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Qualitas é a marca da eficiência alimentar a pasto entre os touros Nelore comercializados com Certificado Especial de Identificação e Produção (CEIP)

Adilson Rodrigues
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Assim como os demais programas de avaliação genética retratados até aqui, no especial da Revista AG, esta é mais uma história forjada em eficiência produtiva.

Nesses 25 de anos de existência, muita coisa aconteceu e muitas foram as transformações do Qualitas, que nem sempre teve esse nome. O início de tudo remete ao reconhecido trabalho do Núcleo de Zootecnia.

Em 1993, Leonardo Nishimoto Souza, um dos sócios atuais do Qualitas Melhoramento Genético, conheceu Fábio Martins Guerra Nunes Dias, que fora palestrar em um evento da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Goiás a convite do professor Gustavo Eduardo Freneau.

Fábio Dias havia visitado os EUA e trazia na bagagem a ideia de criar um novo Programa de Melhoramento Genético Quantitativo baseado nas avaliações genéticas BLUP, sigla em inglês para Best Linear Unbiased Predictions, ou Diferenças Esperadas na Progênie (DEP), como chamamos no Brasil.

Os planos concretizaramse em 1994, quando Fábio Dias fundou, por meio da sua empresa, o Núcleo de Zootecnia, o Programa de Avaliação e Identificação de Novos Touros (PAINT), sob encomenda da Lagoa da Serra – sem o afixo “CRV”, pois a central ainda não tinha sido adquirida totalmente pelo grupo holandês.

O PAINT estava sendo estruturado para seguir a normativa da Certificação Especial de Identificação e Produção (CEIP), também criado naquele ano pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Concomitantemente, Souza iniciava sua jornada no Núcleo de Zootecnia como estagiário de Medicina Veterinária, nos meses de agosto e setembro de 1995.

Logo o jovem talento agradou, e Souza fora contratado em definitivo para atuar no Núcleo de Zootecnia. Isso um ano antes da chegada ao projeto do zootecnista Alessandro de Caprio e do professor Henrique Nunes, da UNESP de Botucatu/SP, responsável pelas avaliações genéticas.

Reclamado pela Lagoa da Serra, Fábio Dias vendeu parte do Núcleo de Zootecnia para Souza e De Caprio, continuando sócio até 1998, ano em que se despediu da Lagoa para ser coordenador de pecuária da AgroCFM, de São José de Rio Preto/SP, desfazendose totalmente da sociedade.

Em 1999, Émerson Guimarães de Moraes completava o time, também por meio de um estágio, mas, dessa vez, de Zootecnia, sendo, em seguida, efetivado na empresa. Naquele ano, a sociedade no PAINT era desfeita, e, em 2000, nascia o programa Nelore Qualitas de Melhoramento Genético, com seis fazendas participantes e cerca de 4.000 matrizes em avaliação.

O projeto também contava com a mentoria do sulafricano Danie Bosman, responsável por dirimir os escores visuais de eficiência funcional e produtiva dos touros selecionados, um grande diferencial da época perante os demais programas de avaliação genética que estavam emergindo. Ainda hoje, o sulafricano é um colaborador imprescindível do Qualitas.

Ainda nos idos de 2000, definiase a importância de cada característica dentro do Índice Qualitas de Seleção (aquela equação que ranqueia os touros dentro do programa), sendo atribuídos valores de 20% para Peso de Desmama, 40% para Ganho de Peso da Desmama aos 15 meses, 20% para Perímetro Escrotal e 20% para Musculosidade. E até hoje assim permanece.

O Núcleo de Zootecnia passou a se chamar Qualitas Consultoria em Agronegócios. Neste momento, evoluindo para 15 criadores e 12.570 matrizes em avaliação.

No final de 2006, mesmo ano em que Alessandro de Caprio deixava a empresa, Souza afastase das atividades operacionais para coordenar o Bravo Beef, projeto de recria e terminação em confinamento da Fazenda Juscelândia, em Britânia/GO, retornando às atividades da Qualitas Consultoria em Agronegócios em 2008.

