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PLANTAS INVASORAS

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As ervas daninhas estão goleando o pecuarista por 7 x 1. É hora de reverter o placar!

Erick Henrique
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Toda planta infestante causa prejuízos no sistema de produção em pastagem porque compete com a forrageira em crescimento por luz solar, dióxido de carbono e espaço, acima do solo, e por nutrientes e água, no subterrâneo. O resultado inevitável é a queda na produção, bem como da própria qualidade da forragem, com consequente perda da capacidade de suporte da pastagem, além do menor desempenho animal.

Em razão dessa situação, a produtividade por hectare despenca. Aliás, as plantas infestantes tóxicas podem matar os animais. “Estima-se que a taxa de mortalidade do rebanho bovino brasileiro está em 5% e que entre 10% e 14% dessas mortes sejam provocadas pelo consumo de plantas tóxicas. Considerando os dados preliminares do Censo Agropecuário 2017, o rebanho bovino possui 172 milhões de cabeças. Com base nesse número, 860 mil a 1,2 milhão de cabeças veem seu fim por plantas tóxicas em pastagens”, calcula o zootecnista e professor em Forragicultura Adilson de Paula Almeida Aguiar, colunista da AG em “Santo Capim”.

Segundo ele, é difícil citar as plantas tóxicas que infestam as pastagens em todas as regiões do Brasil, uma vez que apenas o Bioma Amazônico possui 266 espécies catalogadas. “Portanto, é mais prudente classificar as plantas infestantes quanto ao seu hábito de crescimento, tipo de caule, folha, forma de dispersão, ciclo de vida e condições do ambiente onde aparecem do que apontar as espécies, ressalta o zootecnista.”

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“Estima-se que 10% a 14% das mortes de bovinos em pastagens no Brasil sejam provocadas pelo consumo de plantas tóxicas”, avalia o professor em Forragicultura, Adilson Aguiar

A situação já merece atenção. As quatro últimas edições do Rally da Pecuária denunciam 14% das pastagens visitadas nacionalmente em estágio avançado de degradação, sendo 3% delas já degradadas, 11% quase degradadas, além de outras 20% atingindo tais estágios em poucos meses.

“Cerca de 40% do processo de degradação ocorre pela dinâmica de invasoras. Outros 60%, pela perda de vigor dos pastos, sendo que as invasoras surgem num segundo momento para ocupar os espaços deixados”, observa Maurício Palma Nogueira, engenheiro-agrônomo e coordenador da expedição técnica que passou por 11 estados.

Para Nogueira, os dados observados a campo pelas equipes do Rally da Pecuária retratam a realidade das pastagens, pois, quando se analisam os dados históricos oficiais relacionados a desmatamento, áreas de pastagens, avanço da agricultura e florestas plantadas, identifica-se que o montante de áreas de pastagens que já foi perdido soma cerca de 50 milhões de hectares nos últimos 25 anos.

“No período, o produtor perdeu cerca de 1,3 hectare para a degradação, sendo que essa área se encontra, atualmente, em recomposição da vegetação natural. É importante frisar que esse fato não representa um benefício ambiental, visto que a área em recomposição demora anos para voltar a ter a mesma qualidade de uma floresta nativa”, explica o coordenador.

“As formas mais usuais do controle de invasoras relatadas pelos produtores, na edição de 2018, foram as aplicações de herbicida, cuja área total aplicada pelos produtores atingiu 178 mil hectares, ou 22% da área de pasto entre os entrevistados. Vale destacar que outros 8,3% da área foram reformados, o que não deixa de ser uma forma de controlar invasoras para reverter a degradação”, destaca o engenheiro-agrônomo.

Acertando no manejo

Para estabelecer um programa de controle de plantas infestantes por meio de herbicidas aplicados via foliar, o professor Aguiar recomenda a seguinte sequência de procedimentos: primeiro, identificar a área infestada e, depois, classificar as plantas infestantes conforme espécies predominantes, estádios de desenvolvimento, hábitos de crescimento e características das folhas.

Em seguida, é preciso qualificar as condições da área quanto ao relevo, à drenagem de solo e aos obstáculos para o controle. Com base nesse levantamento, será possível definir quais serão os ingredientes ativos dos herbicidas àquelas condições específicas, a dosagem correta e o método de controle adequado.

