Caindo na Braquiária

Chuva e genética de qualidade chegando em Rondônia

Havia quase 80 dias sem que a chuva desse as caras em Pimenta Bueno. Fora um inverno rigorosamente seco para os padrões dessa rica região do Norte do País, que tem como sua principal atividade a pecuária de corte e leite.

Passei a primeira semana de setembro com o veterinário Carlos Humberto Spinardi, visitando seletos criadores que não abrem mão de usar sêmen de touros provados através da técnica da IATF (inseminação artificial por tempo fixo), a fim de produzir bezerros cruzados que, não raramente, excedem 270 kg de peso aos oito meses de idade.

Essa performance é resultado de um manejo de pasto racional aliado ao cruzamento entre raças, técnica que tomou conta das propriedades que buscam agregar valor aos bezerros.

Nos encaminhávamos para a bem manejada fazenda de Donizete Picolli quando observei alguns “CBs” ou cumulonimbus à nossa direita. Essa formação de nuvens é prenúncio de chuvas fortes, sendo, na maioria das vezes, altas e em forma de bigorna, sempre se estendendo da linha do horizonte a grandes altitudes. São elas o terror dos aviadores.

Assim que chegamos à sede da fazenda, fomos recebidos por Picolli e sua esposa, Angélica, os quais passam a semana na propriedade, retornando à cidade de Pimenta Bueno nos finais de semana.

Picolli vem trabalhando com ciclo completo, comercializando apenas animais para o abate. Chamou a nossa atenção o uso das fêmeas cruzadas como matrizes, aproveitando a precocidade sexual das mesmas. No tocante ao manejo de pastagens, ficamos impressionados com a qualidade do capim para uma época do ano que, tradicionalmente, apresentava falta total dele. Picolli vem reformando os pastos com braquiária, tendo ainda algumas áreas mais antigas formadas com Mombaça.

Deixamos a propriedade do casal embaixo de uma chuva abençoada, após degustarmos um saboroso e macio bolo de milho feito por Angélica.

Amanhecia, naquela terça-feira, quando Paulo Massambani, inseminador da equipe de Spinardi, nos aguardava em frente à porteira da fazenda da família, de onde rumamos diretamente para a Fazenda Rondônia, de Nilton Negri, mais conhecido como“Niltinho da Skol”, apelido cunhado desde os tempos que cuidava, com os irmãos, da distribuição dessa marca de cerveja no estado de Rondônia.

Quando nos aproximamos da sede da fazenda, fomos recebidos por Nilton e seus pais, Francisco Negri e Lidia Stocco. Os mesmos chegaram a Rondônia na década de 1980 para colaborar na construção dessa região do Parecis. “Dona Lidia” nos aguardava com uma mesa de café da manhã de dar inveja a inúmeros hotéis nos quais já me hospedei.

Duas horas se passaram no curral para que os dois inseminadores da equipe de Spinardi, Paulo Massambani e Alex Silva, inseminassem as 120 vacas Nelore com Angus. Fiquei impressionado com a estrutura da vacada Nelore, resultado de uso de sêmen de touros provados nas melhores matrizes do rebanho, buscando repor sempre com Nelore de qualidade. São 18 anos de inseminação, resultando em peso das desmamas sempre muito acima da média da região. Outro manejo que resulta em ótimos índices de prenhez e peso dos bezerros é a administração de proteinado às vacas durante o ano todo.

Depois de almoçarmos na Fazenda Rondônia, seguimos para a Fazenda São José, propriedade do condomínio formado pelas quatro filhas do finado Jonas Silva Nunes também localizada no Parecis. Foi lá que vimos um dos melhores lotes de vacas da região. São 1.200 matrizes Nelore selecionadas através de um criterioso sistema de descarte implantado por Spinardi, o qual definiu o uso de Nelore provado nas novilhas e Angus nas vacas adultas. Com desmamas que beiram as [email protected], a Fazenda São José faz o ciclo completo, vendendo apenas animais para o abate.

Novamente, as mães dos bezerros comem proteinado durante o ano todo, não havendo necessidade de creep para os bezerros, já que os mesmos comem junto com suas mães a mesma ração delas. Foi com satisfação que nos despedimos, naquela tarde calorenta, de Marlene e Cida, duas das quatro irmãs proprietárias da São José, para retornar a Pimenta Bueno.

Eram 3h da manhã na Fazenda Jatuarana, propriedade localizada no belo Vale do Anari, quando Beto Spinardi estacionou a caminhonete em frente ao curral. Em poucos minutos, reparamos, ao longe, fachos de luz cambaleantes de duas lanternas. Ali vinha montado Durval de Paula, criador e proprietário da Jatuarana, e seu funcionário tocando as vacas que seriam inseminadas por João Figueiredo, inseminador experiente que presta serviço para Spinardi nas fazendas assistidas daquela região. Como a fazenda estava sem energia elétrica, sendo consequência da chuvarada da noite anterior, fomos obrigados a improvisar luzes com nossos celulares para que João, com a ajuda também do Felipe, colaborador da equipe do Beto na região, pudesse inseminar as 170 vacas.

Assim que clareou o dia, a equipe já havia terminado o serviço. Aí, pudemos tomar conhecimento do biótipo do gado, confirmando a grande estrutura e a ótima habilidade materna das vacas. Todas inseminadas com Angus, para que Durval venda 100% dos produtos pesados à desmama.

É sempre prazeroso visitar Rondônia, confirmando que é possível vermos a simbiose existente entre a pecuária e a preservação da natureza.

Alexandre Zadra - Zootecnista [email protected] Conheça www.crossbreeding.com.br