Feno & Silagem

QUANTO CUSTA A SUA SILAGEM?

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Amir Gil Sessim*, Murilo de Lima Coelho**, Tamara Esteves de Oliveira***, Eduardo Lisbinski****, Júlio Barcellos***

Diversos temas sobre a conservação de grãos úmidos ou da planta inteira na forma de silagem para bovinos vêm sendo discutidos pela nossa equipe desde o início do ano. Porém, o custo de produção ainda não foi abordado, e tão importante quanto produzir e ofertar silagem aos animais é ter conhecimento e gestão do seu custo. Portanto, neste texto, falaremos sobre o custo de produção da silagem.

A grande maioria dos produtores tem dúvidas, ou simplesmente desconhece, quanto foi gasto para produzir sua silagem. Isso acontece, principalmente, porque o ciclo de produção da silagem é muito longo, chegando praticamente a 12 meses, dificultando o controle. De fato, essa não é uma tarefa simples, afinal, para que se conheça o custo correto da silagem, é necessário que tudo o que é gasto desde a compra antecipada de insumos (como sementes, fertilizantes, defensivos e inoculantes) até o final da oferta do alimento aos animais seja considerado na ponta do lápis.

Outra questão importante, quando falamos em custos de produção, é saber que, para determinar quanto foi gasto por tonelada ou quilograma produzido de silagem, não devemos simplesmente relacionar a produção total com o custo total, pois, no meio do caminho, existem diversos tipos de perdas que devem ser contabilizadas. Mas, por enquanto, vamos apenas pensar que nem tudo o que é produzido no campo será entregue aos animais. Por fim, a última dificuldade de controle de custos que levantamos é a larga utilização de maquinários necessários para a confecção do alimento. Quando produzido por terceiros, o cálculo é mais simples de ser controlado, porém nem sempre o produtor utiliza essa possibilidade, e todas as etapas são realizadas pelos maquinários da propriedade, sendo que, na maioria dos casos, a hora/máquina trabalhada não é contabilizada. Portanto, para calcular o custo de operações mecanizadas (colheita ou corte, transporte, moagem, enchimento e compactação), iremos utilizar a hora/ máquina trabalhada.

Como base de cálculo para esse texto, utilizamos os dados publicados no último Anualpec, que se refere aos custos de produção de silagens no ano de 2017.

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Etapas do processo

Como comentado em textos anteriores aqui na Feno & Silagem, a produção de silagem passa por diversas etapas, e cada uma delas tem seu custo para ser concluída. Neste texto, iremos dividir as etapas em: implantação, colheita ou corte, transporte, moagem e enchimento e compactação. Além disso, discutiremos o impacto da oferta de silagem aos bovinos sobre o custo de produção.

A implantação da silagem apresenta grande importância sob o ponto de vista produtivo, mas também é a mais relevante em termos econômicos. Pois, além das questões de qualidade e produtividade serem determinadas pela cultivar escolhida para o plantio nesse momento, a etapa é responsável por mais de 90% (grão úmido de milho), 75% (milho planta inteira) e 65% (sorgo planta inteira) dos custos totais de produção (ver gráfico). O predomínio dos custos dessa fase se deve, principalmente, aos altos custos dos insumos (semente, fertilizante e defensivos). Além desses, pela grande necessidade de hora/ máquina trabalhada para o preparo do solo (gradagem, aragem, dessecação), quando houver necessidade, e para o plantio da cultura escolhida.

É importante lembrar que a quantidade produzida de toneladas por hectare é crucial para diluir o custo da silagem e pode ser calculada em matéria verde (alimento mais a água que o compõem) ou matéria seca (alimento livre de água). Por exemplo, uma produção de 40 toneladas por hectare de silagem de milho planta inteira que custou R$ 105,10 por tonelada de matéria verde custaria R$ 120,11 se a produtividade fosse reduzida para 35 toneladas por hectare. Portanto, a perda de produção, seja por plantas invasoras, animais que estraguem ou pragas que danifiquem a plantação, deve ser evitada para garantir o menor custo de produção dos alimentos ensilados.

Para entendermos um pouco melhor sobre a diferença entre o custo da matéria verde e seca, vamos voltar ao exemplo anterior de R$ 105,10 por tonelada de matéria verde produzida por hectare. Ao transformamos o custo anterior em matéria seca, teremos um novo custo em torno de três vezes maior (R$ 328,43), explicado pela ausência de água na matéria seca, que, nesse caso, representa cerca de 2/3 do alimento.

