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INDUÇÃO DE LACTAÇÃO

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Esta é uma ferramenta que pode diminuir o descarte involuntário e aumentar a eficiência produtiva

Bruno Freitas, Bruna Guerreiro e Manuela Volpe*

O Brasil se enquadra como um dos maiores produtores de leite do mundo, ocupando o quinto lugar, segundo dados de 2016 da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O leite é um dos produtos mais importantes na agropecuária brasileira, dessa forma, é essencial tanto no âmbito alimentar quanto no econômico, pois gera renda e muitos empregos para a população.

Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o mercado leiteiro nacional vem apresentando crescente aumento desde 1974, saindo de um patamar de 7,1 milhões de litros de leite produzidos naquele ano para 32 milhões de litros de leite em 2011. Já o Ministério da Agricultura publicou que a produção leiteira brasileira cresceu quase sete vezes entre 1974 e 2015, enquanto a demanda por leite teve aumento de apenas 240%. Com base na lei da oferta e da procura, isso implica em uma redução do preço pago ao produtor pelo litro de leite, por conta da discrepância existente entre esses dois fatores.

Diante do atual cenário do mercado brasileiro, faz-se necessário utilizar estratégias para aumentar a eficiência produtiva, ou seja, investir em soluções que aumentem e otimizem a produção, sem que precise aumentar os insumos utilizados, como o número de animais ou funcionários, e, claro, sem afetar a qualidade do leite.

Desde a década de 1990, estudos apontam que o País tem passado por grandes transformações em relação à atividade leiteira, a fim de se inserir cada vez mais no mercado internacional e ampliar o mercado interno, tornando-se mais competitivo e inovador, sempre com foco na produção em escala com qualidade. No entanto, ao comparar os resultados brasileiros com outras grandes nações que ocupam os primeiros lugares do ranking de produtividade, nota-se que o País ainda está muito abaixo da média. Os Estados Unidos, por exemplo, conseguem obter 7.953 litros por vaca/ano, contra a média brasileira de somente 1.154 litros por vaca/ano.

Entre as possíveis causas que tornam a cadeia leiteira menos rentável e produtiva no Brasil, as falhas reprodutivas são as que mais dificultam e encarecem o sistema de produção. Os animais que apresentam falhas reprodutivas acabam terminando o período de lactação sem ter emprenhado, e isso implica em um aumento no intervalo entre partos e um maior período seco. Nesse contexto de baixa eficiência reprodutiva, ocorre o aumento de descarte involuntário das matrizes do rebanho e a redução do período produtivo, do número de animais para reposição e do progresso genético.

É válido ressaltar que os animais que não emprenham não são, necessariamente, inférteis, o que não justificaria o descarte involuntário, pois podem ser animais jovens e com grande potencial para a produção de leite. Alguns fatores extrínsecos podem ter sido responsáveis pela falha na prenhez, como manejo, ambiência, nutrição, qualidade do sêmen ou experiência do inseminador.

Todas essas condições implicam em prejuízos e aumento de custos, pois esses animais, normalmente, teriam dois possíveis destinos: seriam descartados – o que não é viável quando se tem boa genética e são animais perfeitamente saudáveis – ou reintroduzidos ao programa de reprodução – o que aumentaria os custos devido às sucessivas coberturas. Uma possível solução para esse cenário é aplicar o protocolo de indução à lactação, pois, dessa forma, será possível iniciar um novo período de lactação em uma vaca que não obteve sucesso na prenhez. O método também pode ser aplicado em novilhas que apresentam ciclos irregulares ou que já atingiram o peso e estão aptas à reprodução, mas não emprenham.

O objetivo do protocolo de indução à lactação é aumentar a vida produtiva dos animais, o que proporciona maior eficiência e lucratividade da produção. Além disso, alguns estudos recentes indicam que o protocolo possui outro benefício, além do retorno à lactação, que é a capacidade de voltar a desempenhar a função reprodutiva. É um ponto muito vantajoso, uma vez que permite que as fêmeas que seriam descartadas voltassem a ser produtivas, e, ainda, com chances maiores de emprenhar.

Portanto, a indução à lactação vem como solução ao descarte involuntário de animais que estão clinicamente bem e que podem oferecer maior desempenho às propriedades, prevenindo prejuízos desnecessários.

Para o desenvolvimento da glândula mamária, é necessário o uso de alguns fármacos, que, normalmente, já estão envolvidos no processo da lactogênese, sendo eles progesterona, prostaglandina, estrógeno, somatrotopina e cortisol. Todos juntos mimetizam o comportamento e o perfil hormonal presentes no terço final da gestação, período no qual ocorre o desenvolvimento da glândula mamária, fazendo com que o organismo da fêmea entenda que é o momento de produzir leite.