Ao executar a aplicação de herbicida, é indispensável atentar quanto à qualidade da água usada na solução que será aplicada, em relação ao pH ou à presença de material orgânico, temperatura e umidade relativa do ar, velocidade dos ventos e regulagem do pulverizador. Para o uso de pulverizador costal, a solução é calculada com base na porcentagem da solução, por exemplo, de 1% a 2% de um reservatório de 20 litros.

A pulverização sobre as folhas das invasoras deve ser feita até o ponto de escorrimento da solução das folhas. Sobre a aplicação com pulverizador tratorizado, a solução é feita com base em litros do herbicida por hectare, e a solução é sobreposta numa taxa de 200 a 400 litros/ha, enquanto, na pulverização com aeronaves, a solução é feita com base em litros do herbicida por hectare, e a solução é executada em uma taxa de 30 a 50 litros/ha.

Roçagem, não!

Tanto o professor em Forragicultura quanto o coordenador do Rally da Pecuária são enfáticos em afirmar que a roçagem deve ser evitada no controle das invasoras. Nogueira destaca que a prática acaba demandando grandes recursos com efeitos muito além do desejável.

“Definitivamente, não. O controle mecânico com uso de roçada manual (com foice ou enxada), roçadoras tratorizadas, link ou triângulo, corrente é um método de baixa eficácia. Ao contrário do esperado pelo pecuarista, estimula as brotações da planta aumentando a coroa (sua base) e seus órgãos subterrâneos, que armazenam água e carboidratos, aumentando a tolerância das plantas aos cortes subsequentes”, acrescenta o professor.

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Para a aplicação com pulverizador tratorizado, a solução é feita com base em litros do herbicida por hectare e executada em uma taxa de 30 a 50 litros/ha

A roçada torna o controle cada vez mais difícil. O dia que o pecuarista chega à conclusão que o método não funciona, já pode ser tarde demais, logo fica mais caro o seu controle. O problema real está profundo no solo.

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“Trabalhamos com defensivos em pastagens há mais de 30 anos, desde a época na qual limpar as propriedades manualmente era mais barato; contudo, os manejos das ervas daninhas com herbicidas são mais eficientes”, diz o gerente da Fazenda Carpa, Marcos Junqueira Cardoso

Direto no alvo

Quem, há mais de 30 anos, tem ciência dos prejuízos causados pelas invasoras é o selecionador Eduardo Biagi, da Fazenda Carpa, com propriedades em Serrana/SP (Fazenda Fazendinha) e em Barra do Garças/ MT (Fazenda Cibrapa). Para manter os índices de produtividade do rebanho de 25 mil cabeças, sendo 2,5 mil animais Nelore PO, em 12 mil/ha, o criador não abre mão de oferecer uma boa alimentação e pasto de qualidade ao rebanho.

No entender do gerente de pecuária da Carpa, Marcos Junqueira Cardoso, mais do que nunca, os pecuaristas deverão ser profissionais para sobreviver na atividade. “Trabalhamos com agroquímicos em pastagens há mais de 30 anos, desde a época em que limpar as propriedades manualmente era mais barato, contudo, na relação custo-benefício, os manejos de ervas daninhas com herbicidas são sempre mais eficientes.”

De acordo com Cardoso, as tecnologias utilizadas nas aplicações dos produtos são monitoradas por GPS, diminuindo falhas e sobreposição no momento das aplicações por hectare. “Com isso, obtemos um mapa dessas áreas, alimentando o banco de dados da fazenda com informações dos manejos realizados e gerando um histórico anual. Além disso, usamos adjuvante com objetivo de garantir a qualidade das aplicações, reduzindo o pH da água, o efeito deriva, melhorando a absorção e a performance dos herbicidas.”

As invasoras mais combatidas pelo proprietário da Carpa são fedegoso, joá, calopogônio, corda-de-viola, vassoura e malva-branca. “Atualmente, não existem espécies prejudiciais à saúde do rebanho, isso devido ao histórico de abertura dessas áreas ser de muitos anos atrás. O início da formação das pastagens foi feito com plantio da cultura de arroz, realizando todas as correções de solo necessárias e o controle das ervas daninhas. Com o tempo, conseguimos diminuir o banco de semente dessas espécies, que, hoje, são ausentes em nossas áreas de pastagens”, explica o gerente de pecuária.

Ademais, a propriedade promove, anualmente, treinamento para toda a equipe, juntamente com os prestadores de serviços terceirizados que executam os trabalhos de aplicação dos defensivos agrícolas para pastagens. Os cursos são para uso correto de EPI, descarte de embalagem e tecnologia de aplicação, ministrados por técnicos de Segurança do Trabalho.

