterose, em diferentes espécies animais, têm evidenciado que o nível de heterose é inversamente proporcional à herdabilidade da característica. Assim, em bovinos, a heterose é de pequena magnitude para as características de crescimento pós- -desmama, eficiência de conversão alimentar ou composição da carcaça, que são de herdabilidade alta. Por outro lado, níveis mais altos de heterose são relatados para características de baixa herdabilidade, como fertilidade, sobrevivência e outras características relacionadas com a reprodução.

Isso quer dizer que as características do animal dependem muito mais do ambiente do que da própria genética.

A heterose também depende das diferenças genéticas entre as raças que estão sendo utilizadas. Isso quer dizer que quanto maior a distância genética entre as raças, maiores serão os benefícios da heterose.

Diversos fatores podem afetar a heterose, como, por exemplo, o nível de heterozigose materna e individual, a distância entre as raças envolvidas, a frequência gênica específica presente nos animais utilizados e as interações com o ambiente.

Tipos de heterose
A literatura descreve a existência de três tipos de heterose: individual, materna e paterna. A primeira aplica-se a um animal individualmente em relação à média de seus pais, através do aumento de sua produtividade e vigor, sendo função das combinações gênicas presentes na geração corrente e não de efeitos paternos e maternos.

A heterose materna manifesta-se na população por meio de efeitos da utilização de fêmeas cruzadas ao invés de puras. Já a heterose paterna refere-se a qualquer vantagem na utilização de cruzados ao invés de reprodutores puros sobre a performance da progênie. Importante salientar que tanto a heterose paterna como a materna são funções de combinações gênicas presentes na geração anterior.

Heterozigose
Já a heterozigose é um conceito estatístico que define qual a probabilidade de que os alelos de um determinado locus provenham de raças distintas. Assim, ao se cruzar animais da raça Nelore com animais da raça Angus, a heterozigose é de 100%, pois 100% dos genes estão vindo de raças diferentes puras. O mesmo se pode dizer ao cruzar animais da raça Nelore com animais da raça Tabapuã.

Liziana explica que heterose e heterozigose são conceitos distintos e não podem ser confundidos

No entanto, a heterose desses dois cruzamentos é muito diferente. Lembrando que a heterose consiste no quanto melhor é o desempenho dos animais F1 com relação ao desempenho dos pais de raça pura.

Por exemplo, considerando o peso ao desmame, o Nelore tem um peso médio de 180 quilos, e o Angus, de 250 quilos. Fazendo uma média das duas raças, chega-se a 215 quilos de peso ao desmame. No entanto, os animais F1 desse cruzamento têm um peso ao desmame de 250 quilos, devido à heterose. Assim, fazendo a diferença entre o peso dos animais F1 em relação à média dos animais parentais, temos: 250 - 215 = 35 quilos. Ao dividir esse valor pela média dos pais, chega- -se ao valor da heterose em porcentagem: 250 - 215 = 35/215 * 100 = 16% de heterose

Lembrando que a raça Nelore é zebuína e a Angus é uma raça britânica, de forma que são animais geneticamente mais distantes do que no caso do cruzamento de Nelore com Tabapuã, que também é uma raça zebuína.

Assim, considerando o peso ao desmame de 180 quilos para o Nelore e de 210 quilos para os animais da raça Tabapuã, temos uma média de 195 quilos. Considerando que os animais F1 tenham um peso médio ao desmame de 220 quilos, temos:

220 - 195 = 25/195 * 100 = 12,8% de heterose.

Assim, mesmo nos dois casos havendo 100% de heterozigose, a diferença na heterose é determinada pela maior distância genética entre as raças parentais. Esse ponto é o responsável pela heterose muito maior que existe quando cruzamos uma raça zebuína e uma taurina do que quando realizamos cruzamentos entre zebuínas ou entre taurinas. Entre taurinas, observa-se heterose maior em um cruzamento entre britânica e continental do que em cruzamentos dentro desses subgrupos mais próximos

A heterose é diretamente proporcional à heterozigose, ou seja, quanto maior a heterozigose, maior a heterose. Mas vale ressaltar que o valor da heterose nunca alcançará 100%, pois isso significaria um animal F1 com peso ao desmame de 390 kg no caso do cruzamento entre Nelore e Tabapuã, ou seja, o dobro da média dos pais.

A relação entre heterozigose e heterose depende da importância dos diferentes tipos de ação gênica não aditiva: dominância, sobredominância e epistasia (alelos de um gene que inibem a ação dos alelos de um outro par, que pode ou não estar no mesmo cromossomo).

A linearidade entre heterozigose e heterose, em características determinadas por vários loci, ocorre quando a dominância é a principal causa da heterose. Isso porque, em geral, a maioria das mutações são recessivas, e os genes recessivos têm mais efeitos desfavoráveis do que favoráveis, notadamente para as características favorecidas pela heterose: viabilidade, sobrevivência, fertilidade etc. Por outro lado, os genes dominantes, em geral, têm efeitos favoráveis, embora não se pode generalizar a afirmativa de que geram vigor, enquanto que os recessivos tendem a reduzi-lo.

Efeitos de cada uma nos acasalamentos

Os efeitos e os benefícios da heterose e heterozigose são observados no acasalamento. As estratégias de cruzamento que utilizam a combinação de indivíduos de raças diferentes visam à exploração da heterose e à complementariedade entre as raças.

Existem várias formas de cruzamento que tem como objetivo a maior eficiência na produção de carne. Entre elas, um dos mais utilizados é o cruzamento industrial, pois permite aproveitar os efeitos da heterose, utilizando as diferenças genéticas existentes entre raças puras, para obter os efeitos favoráveis da combinação de características nos animais cruzados, resultando na complementaridade das características e beneficiando a flexibilidade no sistema de produção.

O cruzamento industrial tem sido utilizado como uma ferramenta para trazer ganhos ao sistema de produção. A combinação entre taurinos e zebuínos são as mais utilizadas, visando a uma progênie de maior precocidade, desempenho e melhor qualidade da carne, entre outras vantagens.

Todas essas características contribuem muito para aumentar a produtividade da fazenda, bem como sua rentabilidade por hectare, aumentando a quantidade de arrobas produzidas por hectare, o número de animais desmamados e diminuindo o intervalo entre partos.

O tipo de estratégia de cruzamento a ser adotado vai depender, principalmente, dos “objetivos” do sistema de produção, além, é claro, do tipo de produto requerido pelo mercado.

Não há um “pacote” de cruzamentos que seja recomendável para todos os rebanhos e sistemas de produção. Antes da definição da estratégia de cruzamentos a ser implementada, é preciso uma análise das condições conjunturais, especialmente as econômicas.

Conclusão
O fenômeno real que se verifica na produção animal e que pode ser planejado é a heterose, e, portanto, ela é que deve ser o foco/objetivo de planos de otimização ou maximização de produção pecuária e de programas genéticos.

*Juliana é médica-veterinária e conteudista do EducaPoint **Liziana é doutora em Zootecnia e coordenadora de Conteúdo do EducaPoint