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O sul-africano Danie Bosman é o mentor das avaliações visuais do programa

A passagem de Souza pela Bravo Beef foi determinante para inserção de uma novidade na venda de touros Nelore CEIP: o teste de eficiência alimentar do Nelore Qualitas, baseado no Consumo Alimentar Residual (CAR), análise que há 30 anos já era utilizada pelos sulafricanos na raça Bonsmara.

Iniciado em 2010, com os números do programa saltando para 16.848 matrizes avaliadas, o projeto colocou os melhores 120 touros em teste pela primeira vez.

Realizado em baias individuais, com pesagem manual dos alimentos colocados nos cochos da Faculdade de Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal de Goiás (UFG), sob a tutela do professor Juliano Resende, a prova foi transferida para UNESP de Botucatu, em 2016.

Com estrutura mais moderna, passou a contar com os cochos da Intergado, um sistema de última geração para monitoramento computadorizado do consumo de alimentos e pesagens individuais diárias dos animais. O trabalho está a cargo do professor Josineudson Augusto II, que, juntamente com a professora Lúcia Galvão Albuquerque, também da UNESP de Jaboticabal, realiza as Avaliações Genéticas do Qualitas.

Ao final do Teste de Eficiência Alimentar, os 15 melhores touros são enviados para coleta de sêmen na Central Bela Vista para uso dos criadores participantes do Qualitas em suas vacadas. Na estação de monta 2018/2019, exatas 10.314 doses de sêmen desses reprodutores foram distribuídas entre os participantes.

“O Qualitas é pioneiro na venda de touros Nelore com CEIP provados para eficiência alimentar”, informa Leonardo Nishimoto Souza, sócioproprietário da Qualitas Consultoria em Agronegócios.

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Leonardo Souza e Émerson Moraes criaram no Qualitas o conceito “2020”, [email protected] aos 20 meses

“Atualmente, são mais de 20 touros com sêmen comercializado, com destaque a Faraó FVC, QLT King da Capivara, QLT Mandrake da Vale da Providência, QLT Napoleão da Almeida Prado e QLT Nióbio da Junqueira Franco, na Alta, QLT Montanha da Topgen na CRV Lagoa e QLT Nero da Agropontieri na Genex”, emenda Émerson Guimarães de Moraes, também sócioproprietário do programa.

Tendência Genética do Peso de Desmama Direto (Valor genético[kg]) x Safra [ano])

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Em 2013, os dois empresários criaram o Programa Qualitas Bonsmara, que possui cinco pecuaristas e 1.805 matrizes em avaliação. Esse programa segue os mesmos conceitos do Nelore e, a partir deste ano, tornase oficial da Associação de Criadores de Bonsmara do Brasil.

Tendência Genética do Índice Qualitas (Valor [pontos] x Safra [ano])

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Mas, dois anos antes, outro fato igualmente importante aconteceu. Em 2011, um estudo comprovou a evolução zootécnica dos rebanhos participantes do Qualitas desde seu início, com destaque às fazendas Capivara e Lagoa do Guaporé. Os resultados revelaram aumento considerável de peso e redução da idade de abate dos animais para 24 meses. Essa evolução não só aumentou a produtividade das fazendas, mas, principalmente, o retorno financeiro delas.

Desafio “2020”

A conclusão do estudo é um marco, porque coincidiu com um encontro dos proprietários do Qualitas com os idealizadores do “Boi 777” (7 arrobas na desmama + 7 arrobas na recria + 7 arrobas na terminação aos dois anos de idade), os professores Flávio Dutra e Gustavo Resende.

Entusiasmados com a prosa e embalados pela conclusão da pesquisa, propuseram alguns desafios a uma das fazendas participantes do Nelore Qualitas, a Agropontieri, de Goiatuba/GO, em 2012.

A primeira provocação foi sugerir a troca da terminação dos machos em confinamento pelo pasto com suplementação, principalmente a proteicoenergética. Souza e Moraes, então, inauguravam, no programa, o conceito “2020”, abate dos machos com [email protected] aos 20 meses de idade.