Colheita

A colheita preenche uma parcela importante dos gastos na produção de silagem devido ao alto custo pago por hora máquina trabalhada. No caso do grão úmido, a colheita representa quase a metade dos gastos necessários em operações mecanizadas. Já em silagens de planta inteira, o corte custa em torno de um terço dessas operações, porque os grandes volumes produzidos por hectare necessitam de elevados investimentos em transporte, que terminam por reduzir a participação do corte nos gastos gerais. A partir dessa etapa até o fim do ciclo da silagem (oferta aos bovinos), deve haver atenção redobrada nas perdas de produção. Pois, para cada quilo do produto que se perde, maior será o custo do alimento. No texto da Revista AG (março/2018, nº 214), já havíamos falado sobre as perdas no processo de produção. Além disso, a colheita pode variar de 1% a 5%, o que representa importantes custos na produção da silagem.

Além dos processos de produção da silagem que citamos anteriormente e que geram gastos diretos, é importante incluir também os gastos com o pagamento de hora/homem trabalhada. Esse custo, resultado dos recursos humanos necessários para a produção, não é específico de um ou outro processo, mas representa os recursos financeiros necessários para a execução de quaisquer tarefas que possam aparecer até a conclusão da atividade.

Em silagens de grão úmido, a hora/homem representa, em média, 0,6%, enquanto, em planta inteira, apenas 0,4%. Apesar de extremamente baixo, quando comparado aos demais custos de produção, a hora/homem deve ser contabilizada para se obter o custo real da silagem produzida.

Transporte

Após a colheita ou o corte, o produto gerado no campo, deve ser transportado para dar continuidade à produção. Em virtude das cultivares de silagem de grão úmido produzirem menor volume de produto, o custo do transporte também se torna menor. Pois, enquanto o grão tem custo de transporte pouco maior do que 15% dos gastos necessários em operações mecanizadas, o custo para o transporte de planta inteira supera 40%.

Além disso, as perdas relacionadas ao transporte variam de 1% a 3%, que ocorrem ao longo do caminho percorrido entre o campo e o local da ensilagem, e também no momento da descarga do material, que cai para fora do silo. Outro causador de perda é a exposição do material ao oxigênio por muito tempo, tornando-se impróprio para a alimentação animal.

Moagem

Essa etapa é exclusiva da silagem de grão úmido, que ocorre logo após a colheita do grão. O custo para realizar a moagem atinge quase um quarto dos gastos com operações mecanizadas, em razão da grande necessidade de energia desse processo.

Enchimento e compactação

A ensilagem propriamente dita conta com o enchimento e a compactação do silo. Essas duas etapas são tão mais caras quanto maior for a partícula do alimento a ser ensilado, devido ao maior tempo de execução dos processos, à menor compactação do material e à maior área necessária para o armazenamento. Portanto, ao comparar o custo de enchimento e compactação de diferentes tipos de silagem, a de grão úmido utiliza cerca de 13% do custo das operações mecanizadas, enquanto a de planta inteira, 27%. Isto ocorre pela facilidade de enchimento e compactação, que permite a silagem de grão úmido gastar a metade do que é gasto pela silagem de planta inteira em hora/máquina.

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Quanto maior o tamanho de partícula, mais caro será produzir silagem

Além dos custos já mencionados para realizar a ensilagem, também há a necessidade de contabilizar os gastos com o inoculantes e com a lona plástica (em silos que a utilizam). O custo com a adição de inoculantes na matéria verde representa apenas 0,5% em silagens de grão úmido e de 3% a 4% em silagens de planta inteira. O mesmo ocorre com o custo da lona plástica, que é em torno de 0,3% em grão úmido e de 1,5% a 2,5% para planta inteira.

As perdas relacionadas a essa etapa são as mesmas já mencionadas no transporte. No entanto, quando o tempo de conclusão do enchimento e compactação é muito elevado, podem haver perdas pela exposição da silagem ao oxigênio. Assim, o tempo entre a colheita e o fechamento do silo não deve passar de dez horas. Imediatamente após o término do enchimento e da compactação, o silo deve ser fechado, com o cuidado de expulsar todo o ar que possa entrar em contato com a silagem, evitando maiores perdas. Existem dois tipos de perdas que podem ocorrer após o fechamento do silo, as que não podem ser evitadas e aquelas que podem. As perdas que não podem ser evitadas ocorrem em função da fermentação anaeróbica, que nada mais é do que um processo natural e desejável, realizado por bactérias anaeróbicas (que crescem na ausência do oxigênio e morrem em sua presença) que reduzem o pH do material, o que permite o seu armazenamento por vários meses ou anos. Apesar de desejável, a fermentação anaeróbica reduz o volume da matéria verde em 1% a 2%, do fechamento até a abertura do silo.