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Bruna informa que se consegue aumentar a produção com vacas que seriam erroneamente descartadas

Gerada pelo corpo lúteo e pela placenta, a progesterona apresenta um pico no terço final da gestação, assim como o estrógeno; condição essencial para o desenvolvimento dos lóbulos-alveolares. No entanto, a alta concentração desse hormônio impede a lactogênese. No fim da prenhez, ocorre a regressão do corpo lúteo (que, naturalmente, é o grande responsável pela produção de progesterona) e, consequentemente, proporciona a redução dos níveis de progesterona, o que permite que a glândula mamária responda aos hormônios lactogênicos e consiga produzir leite. O estrógeno, produzido pelos folículos nos ovários e também pela placenta, atua na estimulação do crescimento dos ductos das glândulas mamárias, assim como a progesterona.

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Ao aplicar o tratamento combinado de estrógeno e progesterona por determinado período de tempo, tem-se o desenvolvimento alveolar necessário para a produção de leite. Para isso, o animal precisa estar em período seco de, no mínimo, 40 dias e não pode apresentar infecção das glândulas mamárias e afecções podais.

O cortisol entra no protocolo com o intuito de mimetizar a sinalização do parto: em um cenário de prenhez normal, sua produção seria estimulada pelo feto, caracterizando o chamado estresse fetal e, consequentemente, a sinalização do parto. A dexametasona é o corticoide mais utilizado nos protocolos, sendo um potente anti-inflamatório esteroidal. Além disso, outro resultado do uso do cortisol é o aumento na síntese de estrógeno.

O pico de estrógeno resulta na secreção de prostaglandinas, particularmente a PGF2α, que é o hormônio central da indução do parto, pois promove luteólise, reduzindo a concentração de progesterona, interferindo no miométrio (camada média da parede uterina), com a liberação de cálcio e iniciando o processo de contração uterina, além de atuar no relaxamento da cérvix.

A somatotropina, conhecida também como hormônio do crescimento (GH), é produzida pela hipófise anterior, sob estímulo do GnRH. Seu uso em protocolos de indução à lactação busca aumentar a produção de leite, pois provoca o aumento do fluxo sanguíneo para a glândula mamária e, assim, um maior aporte de nutrientes e atividade das células secretoras.

O efeito combinado dessas substâncias (glicocorticoide, somatotropina, estrógeno e progesterona) estabelece o início da produção de leite, da mesma maneira que ocorreria caso a fêmea estive parindo naturalmente.

O protocolo a seguir, proposto por Mingoti et al. – ICAR 2016, consiste em uma aplicação inicial de 500 mg de BSTr (Somatotropina Bovina Recombinante) e aplicações diárias consecutivas de 2 mL de progesterona injetável e 30 mL de estrógeno por oito dias. Assim, é possível mimetizar as concentrações altas de progesterona e estrógeno presentes no terço final da gestação, bem como manter níveis altos de somatotropina.

A partir do D8, encerram-se as aplicações de progesterona, a fim de reduzir as concentrações de progesterona. Contudo, a concentração de estrógeno deve se manter elevada, por isso as aplicações diárias de estrógeno permanecem, porém em doses menores (20 mL/dia) até o D15. No oitavo dia (D8), também é realizada a segunda dose de BSTr, para manter as concentrações de somatotropina altas.

Ao fim das aplicações de estrógeno no D15, é realizada a terceira dose de BSTr e, um dia depois, no D16, aplica-se 2 mL de prostaglandina, com o objetivo de promover a luteólise, reduzindo ainda mais as concentrações de progesterona para assemelhar-se ao perfil hormonal pré-parto.

A adaptação à ordenha é iniciada a partir do D17 e baseia-se em começar a rotina de ordenha, massagear os tetos dos animais, porém, sem ordenhar, em associação à aplicação de 20 mL de corticoide por três dias consecutivos (D19 ao D21), simulando o estresse fetal que induziria o parto. No D21, também é realizada a quarta dose de BSTr. Trata-se de um protocolo de 22 dias, com taxa de sucesso de, aproximadamente, 85% e produção estimada de leite de ao menos 80% da produção de uma lactação fisiológica.

Assim como as vacas no pós-parto apresentam produção de colostro, os animais que recebem o protocolo de indução à lactação também o produzirão, portanto, faz-se necessário o descarte do leite coletado nas primeiras ordenhas.

Vale salientar que a assistência por parte do médico-veterinário é fundamental, principalmente no que tange à indicação de quais fêmeas poderão receber a indução, visto que os animais devem estar sadios, sem laminite, metrite, mastite ou qualquer quadro infeccioso.

Concluindo, com o uso do protocolo de indução de lactação nas fêmeas com alto DEL e resultado negativo de prenhez, o produtor consegue aumentar a produção da propriedade leiteira com vacas que seriam erroneamente descartadas, alcançando, no mínimo, 80% de sua produção anterior, além de ajudar o animal a voltar à vida reprodutiva. O tratamento reduz as perdas econômicas decorrentes de falhas reprodutivas, sendo uma técnica bastante competente para diminuir o descarte involuntário e aumentar a lucratividade e a eficiência da cadeia produtiva.

*Bruno, Bruna e Manuela são do departamento técnico da Ourofino Saúde Animal