Entrevista do Mês

Militante da Pecuária

Entrevista

Se o leitor ainda não conhece Maurício Velloso, terá essa honra. Bom de prosa, ele é um ferrenho defensor da classe pecuarista. Hoje, preside a Associação Nacional da Pecuária Intensiva (Assocon) e a Comissão Permanente de Pecuária de Corte da Federação de Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), batalhando diariamente por uma pecuária mais competitiva.

Adilson Rodrigues
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Revista AG – Governo Bolsonaro e pecuária: está dando casamento?

Maurício Velloso – O governo Bolsonaro foi ostensivamente apoiado pelo setor agropecuário. Pelo simples motivo das propostas de governo basearemse em obediência à Constituição, segurança jurídica, responsabilidade fiscal, desaparelhamento do Estado, apoio e incentivo ao empreendedorismo, valorização do trabalho, desobstrução, desideologização e redução da burocracia, reconstrução do sentimento de civismo e brasilidade. Temos visto esforços legítimos deste governo em cumprir o programa apresentado, ante todas as dificuldades e armadilhas perpetradas pela imensa quadrilha de sanguessugas, oficial ou privada, que, há muito, vem dilapidando o Brasil. Assim sendo, o governo Bolsonaro tem não apenas a nossa simpatia, mas também o nosso compromisso em contribuir para restituir à sociedade a segurança de um presente digno e um futuro promissor.

Revista AG – Quem não gostou muito são os ambientalistas. Dizem que Bolsonaro vai afrouxar demais o Código Florestal. Você discorda?

Maurício Velloso – É preciso separar os ambientalistas dos “ambientaloides”. Os primeiros são esclarecidos da condição ímpar ocupada pelo Brasil quanto à sustentabilidade dos seus sistemas de produção agrícola e pecuário (sem ignorar ou desmerecer os desafios), e lúcidos quanto à produção e à conservação ambiental não serem excludentes, e sim, necessariamente, complementares. Já os segundos têm a visão toldada pela ideologia obscurantista, ou pior, estão a serviço e a soldo de interesses escusos e contrários aos da nação brasileira.

Revista AG – Bolsonaro deve perdoar o passivo do Funrural?

Maurício Velloso – Esse famigerado “passivo” nada mais é do que uma excrescência, uma verdadeira afronta ao estado de direito, uma dívida inventada, não existente. O governo Bolsonaro não a criou, e, seguramente, ele e todo e qualquer legislador que honre as calças que veste deverá procurar a todo custo apagar essa página vergonhosa da nossa história e esse ônus injusto ao setor agropecuário.

Revista AG – Mas, caso “perdoe”, os grandes frigoríficos serão beneficiados?

Maurício Velloso – Não cabe perdão onde não há falta, erro ou dívida. As pendências das indústrias frigoríficas ou outras deverão ser analisadas uma a uma, devido a particularidades que não abrangem o todo.

Revista AG – Há chances reais de, finalmente, caminharmos rumo a uma segurança jurídica no setor?

Maurício Velloso – Não se trata de chance, mas de atitudes reais. A fonte e a farra de dinheiro para ONGs misteriosas, sindicatos, MSTs e baderneiros em geral secou. O Incra, o Ibama, a Funai e outros operam tecnicamente. O ministro do Meio Ambiente conhece profundamente os desafios ambientais do Brasil e do mundo. Conhece, também, as virtudes dos sistemas produtivos agropecuários brasileiros e os apresenta com números indiscutíveis aos nossos consumidores e também aos detratores. O governo federal não mais aceita ser refém de uma “opinião pública” forjada, comprada e organizada com o único intuito de desmerecer e desvalorizar comercialmente a produção agropecuária brasileira.

Revista AG – Falando de mercado, o boi gordo empacou na subida, mas algumas praças registram preços perto de R$ 156,00. Esse valor paga as contas e permite investir?

Maurício Velloso – Vamos por partes. Estávamos no mês de maio, marca da transição do período chuvoso para o seco. Todos, inclusive a indústria, sabem que o pecuarista promove o ajuste do rebanho à nova e menor oferta forrageira da época seca, inflando a oferta. Dessa forma, a indústria frigorífica adianta o processo “experimentando” valores menores. Ditado corrente, “o pecuarista aguenta dez altas, mas não suporta uma baixa”. Neste ano, vejo, por todo o Brasil, restrição de oferta de animais acabados e de reposição. Nossos vizinhos sulamericanos buscam animais vivos aqui. Nosso estoque do rebanho nacional está inflado. Assim sendo, o valor da arroba tem de subir. E já subiu! Os contratos feitos pelas indústrias aos grupos organizados de pecuaristas já pagam R$ 172,00 pela arroba do boi e da novilha pesada. A pergunta que faço ao pecuarista é: qual é o seu custo de produção? Está na faixa de R$ 62,00 a @ produzida (bois que acabo de abater) ou maior? Temos registro de arroba produzida a R$ 280,00.