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Já as perdas que podem ser evitadas são aquelas que ocorrem pela fermentação de bactérias aeróbia (crescem com o oxigênio e morrem sem ele) e estragam o alimento. Mesmo que chamemos de perdas evitáveis, não é possível eliminá- la completamente, pois, por melhor que seja a compactação e o fechamento do silo, sempre haverá um pouco de ar. Portanto, nas melhores condições haverá perda de 1%, porém, em condições de má compactação e fechamento, as perdas podem ser de 10% ou mais. Isto é, uma silagem que custaria R$ 100,00 por tonelada de matéria verde passaria a custar R$ 111,11, o que representa cerca de R$ 1 mil a mais para cada 100 bois comendo 1% de seu peso vivo em um confinamento de 90 dias.

Após 30 dias do fechamento do silo, o ciclo de produção da silagem é encerrado. Nesse momento, o material que estiver em condições de ser ofertado para os animais é o volume total produzido da silagem. Agora sim, podemos fazer o cálculo de quanto custou a silagem através da divisão entre o custo total e o volume total de silagem pronta para a oferta aos bovinos

Oferta

Apesar de o custo de produção da silagem já ter sido determinado, ele ainda pode aumentar após a abertura do silo. Pois de nada adianta a produção barata da silagem se a oferta e o manejo do silo não forem realizados de forma adequada também. Podemos separar, aqui, o custo de produção da silagem e o custo da silagem ofertada aos animais. Nessa etapa, o que deve ser contabilizado são apenas as perdas do produto. Vamos imaginar que, ao comprarmos silagem para alimentar um animal que consome dez quilos por dia de matéria verde do alimento, gastamos R$ 1,00. Porém, a silagem comprada não foi ensacada corretamente, e um em cada dez quilos ofertados tem de ser descartado. Com isso, teremos de ofertar mais um quilo por dia, totalizando 11 kg, correto? Pois bem, ao aumentar de dez para 11 kg de silagem por dia para esse animal, estaremos tendo um custo de R$ 1,10 por dia, o que representa uma elevação de 10% no custo de produção.

É exatamente isso que ocorre quando o silo é aberto e manejado de forma incorreta. As perdas após a abertura do silo variam de 1% a 5%, em função do oxigênio que permite o desenvolvimento das bactérias aeróbicas e estragam o alimento. No entanto, o volume de material impróprio para o consumo dos animais é maior quanto mais relapso for o manejo com a silagem pronta para oferta.

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Perdas

É fácil notar quando falamos em silagem que o segredo para um produto de excelência e baixo custo de produção passa por uma adequada operacionalização, garantindo todos os princípios de conservação e a menor perda possível, que pode variar de 5% a 25%.

Para enxergarmos um pouco melhQuanto maior o tamanho de partícula, mais caro será produzir silagemor o que essa perda representa, imaginamos que o custo de produção de uma tonelada de matéria verde de silagem de milho planta intQuanto maior o tamanho de partícula, mais caro será produzir silagemeira tenha sido R$ 100,00. Agora, aplicamos, sobre esse custo, aqueles 5%, que são o mínimo possível de perdas, e chegamos ao custo de R$ 105,26. Mas e se a perda fosse mediana? De 15%! Aí, o novo custo da silagem passaria a ser R$ 117,65. Por fim, podemos simular o pior dos cenários, com 25% de perda do total da produção, então o custo subiria para R$ 133,33. Portanto, o segredo de uma silagem de boa qualidade e baixo custo passa não somente pela boa compra de insumos e pela escolha da cultivar mais adequada, mas também por uma produção atenta a todo o tipo de perdas ao longo de todo o processo.

*Amir é veterinário e mestre NESPro/UFRGS. **Murilo é graduando de Agronomia, bolsista de IC – NESPro/UFRGS *** Júlio e Tamara são veterinários e doutores NESPro/UFRGS [email protected] **** Eduardo é zootecnista e doutorando do PPG-Zootecnia – NESPro/UFRGS

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