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NOVO INDICADOR ECONÔMICO

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Gestão profissional e tecnificada nas fazendas é o caminho para uma produção de leite competitiva e lucrativa no Brasil

Heloise Duarte*

DivulgaçãoSe o rebanho leiteiro brasileiro tivesse o mesmo desempenho médio que as vacas das fazendas mais produtivas do País, o Brasil poderia alcançar os 34 bilhões de litros de leite por ano que produz hoje, com apenas 25% do rebanho atual. Essa foi uma das conclusões da nossa equipe técnica ao avaliar a primeira edição do Índice Ideagri do Leite Brasileiro (IILB), ferramenta de benchmarking lançada em março e que está disponível para todo o mercado.

Desde a criação da Ideagri – há mais de dez anos –, é perceptível o sentimento de que a produtividade nas fazendas brasiGestão profissional e tecnificada nas fazendas é o caminho para uma produção de leite competitiva e lucrativa no Brasil leiras de leite não está restrita ao volume de recursos financeiros disponíveis para investimentos ou ao tamanho do rebanho. Depende, principalmente, do tratamento de dados com qualidade e de uma gestão mais criteriosa, profissional e tecnificada do negócio e do rebanho. A gestão profissional está cada vez mais acessível, não é refém de altos investimentos e precisa de técnicas, metodologias e novas tecnologias.

Desde o início, a convicção é de que este é o caminho, e as experiências bemsucedidas com software de gestão mostram isso. As fazendas que usam o sistema evoluem nesse âmbito e, consequentemente, na lucratividade e na competitividade.

Porém ainda nos careciam métricas globais para comprovar essa percepção e que motivassem produtores e técnicos do leite a praticarem benchmarking como estratégia de gestão. Ou seja, faltava levar para a rotina das fazendas não só o registro de dados e o controle zootécnico de qualidade, como também o acompanhamento e a comparação do desempenho e das práticas adotadas no mercado e nas fazendas profissionais e tecnificadas, considerando a realidade brasileira.

Em nossa trajetória empreendedora, percebemos que esses números estavam nascendo e crescendo “bem debaixo do nosso nariz”. Quanto maior o banco de dados, mais nítido ficava que tínhamos em mãos uma valiosa ferramenta de business intelligence (BI) para toda a cadeia produtiva do leite – ideia que se concretizou neste ano, com a criação do IILB.

Potência mundial

A carência de indicadores que mostrem o desempenho da pecuária leiteira no Brasil e que possam ser aplicados por meio de ações corretivas no campo que aumentem produtividade e lucratividade foi outro fator que nos motivou a desenvolver uma ferramenta de benchmarking. Até então, as principais referências vinham dos Estados Unidos – cuja realidade é muito diferente da brasileira – ou dos índices oficiais de instituições governamentais.

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A média nacional de produção de litros por dia é de apenas 6,5 litros, enquanto fazendas mais qualificadas superam 22 litros

Esses dados nacionais não proporcionam um entendimento real do que deve ser aprimorado “da porteira para dentro”, pois não levam em conta questões cruciais, como qualidade do controle e gestão zootécnica, região, perfis de rebanho, indicadores de produção, reprodução e sanidade, entre outros aspectos. Além disso, os levantamentos englobam fazendas sem gestão de qualidade ou que abrangem mais de uma atividade além da leiteira. São detalhes que comprometem um desenho real de como é a produção de leite no Brasil e de qual é o verdadeiro potencial de aprimoramento da atividade no País.

Há muito o que evoluir na gestão dos rebanhos. Alguns dados, como da Embrapa, por exemplo, já mostram que 78% da produção de leite vem de 23% das fazendas do País. Mais uma vez, entendemos que a produtividade está ligada à forma de gestão do rebanho, e não ao tamanho dele. Por meio de uma leitura mais precisa de um perfil de produtor importante para a pecuária leiteira nacional – as fazendas profissionais que medem e acompanham indicadores –, o IILB mostra isso em sua primeira edição. Esse é o universo que deve ser tomado como referência.

O Brasil é o quinto produtor de leite e pode, rapidamente, se transformar em uma potência mundial no setor com a profissionalização da gestão das fazendas leiteiras. Hoje, o País ainda importa entre 3% e 4% do leite que consome. As fazendas nacionais com maior grau de profissionalização têm desempenho parecido com as médias norteamericanas, e são elas que devem servir de comparação, pois mostram o real potencial de desenvolvimento do leite brasileiro.

Amostra confiável

confiávelO IILB é resultado da qualificação criteriosa do banco de dados da consultoria, iniciada gadono ano passado e que já contava com cerca de 5.000 fazendas de leite, corte e agricultura, de quase todos os estados brasileiros. A metodologia foi desenvolvida pela Ideagri e pelo Rehagro, empresas do Grupo Rehagro que atuam na produção de informações para o desenvolvimento rentável e sustentável do agronegócio.

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Heloise aponta que a taxa de prenhez é um indicador relevante, pois impacta diretamente na capacidade de produção leiteira

Mantendo o total sigilo sobre as informações individuais das propriedades cadastradas, esse filtro considerou aquelas que enviam periodicamente seus dados para o ambiente de nuvem do software, cujos lançamentos são feitos com critério e coerência. Houve o cuidado de analisar esses dados para que o IILB fosse, de fato, uma amostra muito bem qualificada e confiável para o mercado.

