Sanidade

Fim dos abscessos

Indústria veterinária apresentada vacina aftosa sem saponina

Adilson Rodrigues
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O ano de 2017 chegava como uma bomba à pecuária brasileira, pois, no dia 22 de junho, o secretário de Agricultura dos Estados Unidos, Sonny Perdue, anunciava o embargo à importação de carne bovina de origem brasileira. O motivo: a reprovação em testes de qualidade que identificariam abscessos causados por reações à vacina antiaftosa.

Passado pouco mais de dois anos do episódio, a indústria brasileira realizou encontro em São Paulo, no dia 18 de setembro, para apresentar, oficialmente, uma nova vacina aftosa, agora com frasco reduzido de 5 para 2 ml. Isso soou como música, porque se diminuiu a quantidade de adjuvante à base de óleo e eliminou-se a saponina, substância a qual se atribui a formação das reações vacinais.

Sindan reuniu pecuaristas, indústria e consultores para fazer o lançamento

“A indústria fez um grande investimento para desenvolver uma vacina mais fácil de utilizar, com menor volume de óleo e que provoca menos reação no animal”, comemora Elcio Inhe, presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan). Foram investidos cerca de US$ 17 milhões apenas para validação da vacina, sem computar os gastos individuais dos oitos laboratórios envolvidos na produção de vacina antiaftosa no Brasil.

Decisão sábia, mesmo que tardia, pois nossos vizinhos, a exemplo do Uruguai, já imunizavam o rebanho com vacina bivalente de 3 ml. “Um coisa é você vacinar um rebanho com 11 milhões de cabeças e outra é imunizar um plantel superior a 200 milhões, mas julgamos que a decisão do Mapa foi tomada no momento mais adequado”, defende Emílio Salani, vice-presidente do Sindan.

A indústria necessitava da ordem do Ministério da Agricultura para alterar as propriedades do medicamento, que veio apenas em 2017. Em relação ao preço a nova vacina não é mais cara, mas também não ficou mais barata. Em média, o pecuarista continua desembolsando, aproximadamente, R$ 1,20 por aplicação. As 220 milhões de doses aplicadas na campanha de maio deste ano já eram da versão 2 ml, sem saponina. Além disso já foi bivalente (vírus O e A), conforme determinação do próprio Mapa no ano passado.

Eliminação da saponina não basta

É importante frisar que a eliminação da saponina por sí só não resolve o problema dos abscessos, pois o pecuarista também necessita fazer a sua parte, como explica Fabricio Bortolanza, coordenador da Comissão de Aftosa do Sindan.

“Em relação à baixa reatogenicidade, visualmente, acho que a questão está solucionada, do ponto de vista dos 50% do problema que cabe à formulação da vacina. Isso não exclui a necessidade das boas práticas de vacinação, que seriam responsáveis por resolver os outros 50%”, adverte Bortolanza.

Ou seja, nada de afiar agulha na pedra ou assoprar; também é recomendável trocá-la, pelo menos, a cada dez aplicações, conforme indica a Embrapa. Com “visualmente”, o coordenador refere-se àquilo que olhos conseguem enxergar. Quanto às reações vacinais internas, o resultado será comprovado apenas no abate dos animais vacinados em maio, o que deve ocorrer somente entre 2020 e 2021.

Segundo ele, a presença de um pequeno granuloma é desejável como reação em vacina oleosa, pois mantém o status imunitário do animal até um período de seis meses, no entanto, não pode ser confundido com abscesso.

Como foi para o pecuarista

A nova vacina chegou a preocupar a Associação dos Criadores do Mato Grosso (Acrimat), em relação a como os pecuaristas reagiriam à novidade. A entidade informou a alteração aos associados e também monitorou as propriedades durante e após a vacinação.

“Já se passaram cinco meses da campanha e notamos que o número de ocorrências caiu a quase zero”, relata Daniella Bueno, diretora-executiva da Acrimat. Também colabora para a redução de problemas o fato de a vacina de 2 ml causar choque mais curto de aplicação, o que o Sindan está chamando de “seringabilidade”.