Manejo de plantas duras e muito duras

Na avaliação de Aguiar, considerando que essas plantas já estejam infestando a pastagem, é fundamental enfatizar que o método de controle mecânico, mais utilizado pelos pecuaristas, não funcionam perfeitamente. Por outro lado, muitos avanços foram alcançados nas últimas duas décadas no controle químico nessas espécies, classificadas quanto ao seu porte e hábito de crescimento em subarbustivas, arbustivas e arbóreas.

O professor recorda que, no passado, o controle químico era feito com herbicidas à base de 2,4 D + Picloram aplicados de forma localizada no toco da planta após o corte. Em meados da década de 1990, foi lançado um defensivo à base apenas do ingrediente Picloram. A eficácia do controle aumentou consideravelmente, todavia, como esse método é feito manualmente, é lento e tem custo alto.

“Posteriormente, a indústria de herbicidas lançou uma tecnologia à base de Picloram + Triclopir para a pulverização no terço inferior do caule desse tipo de planta infestante sem precisar do corte antes da aplicação. Aqui, houve um ganho significativo em rendimento operacional comparado ao controle no toco da planta, entretanto ainda é um método de controle manual, lento e de alto custo”, frisa.

De acordo com o especialista, em busca de alternativas para aumentar a velocidade da operação de controle, reduzir os gastos desse controle e evitar problemas sociais e trabalhistas, os pecuaristas começaram a fazer misturas aleatórias de ingredientes para a aplicação foliar com pulverizadores tratorizados e aeronaves.

Em cada região, surgiu uma nova “mistura”, entretanto, os resultados sempre erráticos. Agora, em 2018, a indústria, após quase uma década de pesquisa e também uma década esperando a aprovação dos órgãos de regulamentação, avançou mais ainda lançando um produto comercial que traz a mistura de ingredientes ativos de herbicidas nas proporções adequadas e com recomendações de doses validadas pela pesquisa para aplicação foliar.

Capim-annoni: grande vilão no Sul

No entender do professor em Forragicultura, a maioria dos produtores não adota métodos preventivos e culturais de forma correta, o que possibilita o aparecimento e a infestação das pastagens pelas plantas invasoras. Quando se fala em controle de plantas infestantes entre os produtores, os métodos que a maioria deles conhece são o mecânico e o químico. E, normalmente, agem apenas quando a população destas já está em estádio de desenvolvimento avançado.

“E quando a planta infestante é uma gramínea, tal como o capim-annoni, a situação é agravada, já que a maioria das espécies forrageiras exploradas em pastagens no Brasil também é gramínea, o que limita – e muito – a adoção do controle químico, já que não existem ingredientes herbicidas seletivos para controlar a gramínea invasora sem causar fitotoxidez à planta forrageira”, alerta Aguiar.

A Embrapa Pecuária Sul, de Bagé/RS, desenvolveu uma tecnologia para controlar o capim-annoni e, de quebra, invasoras em outras regiões do País. O primeiro passo é deixar o próprio gado expor as insoras, pois ele não a consome. Assim, será visível a presença inimiga.

A segunda etapa é o momento de matar as plantas que os bovinos rejeitaram. Para tanto, a entidade desenvolveu uma máquina com mangueiras revestidas que aplicam o agroquímico de forma seletiva. Ou seja, o produto atinge apenas as plantas mais altas.

Para áreas menores, ou nas situações em que grande parte da infestação estiver sob controle, é possível fazer a aplicação com uma espécie de “enxada química”, que segue o mesmo princípio da máquina. Essa ferramenta tem um custo baixo, porque pode ser construída na própria fazenda com tubos de PVC. Conheça o aplicador manual de herbicida por contato da Embrapa Pecuária Sul no site da www.embrapa.br/ pecuaria-sul ou entre em contato pelo telefone (53) 3240-4650.


5 dicas para controlar as invasoras

1. Não roçar;

2. Diminuir a incidência das plantas infestantes no momento inicial da formação da pastagem;

3. Utilizar herbicidas pós-emergentes (produtos seletivos para folha larga que não atacam as gramíneas);

4. Em pastagens recém-implantadas ou reformadas, a aplicação do herbicida deve ser realizada cerca de 30 a 45 dias após a semeadura, quando as plantas infestantes atingirem de duas a seis folhas;

5. Terceirizar o serviço de aplicação para reduzir gastos.