Chegouse a uma amostra de 600 fazendas cujas vacas produziram, em 2018, uma média de 22,6 litros de leite por dia – contra 6,5 litros por dia de todo o rebanho brasileiro (dado IBGE). Somadas, essas propriedades representam 170.000 matrizes – 0,56% do rebanho nacional. A produtividade anual por matriz dos rebanhos qualificados no IILB é cerca de 4,5 vezes maior do que a média nacional. Se compararmos com os rebanhos top 10% do IILB, essa produtividade é 5,5 vezes maior do que a média nacional.

Dessa forma, o IILB surge como uma oportunidade para produtores, técnicos e demais elos da cadeia produtiva do leite fazerem mais pesquisas, melhorarem a assistência técnica e avançarem no conhecimento através da comparação de índices entre fazendas com gestão profissional, gerando novas possibilidades de ganhos para todos. Acreditamos que, a cada edição do IILB, como ocorreu na primeira, nos surpreenderemos de forma positiva com os índices.

12 indicadoreschave

12 indicadoreschaveO IILB é um índice unificado – uma nota de 0 a 10 – calculado com base em 12 indicadoreschave de 600 fazendas produtoras de leite. Outros dois critérios adotados foram: a região brasileira e a definição de três perfis raciais de matrizes: Perfil 1 – Predominância de Leite Europeu (acima de 93,75%); Perfil 2 – Intermediário (entre 93,75% e 75%); e Perfil 3 – Predominância de Leite Mestiço (abaixo de 75% europeu leite).

Três áreas relevantes para a gestão zootécnica do rebanho são abrangidas: reprodução, produção e recria. São informações que, se bem geridas e monitoradas, permitem ajustes de manejo e impactam na produtividade e na lucratividade da fazenda.

Com peso de 30% no cálculo do índice geral, a reprodução contempla dois indicadores: percentual de vacas em lactação em relação ao total (peso 10%) e taxa de prenhez em vacas (peso 20%).

Com peso de 40%, os seis indicadores de produção ajudam a mostrar a capacidade produtiva do rebanho por matriz, considerando: produção média mensal por vaca (peso 10%), produção de leite corrigida aos 305 dias nas primíparas (peso 10%), nas secundíparas (peso 2,5%) e nas multíparas (peso 2,5%); dias em lactação (DEL), média mensal das vacas em lactação (peso 10%); e taxa de mortalidade de vacas (peso 5%).

Com peso de 30%, a área de recria possui quatro indicadores: taxa de sobrevivência de fêmeas até os 12 meses (peso 15%), idade das novilhas ao primeiro serviço (peso 5%), taxa de concepção geral das novilhas (peso 5%) e idade ao primeiro parto das matrizes em meses (peso 5%).

Taxa de prenhez

Existem três leituras para cada um dos 12 indicadores do IILB: a média geral, a média dos top 10% produtores melhores pontuados e a diferença entre esses dois. A taxa de prenhez é um indicador relevante, pois impacta diretamente na capacidade de produção leiteira e na lucratividade das fazendas. Ela permite o monitoramento do desempenho reprodutivo dos rebanhos, englobando as taxas de serviço e de concepção.

Quanto maior a taxa de prenhez, maior o volume de gestantes no terço inicial da lactação e menores são o número de dias improdutivos e a chance de descarte de vacas vazias e secas. Esse indicador é um preditor do intervalo de partos, obtido em curto espaço de tempo e que permite ações corretivas no manejo, sem grandes investimentos financeiros.

Nesse e em outros indicadores, a média das fazendas analisadas pelo IILB está bem próximo da média norteamericana. Nessa primeira edição do IILB, a taxa de prenhez apresentou uma diferença significativa de 31,1% entre as médias geral e dos top 10%. Ou seja, temos muito espaço para crescer. Agora, imagine o que poderia ser feito em todo o setor de leite? Correções para maior produtividade são, teoricamente, simples de implantar, como melhor capacitação de mão de obra.

Ainda na comparação entre as médias geral e dos top 10% do IILB, observase que, nas fazendas mais profissionais, a morte de bezerras até um ano é quase a metade da média geral e que as vacas têm o primeiro parto mais cedo (aos 26,6 meses, contra 31,2 meses). São números que resultam em mais ou menos lucro. Com o IILB, os produtores podem identificar rapidamente os fatores que devem ser atacados com prioridade, visando a resultados mais dinâmicos.

A média na primeira edição do IILB foi de 3,97 pontos. A fazenda mais produtiva entre as 600 analisadas atingiu 8,88 pontos, o que mostra que existe muito para ser feito dentro da porteira. E a ideia do IILB é mostrar isso em cada região, ou seja, dar ao produtor de leite referências no seu território de atuação e entre rebanhos de mesmo perfil racial.

O IILB pode ser acessado no site www.iilb.com.br. O número de informações abertas para o público em geral é generoso, mas o cliente da Ideagri pode, por meio de seu cadastro, acessar dados e fazer comparações diretas e instantâneas com seus próprios indicadores. Os dados individuais das fazendas são sigilosos e só são acessados pelos proprietários dos cadastros.

A tendência é que o Índice Ideagri do Leite Brasileiro (IILB) cresça em volume de dados – ele tem motivado os usuários do software Ideagri a serem mais criteriosos com os registros zootécnicos e financeiros, e com a atualização dessas informações na nuvem do nosso sistema de gestão. Com isso, teremos mais dados qualificados e um amplo cenário para o benchmarking de fazendas, além da geração de novos indicadores e categorias que, por sua vez, vão fomentar análises mais aprofundadas, reais e assertivas.

*Heloise é médicaveterinária, CEO da Ideagri e diretorageral do Índice Ideagri do Leite Brasileiro (IILB). Com 12 anos de mercado, a Ideagri é uma AgTech especializada em “software como serviço” (Software as a Service – SaaS) para fazendas de leite e corte.