Genômica

A genômica nas raças “menores”: um caminho possível (Parte 1)

José Fernando Garcia Médico-veterinário, professor, pesquisador e consultor (UNESP e AgroPartners) [email protected]

O Brasil possui vocação para a produção de carne bovina com qualidades e quantidades que o mercado consumidor demandará cada vez mais daqui em diante. Para dar conta desse desafio, pastagens melhoradas, integração lavoura-pecuária, aplicação de programas sanitários e nutricionais, além do uso de tecnologias reprodutivas, levaram o País a um avanço muito grande nas últimas décadas. Essa plataforma tecnológica foi sendo construída e testada com diversas raças bovinas e seus cruzamentos.

Um possível agrupamento das raças de corte existentes hoje, no Brasil, poderia ser assim constituído para efeito de nossas análises: zebuínos, taurinos e compostos. No grupo dos zebuínos, a maior raça é a Nelore, tanto no âmbito da quantidade de animais participantes de programas de melhoramento e associações de raça quanto no número de matrizes comerciais que possuem grande porcentagem de genética Nelore em seus genomas. A rusticidade, aliada à produtividade, fez do Nelore uma unanimidade nacional.

Entretanto, esse posto começou a ser ameaçado na última década com o crescimento estratégico da raça Angus através do uso da inseminação artificial de vacas Nelore (ou aneloradas) com touros dessa raça, gerando o que genericamente denominamos de “F1”. Essa foi a solução rápida, barata e possível para produzir a tão buscada “carne de qualidade” em condições brasileiras, nas quais o calor e o carrapato são desafios para uma raça pura como a Angus. Hoje, no Brasil, são vendidas mais doses de sêmen da raça Angus do que qualquer outra, inclusive Nelore.

Essa posição da raça Angus deve-se aos consideráveis esforços pioneiros realizados nos Estados Unidos para a incorporação dos dados genômicos ao seu tradicional programa de avaliação genética, tendo atingido, hoje, sucesso considerável na geração de DEPs genômicas com elevada acurácia, inclusive para fenótipos como maciez, marmoreio e deposição de gordura. Hoje, é possível encontrar inúmeras opções de touros efetivamente selecionados para a produção da carne “F1”. Na raça Nelore, esse processo está um pouco atrasado, se comparado ao Angus, porém praticamente todos os programas de melhoramento genético da raça já começaram a genotipar seus animais e incluir as predições genômicas em suas rotinas.

Com a explosão do uso de sêmen de Angus para a produção de “F1”, outras raças zebuínas taurinas e compostas existentes no Brasil seguiram o caminho da genômica no melhoramento genético e começaram a aplicar essa tecnologia em seus rebanho. Destacamos o Angus brasileiro, o Hereford, o Bradforf, o Brangus e o Senepol.

Com genética de altíssima qualidade, selecionada ao longo de décadas, essas raças vêm investindo de forma consistente na coleta de fenótipos e genotipagem para a realização de predições genômicas, contando para isso com a ajuda de unidades da Embrapa (Pecuária Sul – Bagé e Gado de Corte – Campo Grande). Os maiores desafios dessas raças “menores” estão na superação de sua menor tolerância a ambientes quentes e úmidos e/ou do flagelo do carrapato. A genômica tem sido a esperança no enfrentamento desses problemas, e já é possível ver alguma luz no horizonte em futuro próximo, no qual DEPs genômicas para resistência a carrapatos já são calculadas para as raças Hereford e Bradford, e, em breve, estarão disponíveis para Angus e Brangus brasileiro. No âmbito da termotolerância, a raça Senepol traz uma vantagem intrínseca: a presença do alelo Slick, que lhe confere a capacidade de sobrevivência e produtividade em condições tropicais.

Na próxima parte deste artigo, discutiremos alternativas para acelerar o aumento da participação dessas raças “menores” no aumento da quantidade e da qualidade da carne produzida no Brasil graças ao uso combinado de genômica funcional e edição gênica. Aguardem!