Com o confinamento da propriedade ficando vazio na seca, a estrutura passou a receber as bezerras submetidas a uma dieta de restrição, para que não ultrapassassem o ganho de peso médio diário de 0,700 kg por dia.

Isso fez com que fêmeas desmamadas com 200 kg atingissem 330 kg aos 13 meses de idade, abrindo caminho para o próximo desafio lançado à Agropontieri: emprenhar novilha aos 14 meses, trabalho que registrou taxa de prenhez de 83%.

“Os embasamentos empíricos e científicos, a competência operacional e a genética da Agropontieri avaliada pelo Qualitas garantiram o sucesso das tecnologias colocadas à prova do rebanho e alicerçaram o conceito do Sistema Qualitas de Produção [email protected] aos 20 meses que, atualmente, é buscado pelos criadores participantes do programa”, explica Moraes.

E, mais do que conquistar o slogan “Precoce – Produtivo – Eficiente”, este conceito se sustenta em uma plataforma financeira que permite uma rentabilidade acima de R$ 500,00 de lucro por hectare, sem incluir a venda de touros e matrizes de valor agregado

“É o que hoje oferecemos a 53 criadores de Nelore e Bonsmara com um total de 37.474 matrizes em avaliação genética nos estados de GO, MT, MG, SP, TO e RO, e também na Bolívia. Já certificamos 16.012 touros, e é o que pretendemos continuar fazendo ainda por muito tempo”, conclui Souza.

Avaliação genética

A base genética do Programa Nelore Qualitas conta com 370.214 animais, e o arquivo de medições conta com 3.326.621 registros de informação. Do total de animais, 261.684 têm mensurações coletadas, o que resulta em mais de 12 medidas por animal.

Dentro do sistema Nelore Qualitas, são avaliadas características de desempenho e funcionais. Essas últimas vêm sendo coletadas desde o ano de 2001. Os atributos de desempenho e fertilidade são constituídos pelas pesagens e pela medida de perímetro escrotal.

Os animais são pesados ao nascimento, à desmama – quando são extraídas as DEPs direta, materna e maternal total – e ao sobreano; o perímetro escrotal é colhido aos 15 meses de idade.

Assim como nos demais programas retratados até o momento no Especial Avaliação Genética, o peso ao nascer ganha atenção especial no Qualitas, por estar associado à dificuldade de parto em novilhas. O programa também mede a diferença entre o peso ao sobreano e o peso à desmama, para que seja possível ponderar os ganhos pósdesmama.

Funcionalidade

O Nelore Qualitas leva em consideração os princípios desenvolvidos pelo professor Jan Bonsma – criador da raça Bonsmara – em seus trabalhos de pesquisa e seleção de bovinos na África do Sul, a partir de 1937. Esse foi o primeiro pesquisador a relacionar conformação do animal (aparência) com sua fisiologia (funcionalidade).

Quem trouxe o conceito para o Brasil (e ao programa) é outro sulafricano, Danie Bosman, onde é analisado detalhadamente angulação de garupa, aprumos, boca, cascos, chanfro, espessura do couro, frame (tamanho), inserção de cauda, linha de dorso, musculosidade, ossatura, pigmentação, profundidade, reprodução, temperamento, testículos, úbere e umbigo.

Os animais são vistoriados entre os 16 e os 18 meses, e, às características funcionais, são atribuídas notas de 1 a 6, sendo, os animais aprovados separados em três grupos distintos: ponto ótimo, na qual a nota 3 pode ser considerada ideal; ponto máximo, no qual a nota máxima é o objetivo, e os desclassificados.

Na angulação de garupa, aprumos, frame, ossatura e umbigo aceitamse o ponto ótimo, e é subjugada pelo ponto máximo a morfologia relacionada à boca, à inserção de cauda, à musculosidade, à pigmentação, à profundidade, à reprodução, ao temperamento, ao úbere e aos testículos.

Por último, são desclassificados quaisquer animais com defeito ou disfunção na linha de dorso, a exemplo de uma escoliose, cascos e chanfro. Todos os animais são avaliados visualmente para eficiência funcional duas vezes antes de receber o CEIP.