Revista AG – Como você diz, a crise na pecuária é discutida na Bíblia desde o Velho Testamento, mas vejo que ainda falta destreza em se lidar com situações extremas. Teria algumas dicas?

Maurício Velloso – Há dois tipos de “situações extremas”: as previsíveis e as imprevisíveis. Dica para as previsíveis? Prevenir. Comida e água sobrando à necessidade do rebanho. Caixa estratégico, idem. Insumos? Compre na baixa ou quando os indicadores demonstrarem a melhor relação de troca. Hora de vender? Verifique os gráficos históricos e a conjuntura imediata e vindoura. Não há uma estrutura estável, uma receita única. A economia, apesar de dinâmica, obedece a ciclos que se repetem, muitas vezes, com avisos inequívocos. É preciso adquirir o hábito de checar diariamente esses “avisos” e procurar construir uma estratégia própria, protagonista. Ou então ser coadjuvante da estratégia de alguém...

Revista AG – Se não é o frigorífico que vai batalhar para pagar mais ao pecuarista, como esse deve se organizar para ganhar mais dinheiro na atividade?

Maurício Velloso – São pouquíssimos os frigoríficos que efetivamente operam em parceria decente com o pecuarista. Essa indústria vem de um péssimo histórico, no qual a transparência é mercadoria rara ou inexistente. Entretanto, há muitas iniciativas de negociação entre indústria e pecuaristas organizados, cuja oferta em bloco propicia valores significativamente superiores ao “de balcão”. Evidentemente, aqueles alijados desses grupos vão receber valores achatados. Aproveito para pontuar que “ganhar mais dinheiro” nem sempre é sinônimo de auferir melhor margem no negócio – esse, sim, o parâmetro a ser perseguido.

Revista AG – A impressão é que falta para o pecuarista pensar menos como produtor e mais como cadeia produtiva. É isso mesmo?

Maurício Velloso – Talvez falte ao pecuarista enxergarse como elo dessa cadeia produtiva. Pensar de forma isolada é temerário. É necessário avaliar a interação entre os elos, o entendimento da interdependência entre as partes, as oportunidades propiciadas pelas fragilidades dos outros elos, as parcerias possíveis entre as partes, a integração lavourapecuária ou lavourapecuáriaindústria. Temos muito o que avançar em agregação de valor ao produto pecuário, e esse processo passa, necessariamente, por uma maior, estreita, saudável e desejável integração entre os elos, ainda que por verticalização.

Revista AG – Tecnologia é cara ou caro é não aferir o desempenho da propriedade?

Maurício Velloso – Costumo dizer que o maior inimigo da rentabilidade da pecuária é o desperdício. A lista é interminável. Entre eles, o mau uso das ferramentas, as “meiassoluções” ou gambiarras aplicadas às tecnologias disponíveis, causando perdas de toda ordem e descrédito aos sistemas de produção tecnificados. A atividade pecuária compõe uma quantidade impressionante de variáveis e também alguns fundamentos inescapáveis. Um deles, preconizado desde Assis Brasil, no início do século passado, e repetido incansavelmente pelo Dr. Fernando Penteado Cardoso e seus admiradores até os dias de hoje, é medir, aferir e corrigir. Alguns próceres da pecuária, como o Antônio Chaker, transformaram a prática de medir, avaliar e ajustar em arte, com resultados robustos. Sem isso, frente às margens atuais da pecuária nacional, maus resultados econômicos e financeiros são inevitáveis.

Revista AG – Por que o produtor é resistente em adotar tecnologia?

Maurício Velloso – Anos a fio de margens generosas fizeram da pecuária uma atividade diletante e primitiva, avessa às inovações e à gestão. Essa cultura ainda persiste, mas é inquestionável o forte movimento profissionalizante do setor. Mudanças significativas são visíveis, e a produtividade e a gestão de resultados são a tônica. As margens justíssimas quebraram essa resistência histórica, corroborando o antigo adágio que diz “a necessidade é a mãe da invenção”. Temos, assim, a pecuária sendo celeremente reinventada.

