Genômica

Genômica 100% ou 100% genômica?

Genômica

JOSÉ FERNANDO GARCIA
Médico-veterinário, professor, pesquisador e consultor (UNESP e AgroPartners) [email protected]

Quando se começou a falar de genômica na pecuária, há cerca de dez anos, a primeira reação dos criadores foi a de que todos os problemas estariam resolvidos a partir de sua aplicação. Os produtores de genética previam “ser o fim das mensurações fenotípicas e das dúvidas na hora do acasalamento”, e os compradores de touros esperavam: “agora, teremos precisão total na compra de touros e somente produziremos animais com alto desempenho e uniformidade”. Infelizmente, essa mensagem acabou sendo propagada erroneamente desde então.

Essa precisão máxima (100%) não aconteceu até agora e também não irá acontecer tão cedo. Mas por que não, se os testes de DNA são tão específicos e acabaram se transformando em evidência criminal irrefutável a ponto de condenar um suspeito de assassinato? Porque, então, a análise de DNA em bovinos não nos permite identificar “aquele” animal perfeito? Apesar das análises de DNA serem muito específicas, a genômica, na prática, não é sempre 100%.

Podemos dividir os tipos de resultados (informações) que a genômica oferece atualmente em dois tipos: direto e indireto.

A informação do tipo direta é aquela que se obtém para características determinadas por um gene único (ou monogênicas). Exemplos desse tipo de característica são a coloração da pelagem na raça Angus, a presença do geneSlick e da dupla musculatura na raça Senepol, a ausência de chifres em algumas raças e a ocorrência de defeitos genéticos nas mais variadas raças. Nesses casos, um único marcador no DNA (em geral, do tipo SNP) é capaz de predizer como serão os frutos do acasalamento de dois indivíduos, com 100% de certeza. Essa afirmativa é categórica, e está baseada nas antigas (porém atualíssimas) Leis de Mendel (o pai da genética). Com esse tipo de informação genômica, tem sido possível direcionar os acasalamentos e eliminar, manter ou promover as características desejadas.

O segundo tipo de informação é a indireta, que diz respeito à análise de milhares de marcadores, dispostos ao longo de todos os cromossomos, através de uma plataforma analítica denominada: SNP chip. Essa informação poderia ser comparada a uma fotografia individual da variabilidade genética de cada animal, que, quando comparada com outras fotografias genômicas desse tipo, à luz das informações fenotípicas (medidas) dos animais e suas progênies, permite melhorar a capacidade de predizer como serão os frutos do acasalamento de dois indivíduos. A esse processo dá-se o nome de Seleção Genômica.

Considerando que as características produtivas mais selecionadas na pecuária de corte não são determinadas por um único gene, como no caso daquelas descritas anteriormente, a precisão com que se determinam os valores genéticos individuais nunca é de 100%.

As avaliações genéticas tradicionais (que geram as DEPs) têm, em geral, acurácia (precisão) média de até 50% a 60%. Ou seja, existe um grau de incerteza relativamente alto nessa predição. Quando a fotografia genômica é incorporada ao processo de avaliação genética, essa precisão é aumentada para 80% a 90%, o que é um grande avanço, mas ainda não chegando aos esperados 100%.

Uma forma de aumentar a precisão da Seleção Genômica está no aumento do número de animais dos bancos de dados dos programas de melhoramento. Quanto mais animais com fenótipos mensurados, genótipos determinados e pedigrees verificados, maior a precisão no cálculo das DEPs genômicas e, consequentemente, maiores acurácias de predição são obtidas.

Outra forma está em analisar com mais detalhes os genes envolvidos na característica desejada e focar a análise dos marcadores SNPs existentes nessas regiões dos cromossomos (também chamadas de QTLs, do inglês: quantitative trait loci). Hoje em dia, existe uma corrente de pesquisas que busca incorporar as informações dos QTLs com o intuito de aumentar a precisão do processo de seleção genômica, com resultados muito promissores.

A nossa conclusão é de que a genética ainda é biologia, e não engenharia. Enfim, enquanto a genômica não é 100%, é preciso que nos tornemos 100% genômica!