Sobrevoando

Aftosa

Toninho Carancho
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Estava pensando no tema desta coluna e por vezes me desviei do assunto da Aftosa por achar que desconhecia um pouco do que estava acontecendo e por ser um tema que merecia estar um pouco mais bem informa-do para emitir alguma opinião. E coloco aqui a palavra Aftosa com maiúscula porque é um assunto de extrema relevância para a produção de carne no Brasil e, mais ainda, impor-tantíssimo para nós, criadores.

O governo brasileiro está com o PNEFA pronto e sendo aplicado neste momento. Não sabe o que é o PNEFA? Eu também não sabia até poucos dias. Quer dizer Programa Nacional de Erra-dicação e Prevenção da Febre Aftosa. É um plano estratégico que envolve os anos de 2017 a 2026. Parece bem interessante e complexo, com objetivo geral, objeti-vos específicos, diretrizes estratégicas, princípios fundamentais, sustentação financeira, gestão compartilhada, metas globais e propostas. Se tudo for levado a cabo, parece sensacional. O problema se encontra, me parece, na parte da frase “se tudo for levado a cabo”. Em breve re-sumo, quer dizer que vamos parar de va-cinar em datas diferentes, separados por blocos de estados. São cinco zonas dife-rentes. Pelo que captei, sobrevoando por aí, existem algumas divergências sobre as reais vantagens de se parar de vacinar (todos os estados vacinam, com exceção de SC, que é livre sem vacinação) e as desvantagens de se parar de vacinar.

Lembro sempre de uma palestra so-bre controle de carrapato na qual o pa-lestrante, muito bom e espirituoso, co-mentava que o banheiro de imersão era a melhor forma de combater os carrapa-tos, desde que em perfeitas condições de uso. Ele comparava o tal banheiro, onde jogamos o gado lá dentro, com o atacan-te Adriano Imperador (já deu para ver que a palestra faz algum tempo), que, em perfeitas condições de jogo, era um verdadeiro Pelé do ataque, melhor im-possível. Porém – e sempre tem pelo me-nos um porém – ele, Adriano, raramente estava em perfeitas condições de jogo. O normal era estar sempre em “imperfeitas condições”, tal qual o famoso e antigo e abandonado banheiro de imersão.

Acho que aí reside o temor dos pe-cuaristas em geral (pelo menos os que te-nho mais contato), de que não tenhamos as condições ideais, nem próximo disso, para pararmos de vacinar. Não vacinar mais seria ótimo, desde que cumpridas todas as exigências que o próprio plano aborda. Mas não parece ser o que está acontecendo. O medo de parar de vaci-nar e termos surtos de Aftosa está na ca-beça de muitos criadores, e temos de ter a certeza de que, se pararmos de vacinar, não entraremos numa roubada. Temos que ter planos de abate, dinheiro em cai-xa para pagar o rifle sanitário e toda uma logística envolvendo vários setores da cadeia produtiva e também de Exército, polícia, banco de vacinas e muito mais.

O produtor que hoje vacina o seu gado e já viveu os tempos de Aftosa em seus es-tados sabe do que estou falando. É muito traumático, além de custar milhões.

O Uruguai parou de vacinar por al-guns anos e foi obrigado a voltar a vacinar por não conseguir controlar os surtos, e precisamos cuidar para não cair no mes-mo caso. Só lembrando que o Uruguai é vizinho do Brasil, assim como a Argentina, que também vacina, além de vários outros países que temos fronteira (milhares de quilômetros), sem muro do Trump, sem nada ou quase nada para nos separar.

Devemos estar preparados, realmente, para parar de vacinar. É um tema polêmi-co, mas temos que tratar da forma mais técnica possível, sem arroubos. E não po-demos queimar etapas. Aftosa não se con-trola por decreto, nem por vontade políti-ca. Parar de vacinar requer que o PNEFA esteja com todos os pontos equalizados e ajustados. Antes disso, parece-me perigoso. Quem tem, tem medo, já dizia um ditado antigo.

Deixo a palavra com vocês e vacinei o gado antes do final de maio. Fui!