Revista AG – Então, para esse tipo de produtor, mais vale ter 0,8 UA por hectare na mão do que 7 voando, ou passou da hora de arriscar mais?

Maurício Velloso – A média nacional de 0,8 ou 0,9 UA por hectare ainda sustenta muita gente, apesar de ela mesma não se sustentar. Não se trata de arriscar, e sim de produzir em um ambiente de certeza dos resultados. Pecuária moderna se traduz em previsibilidade do negócio. É nosso desafio apresentar o “caminho da lucratividade” aos céticos.

Revista AG – Certamente, isso passa pelos cuidados com a pastagem. O pecuarista precisa se tornar “agricultor” de capim?

Maurício Velloso – Primeiramente, é preciso relembrar da definição de pecuária que preconizo: “pecuária é a modalidade de agricultura cuja colhedora tem quatro patas, rabo, rumina e muge”. Assim sendo, depois dos inescapáveis cuidados com a implantação da lavoura e a condução caprichosa e técnica para a produção do “produto forrageiro”, fazse mister à melhor estratégia para a colheita desse produto, as folhas, no seu melhor momento. Nem antes, nem depois. Na hora exata, como se fossem grãos ou frutas. A exatidão na colheitas das folhas do capim definem, primordialmente, o menor custo da produção pecuária.

Revista AG – Brasil livre de febre aftosa. Afinal, é prematuro ou não retirar a vacinação?

Maurício Velloso – Os esforços hercúleos do pecuarista nacional em buscar melhores índices de vacinação a cada campanha tem por objetivo um dia poder prescindir dela. O que o setor produtivo deseja e exige, muito compreensivelmente, é que o processo de retirada da vacinação seja conduzido com muita responsabilidade e consequência, sem o obaoba recorrente e midiático. O programa governamental precisa oferecer respostas às fragilidades identificadas e não apressar o processo colocando perigosamente o carro à frente dos bois.

Revista AG – Você está há muito tempo presidindo a Comissão de Pecuária de Corte da Faeg. Quais são seus maiores méritos?

Maurício Velloso – Participo da Comissão há muitos anos, desde a denúncia de manipulação da balança por um determinado frigorífico, que resultou em um movimento que originou o Programa Pesebem, a balança do pecuarista, presente em diversas plantas frigoríficas. Iniciei minha gestão visitando todas as entidades pecuárias, disponibilizando a estrutura física e humana do Sistema Faeg/Senar a todos. Havia um “ranço” entre as agremiações. Porém, reconhecendo os seus méritos e trabalhando juntos em diversos embates, logramos conquistas que nos uniram e promoveram a excelência da pecuária goiana. Também ousamos levar informação aos longínquos rincões do estado, promovendo encontros regionais com palestras de ícones como Rodrigo Albuquerque, Lygia Pimentel, Rogério Goulart, Maurício Palma Nogueira, Gustavo Figueiredo e Leandro Bovo. Além de informar e provocar mudanças de comportamento, procurávamos identificar as demandas e as fragilidades sob a ótica do produtor, e, assim, nasceu outra iniciativa, a Expopec – Exposição das Tecnologias voltadas ao desenvolvimento da Pecuária. Essa feira tornouse referência e exemplo na validação de tecnologias. Já estamos na 4ª edição. Entre outras iniciativas atuais, destaco, ainda, a busca pela segurança no processo de retirada da vacinação, a regulamentação do toalete dos frigoríficos, a evolução do Programa Pesebem, a auditagem permanente desses processos e o estabelecimento do Instituto Goiano da Carne.

Revista AG – Você assumiu recentemente a presidência da Assocon. Quais são os seus maiores desafios?

Maurício Velloso – Somos muitos e diferentes “brasis”, um continente, uma gigantesca colcha de retalhos. Desde 1534, nascimento da Pecuária Brasileira, o desejo de Ana Pimentel de Souza mudou o mundo, as relações de produção e consumo, e também mudou o jeito de fazer pecuária. A legislação federal, estadual ou municipal nem sempre se atualizou com a agilidade exigida pelo mercado ou pelas novas tecnologias. É nosso papel, então, atualizar, auxiliar, esclarecer, municiar e aproximar os órgãos oficiais, reguladores, de pesquisa, privados, instituições financeiras, indústrias e afins ao pecuarista; divulgar os melhores sistemas de produção, contribuir com a capacitação de pecuaristas e colaboradores, perseguir a harmonização de interesses dentro da cadeia produtiva e demonstrar às comunidades nacional e internacional a excelência e a sustentabilidade do sistema de produção pecuário brasileiro.